Autoritarismo democrático

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ARTIGO

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Não foi pouco o que aconteceu no dia 7 de setembro. A mobilização foi impressionante. Em geral, as pessoas têm mais facilidade para expressar insatisfação e as grandes manifestações são “contra” alguma coisa: “impeachment de Dilma” em 2016, jornadas de junho de 2013, os “caras pintadas” contra Collor em 1992 etc. No caso de Bolsonaro, as manifestações gigantescas – e a favor.

Um número expressivo de brasileiros se dispôs a ir para a rua num momento particularmente ruim do País. A economia em estagnação, inflação subindo, desemprego altíssimo, aumento de produtos que impactam a vida dos mais pobres (gasolina, energia elétrica e gás de cozinha), estiagem, juros mais altos. A manifestação expressiva não reflete um sentimento majoritário da sociedade: o governo tem 22% de avaliações positivas e Bolsonaro angaria a rejeição de 59% dos eleitores.

Percebe-se uma certa sofisticação na narrativa Bolsonarista. Não é comum que um discurso marcadamente anti-democrático – que questiona as decisões do Supremo, chama ministro de “canalha” e propaga que não cumprirá decisões judiciais – defenda “liberdade de expressão” e “soltura os presos políticos”, frases que ficariam bem na boca de Chico Buarque. Nesse sentido, Bolsonaro se apropria de temas caros à esquerda, retirando dela o monopólio da defesa dos valores democráticos. Segundo o Datafolha, 75% dos brasileiros se declaram favoráveis à democracia.

O Bolsonarismo é um processo, movimento. É um inesgotável renovar de pautas, o rodízio permanente dos adversários. Já que seu governo é mal avaliado e as coisas não vão bem, para manter-se vivo, Bolsonaro precisa “ativar” seus apoiadores. No começo era a velha política e o “mimimi”. Universidades federais e Sérgio Moro tiveram sua vez. Cloroquina já apareceu como a salvação da lavoura. Hoje, é o Supremo Tribunal Federal e o voto impresso. Não tem fim.

Nos seus discursos no dia da Independência, o presidente da República passou dos limites e chamou as instituições para a briga, provocando reações moderadas dos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo. Bolsonaro também desagrada a classe política como um todo, colocando em dúvida desde já os resultados das eleições do ano que vem, ignorando que políticos se alimentam de eleições. A gente sabe o que acontece quando os políticos têm sua sobrevivência colocada em risco. Aí, não há manifestação que dê jeito. Convém não esticar muito a corda.

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