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{ ARTIGO }

Apesar do “novo cangaço”, roubos a banco estão em queda no País

A pandemia não afetou a tendência, uma vez que se trata de modalidade de crime organizado e não de crime de oportunidade, escreve o sociólogo Tulio Kahn

 

 

Tulio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

De acordo com as estatísticas do governo federal (Sinesp), os roubos às instituições financeiras estão em queda no País pelo menos desde 2015. Não estamos falando aqui de saidinhas de banco e outras modalidades onde a vítima é o cliente, mas de roubos onde a instituição financeira é a vítima, incluindo agências, postos, caixas eletrônicos e outros estabelecimentos.

Segundo a definição do Manual de 2004, a categoria é a “soma de todas as ocorrências de roubo de valores pertencentes a instituição financeira (banco, posto bancário, financeira, Caixa Econômica, casa de câmbio etc), ou sob a guarda da mesma, incluindo roubos a ou de caixa eletrônico. Não devem ser contabilizados aqui os roubos a pessoas físicas praticados no interior de estabelecimentos financeiros ou em caixas eletrônicos, mas apenas aqueles em que os valores subtraídos pertenciam ou estavam sob a guarda de pessoa jurídica”. Ficam de fora apenas as agências dos Correios e as casas lotéricas, ou os casos em que há mortes envolvidas. Na primeira situação, os casos são categorizados como roubo a estabelecimentos comerciais; no segundo, de acordo com a regra da gravidade, devem ser contabilizados como latrocínios (Sinespjc, MJ, 2004).

É possível que haja, portanto, algum sub-registro nas estatísticas. Muitos casos do que se convencionou chamar de “novo cangaço” resultam em mortes e, pelo Manual, deveriam entrar na estatística de latrocínio e não de roubo a instituição financeira. Caixas eletrônicos que são explodidos com dinamite fora do período de expediente e sem a presença de usuários também podem ficar de fora, uma vez que não há emprego de violência ou ameaça de violência, pelo menos contra pessoas. Seria interessante, para fins de análise e planejamento, monitorar também estes outros modus operandi e os Estados devem ter estatísticas mais refinadas sobre isso.

Como quer que seja, uma vez que a definição manteve-se igual no período, é possível analisar algumas tendências temporais. No início da série histórica tínhamos de 100 a 120 casos por mês, enquanto a faixa atual varia entre 20 e 40 casos. Se tomarmos o período de janeiro a agosto de cada ano – uma vez que os dados mais recentes são de agosto de 2021 – estamos falando de uma queda de 59% nesta modalidade de crime.

Como previsto pela teoria, o período da pandemia não afetou a tendência, uma vez que se trata de modalidade de crime organizado e não de crime de oportunidade, como boa parte dos roubos.

Note-se, finalmente, que há uma retomada de casos neste último período. Nos últimos meses, o número de casos está acima da reta de tendência, mais próximo dos 40 casos. No período de janeiro a agosto de 2020 tivemos 299 casos e em 2021 tivemos 338 casos no mesmo período, um aumento de 13%. A tendência de queda dos últimos anos pode estar sendo interrompida.

Existem diversas hipóteses para explicar a queda em médio prazo, que vão de causas econômicas gerais (roubo de carga e roubo de veículos também estão em queda neste período) e migração para alvos mais vulneráveis, a ações específicas promovidas pelas forças de segurança ou pelas instituições financeiras, como melhoria nas investigações, diminuição do volume de dinheiro em caixa, aperfeiçoamentos tecnológicos na segurança etc. Sabe-se que com o avanço da internet e do home office, as instituições financeiras têm fechado inúmeros estabelecimentos físicos e investido nos aplicativos e no autoatendimento, reduzindo bastante a quantidade de alvos disponíveis, em especial após a epidemia. É possível, também, que os Estados estejam sendo mais rigorosos na classificação do fenômeno. Os dados infelizmente não nos permitem aprofundar na etiologia do fenômeno, uma vez que trazem apenas informações quantitativas.

De todo modo é interessante notar que a queda não foi generalizada e que há muitas diferenças regionais. Na lista de números absolutos de casos entre janeiro e agosto, de 2015 até 2021, nota-se uma queda acentuada e linear em São Paulo, Maranhão, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Goiás, Bahia, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina, Rio Grande do Norte etc.

Por outro lado, a quantidade de casos parece estar estável ou crescente em Estados como Rio de Janeiro, Amazonas, Rondônia, Espírito Santo e Amapá. A região Norte do País, aliás, é também onde mais crescem quase todos os crimes patrimoniais nos últimos anos.

Em resumo, o que os dados nos dizem é que: 1) existe uma queda nacional linear de médio prazo nos roubos às instituições financeiras e a tendência não foi afetada pela epidemia; 2) esta queda foi aparentemente interrompida em 2021; 3) alguns Estados apresentam aumento do número de casos no período, especialmente na região Norte.

Os dados nacionais desagregados por UF e mês são importantes, pois nos ajudam a entender quando estamos diante de uma tendência geral ou de um surto específico ou local. Mais dados de natureza qualitativa são necessários, todavia, para entendermos o que aconteceu e esta acontecendo. Se não entendemos e identificamos corretamente suas causas, não conseguimos controlar o crime. Se não entendemos, ele pode simplesmente voltar a crescer.


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