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{ ARTIGO }

A velha senhora

Escritor José Paulo Cavalcanti Filho, membro da ABL, escreve sobre curiosidades históricas dos 125 anos da academia

 

José Paulo Cavalcanti Filho

Edição: Scriptum

 

Assim os torcedores da Juventus (Turim, Itália), La Juve, chamam seu time ‒ La Vecchia Signora. E agora (20 de julho), quando a Academia Brasileira de Letras fez 125 anos, podemos também assim chamar, com carinho, nossa Casa. Aproveito para lembrar.

Cabeceiras das mesas. Ninguém mais senta nelas. Isso vem de quando, por deferência, lá ficavam só os mais velhos. Dando-se, com frequência, serem os próximos a morrer. A partir daí, virou regra. Dá um azar danado. Melhor mesmo é deixar as cabeceiras vagas e sentar nas outras cadeiras.

Panelinha. Na criação da Academia, intelectuais se reuniram em torno de Machado de Assis, com almoços servidos em uma pequena panela de prata (que está, hoje, no Museu da Academia). O utensílio acabou dando nome ao grupo. E, depois, a expressão ganhou mundo.

Mulheres. Demoraram a entrar na Academia. Lúcia Lopes, cogitada para ser uma das fundadoras, acabou vetada. Por ser mulher. Primeira a ser admitida foi Raquel de Queiroz (autora de Memorial de Maria Moura), 80 anos depois da fundação. E, primeira presidente, ainda mais tarde ‒ a consagrada Nélida Piñon, 99 anos depois.

Mais longevos. O caruaruense Austregésilo de Athayde permaneceu, na presidência, por 35 anos. E, na cadeira, Magalhães de Azevedo ficou lá durante 66 anos (morreu aos 91). Como ninguém mais é eleito com 25 anos (seu caso), não haverá outro.

Sem livros. Apenas Graça Aranha foi eleito sem haver escrito um único livro (toda sua obra é posterior). Certo dia, enlouqueceu e começou discurso dizendo que o lugar era um “Túmulo de Múmias”, após o que proclamou “Morte à Academia”. A reação dos acadêmicos foi passear, pela sala, carregando Coelho Neto (o mais velho ali presente) nos ombros. Graça renunciou, mas a eleição do substituto esperou, que vagas ali ocorrem só com a morte dos acadêmicos.

Vagas. Getúlio Vargas ‒ à época todo poderoso no País ‒ queria pertencer à academia. Só que faltava lugar, que não morria nenhum confrade. Foi quando Ataulfo de Paiva se prontificou “Não seja por isso, presidente, se quiser eu me suicido”. Não precisou, graças a Deus. Sobre Jorge Amado, consta lenda de ter feito promessa à sua mulher, Zélia Gattai, de que ela entraria. Mas, novamente, não havia vaga. E ela insistia. Foi quando Jorge, elegante como sempre foi, preferiu morrer para que a mulher acabasse eleita no lugar que era seu. Non è vero, ma…

Emilio de Menezes. Eleito, a Academia não permitiu que assumisse a cadeira. Por conta de críticas, no seu Discurso de Posse, a muitos acadêmicos. E ele não aceitou alterar nada. Só para uma ideia, veja-se o que disse (trecho) do confrade Oliveira Lima, no soneto O Plenipotenciário da Facúndia (da eloquência, pois). Começou:

“De carne mole e pele bobalhona

Ante a própria vaidade se extasia

Sendo Oliveira, não dá azeitona

Sendo Lima, é quase melancia”.

E acabou:

“Assim se conta essa figura estranha

São mil léguas quadradas de vaidade

Por centímetro cúbico de banha”.

Percebendo a morte próxima, Emílio tomou posse na Secretaria da Academia. Sem discurso.

 

 

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

 


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