Aquém do potencial

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ARTIGO

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Como já era de se esperar, o desempenho da economia brasileira no segundo trimestre de 2020, que reflete o impacto inicial da pandemia do coronavírus, foi pra lá de preocupante. De acordo com o relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o produto interno bruto (PIB) do segundo trimestre deste ano registra uma queda relativamente ao primeiro trimestre da ordem de 9,7%, a pior da série iniciada em 1996.

Se compararmos o Brasil com outras economias selecionadas (Gráfico 1), podemos observar que o nosso desempenho não se encontra entre os mais negativamente afetados.

 

Mais do que isso, o gráfico mostra que apenas a China e a Índia tiveram desempenho positivo, respectivamente de 11,5% e 0,7%.

Os outros dez países considerados na amostra tiveram desempenho negativo. Desses, só os Estados Unidos, com -9,1%, apresentou um resultado ligeiramente melhor que o do Brasil, cuja queda foi semelhante à da Alemanha. Os outros sete países – Chile, França, Colômbia, México, Espanha, Reino Unido e Peru – tiveram desempenhos piores, variando de -13,2% a -27,2%.

Considerando que o impacto da pandemia foi praticamente generalizado, atingindo de forma mais ou menos intensa a esmagadora maioria das economias, acredito ser recomendável aguardar o resultado do terceiro trimestre, a fim de constatar se o desempenho dos países piorou, se estabilizou ou melhorou. Com isso será possível, também, fazer uma avaliação mais abalizada das políticas adotadas pelos governos para enfrentar os desafios impostos pela conjuntura adversa.

Minha reação imediata, ao me deparar com os dados do gráfico 1, foi de comparar com algo semelhante ocorrido na década de 1980, que se tornou conhecida como “década perdida”, cujos dados aparecem no quadro 1, extraído do livro Qual democracia?, de autoria de Francisco Weffort (Companhia das Letras, 1982, p. 67).

A DÉCADA PERDIDA

Fonte: CEPAL.
(*) O índice geral, elaborado pela CEPAL, inclui todos os países latino-americanos, não apenas os aqui listados.
Não considera os dados de Cuba porque o conceito de produto social é diferente dos demais.

 

Apesar de relevantes diferenças, entre as quais (i) contexto histórico, com e sem pandemia; (ii) períodos analisados, um trimestre no gráfico 1 e uma década na tabela 1; (iii) o gráfico 1 contém países de diversas partes do mundo, enquanto a tabela 1 contém apenas países da América Latina; (iv) os números da tabela 1 referem-se ao produto interno bruto (PIB), enquanto os da tabela 1 referem-se ao produto interno bruto por habitante (PIB por Habitante). Um simples olhar pode passar a ideia consoladora de que a situação do Brasil, nos dois casos, não é boa, mas poderia ser bem pior, como se observa pelo desempenho de outros países considerados nas amostras.

Diversas razões recomendam não adotar essa visão consoladora. Vou me ater a apenas duas delas:

  • 1. Quando se considera um fenômeno tão dinâmico como é o do desenvolvimento, não basta olhar para o registro isolado de um determinado país, sendo aconselhável analisá-lo relativamente ao desempenho de outros países. Nesse, sentido, e tomando por base a tabela 1, é falsa a ideia de que o crescimento negativo de apenas -0.4% do PIB por habitante na década de 1980 não foi tão ruim, uma vez que, no mesmo período, outros países, da mesma região ou não, tiveram desempenhos que lhes permitiram suplantar o Brasil em diversos aspectos, como foi o caso, na época, dos chamados Tigres Asiáticos.
  • 2. Ainda considerando o dinamismo do fenômeno do desenvolvimento, vale a pena considerar o fator continuidade e, nesse sentido, examiná-lo como um processo e não como uma fotografia estática. Com base nisso, é possível constatar que no caso da década de 1980, diferentemente do que ocorre no atual momento, o fraco desempenho do Brasil representou uma dura reversão, uma vez que a estagnação econômica pôs fim a um longo período de excelente desempenho da economia brasileira, conforme estudo de Angus Maddison¹. Já o fraco desempenho do segundo semestre de 2020 – expresso nos dados do gráfico 1 – representa a continuidade de extenso período de crescimento econômico aquém do nosso potencial. De certa forma, é possível afirmar que a economia brasileira jamais se recuperou por completo da estagnação da “década perdida” de 1980, apresentando desempenhos medíocres de lá para cá, com raras e pontuais exceções. Reduzindo o foco para os últimos cinco anos, constata-se que o Brasil não conseguiu sequer se recuperar da perda acumulada nos dois desastrados últimos anos do governo de Dilma Rousseff, pois o crescimento de pouco mais de 1% nos anos de 2017, 2018 (governo Temer) e 2019 (governo Bolsonaro) não foi suficiente para que atingíssemos o patamar de 2014.

 

 

 

¹ No consagrado trabalho World Economic Performance Since 1870, Angus Maddison, um dos mais respeitados analistas de ciclos longos de desenvolvimento, identificou o Brasil como o país que apresentou melhor desempenho de 1870 a 1986, numa amostra que reunia os cinco maiores países da OCDE (EUA, Alemanha, Reino Unido, França e Japão) e os cinco maiores de fora da OCDE (Rússia, China, Índia, México e Brasil). Nesse estudo, publicado em 1987 e apontado pelo embaixador Rubens Ricupero (2001, p. 103) como “o mais impressionante de todos, por comparar grandes economias, portanto entidades pertencentes mais ou menos à mesma ordem de grandeza, e por cobrir duração de tempo tão extensa”, Maddison concluiu que “o melhor desempenho tinha sido o brasileiro, com a média anual de 4,4% de crescimento; em termos per capita, o Japão ostentava o resultado mais alto, com 2,7%, mas o Brasil, não obstante a explosão demográfica daquela fase, vinha logo em segundo lugar, com 2,1% de expansão por ano”.

Referências

MACEDO, Roberto. PIB afundou ainda mais no buraco onde está desde 2015. O Estado de S. Paulo, 3 de setembro de 2020.p. A 2.

RICUPERO, Rubens. O Brasil e o dilema da globalização. São Paulo: Editora SENAC. Série Livre Pensar, 2001.

WEFFORT, Francisco. Qual democracia? São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

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