“Abram alas que Gegê vai passar”

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ARTIGO

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

À primeira vista, a leitura parece um desafio enorme. Afinal, são 1.652 páginas. Mas o texto é fluido, a reconstrução histórica primorosa, a descrição das personalidades envolvidas fascinante, tudo com uma riqueza de detalhes que só uma pesquisa minuciosa baseada em farta documentação seria capaz de permitir. Trata-se da biografia em três volumes de Getúlio Vargas (São Paulo; Companhia das Letras; 2012, 2013 e 2014), de autoria do cearense Lira Neto, uma obra que tem tudo para se tornar em tempo recorde um clássico da historiografia nacional.

Os livros cobrem um período riquíssimo – do nascimento de Getúlio, em 1882, até seu suicídio, em 1954. De 1889 até a Revolução de 1930, foram nada menos do que 13 presidentes da República (eleito, Júlio Prestes não chegou a assumir). Os volumes descrevem e analisam o toque positivista no estilo gaúcho de fazer política de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros. Examinam as eleições, a forma de se comunicar da época e quatro episódios que marcaram de forma indelével a história nacional: a Revolução de 30 (uma verdadeira epopeia), a Revolução Constitucionalista de 32, o golpe que instituiu o Estado Novo e o suicídio de Getúlio Vargas. Transitam ainda pelas relações familiares, empresariais, conjugais, extraconjugais de muitas personalidades envolvidas na trama.

O texto aborda com detalhes uma gama monumental de assuntos, o que faz de um artigo como esse um comentário necessariamente parcial e incompleto. É preciso, pois, selecionar os temas. Escolhi aqui as questões referentes às eleições desequilibradas e à maneira de se fazer campanhas; à instabilidade institucional, fruto da permanente ameaça de sublevações armadas; e Àquilo que poderíamos chamar, usando um conceito que evidentemente não existia quando os fatos aconteceram, de “fake news” daqueles momentos tão importantes.

As eleições eram tudo, menos amplas, livres, equilibradas e justas. O risco de fraude era constante. No pleito para presidente estadual (o governador da época), de 1922, Borges de Medeiros concorreu ao seu quinto mandato – o que por si só já seria uma aberração para os padrões contemporâneos. Medeiros não atingiu os três quartos dos votos exigidos pela Constituição. Getúlio, então presidente da Comissão de Constituição e Poderes da Assembleia dos Representantes, foi, ao lado de dois colegas deputados, o encarregado de lhe dar a péssima notícia. Encontrou um Medeiros entusiasmado, que os recebeu festivamente dizendo: “Já sei, vieram me dar os parabéns pela nossa retumbante vitória”. Getúlio e seus colegas deram meia volta e, no dia seguinte, Borges de Medeiros foi declarado vencedor, com 2 mil votos a mais do que os três quartos regulamentares.

“Vote no Brigadeiro, que é bonito e é solteiro” – era um inocente slogan de Eduardo Gomes, candidato à presidência da República em 1945, amplamente apoiado pelos grandes jornais da época. Esses periódicos “forçavam a barra” no apoio a Gomes. O Correio da Manhã fez o que pode para encontrar uma foto de seu adversário, o general Dutra, recebendo uma condecoração em forma de suástica do embaixador alemão no Brasil. Ao fim e ao cabo, o que importou mesmo na campanha foi um manifesto de Getúlio aos eleitores, pregados nos postes do Rio de Janeiro, intitulado: “Ele disse: votai em Dutra”. Nesse cartaz, em linguagem muito pouco empolgante para os dias de hoje, declarava sua opção e o apoio do PTB pela candidatura o general, que venceria o pleito com folga.

Outro aspecto que chama a atenção nos livros é a sequência de rebeliões armadas. Desde 1923, quando partidários de Assis Brasil, candidato derrotado nas eleições para presidente da Província do Rio Grande do Sul, quiseram tomar o poder pela força das armas até os dias que antecederam ao suicídio de Getúlio, as conflagrações povoaram a agenda política. Os movimentos de 1930 e 1932, os sete mil presos políticos em 1935-1936, o Golpe de 1937, a deposição de 1945 e os acontecimentos de 1954 foram passagens violentas de nossa história. Em épocas da paz possível, era inconcebível governar sem o apoio das Forças Armadas, que eram players reconhecidos e fundamentais do jogo político.

Fala-se muito em fake news na época da generalização das redes sociais. São várias, todos os dias, e se alastram como ervas daninhas estampadas nos facebooks e instagrans da vida. A era Vargas foi pródiga em fake news na ausência de tecnologia. Talvez a maior e mais grave das consequências, pois foi usada como justificativa para a implantação do Estado Novo, tenha sido o chamado Plano Cohen, que detalhava supostas ações planejadas pelos comunistas para implementar um governo de extrema esquerda no país. Tudo falso. O “plano” saiu do outro lado: foi elaborado pelo general Olímpio Mourão Filho, chefe do serviço secreto da Associação Integralista Brasileira. Até em fake news o governo Getúlio Vargas demonstrou sua originalidade.

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