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{ ARTIGO }

Biro-Biro, Brad Pitt e as pesquisas

A desconfiança das pesquisas de opinião é antiga, mas fica potencializada nesse momento de raciocínio instintivo, escreve o cientista político Rubens Figueiredo

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Dentre as centenas de mensagens, memes e filmes que recebo todos os dias por WhatsApp, uma imagem me chamou especialmente a atenção. Na foto, estavam o ex-jogador Biro-Biro, do Corinthians, e a cantora pélvica Gretchen, já entrada nos anos e com o rosto deformado em função de várias intervenções estéticas, ao que tudo indica de sucesso questionável. O casal esbanjava feiúra. Abaixo, estava escrito: “Brad Pitt e Angelina Jolie, segundo o Datafolha”.

Vivemos tempos de ceticismo generalizado. Chega a ser desumana a quantidade de informações que recebemos o dia inteiro, todos os dias. Além disso, nos sentimos quase obrigados a ter opinião sobre tudo. E rápido, de impulso. Se pudéssemos resumir nossa época em uma expressão, poderíamos dizer que estamos passando pelo primado da anti-reflexão. É como se as palavras de ordem fossem: “antes de pensar, reaja”!

A desconfiança das pesquisas de opinião é antiga, mas fica potencializada nesse momento de raciocínio instintivo, onde o gosto se revela a melhor estrada para o conhecimento. Se eu gosto de Bolsonaro, tudo que ele faz eu considero correto e aqueles que não comungam da minha opinião são insignificantes demais para merecer meu desprezo. Se eu não gosto de Bolsonaro, esse fascista genocida irresponsável, aqueles que o cercam são inúteis e tudo que seu governo faz é simplesmente ridículo.

Gostemos ou não das pesquisas de opinião – que têm nos levantamentos de intenção de voto face mais vistosa –, o fato é que elas funcionam bem e ostentam um vastíssimo histórico de acertos. Mas estão longe de ser infalíveis. O erro é da natureza estatística da pesquisa. Existe a margem de erro e o intervalo de confiança. Quando ele é de 95%, por exemplo, significa dizer que de cada 100 levantamentos, 95 deles estarão dentro da margem de erro e cinco não. Ou seja, nesses casos, o resultado não refletirá a realidade. Estarão errados.

Existe, também, uma ideia equivocada segundo a qual uma pesquisa de intenção de voto significa o prognóstico do resultado final das urnas. Isso é terrível para a credibilidade dos levantamentos. Uma pesquisa reflete o momento que está sendo realizada – e não faz nenhum sentido cruzar os votos apurados com os índices de intenção dos eleitores levantada, digamos, três dias antes do pleito. O slogan da Rádio Bandeirantes, de São Paulo, adverte que “em um segundo turno tudo pode mudar”. Imagine em três dias…

As técnicas amostrais são um avanço e tanto no desenvolvimento das Ciências Sociais. É conhecido o caso da revista Literary Digest que, em 1936, interrogou milhões de eleitores sobre a preferência na eleição americana, principalmente por cartas que tinham como base as listas telefônicas. O resultado apontava a vitória de Alfred Landon. George Gallup elaborou uma amostra com apenas 3 mil eleitores e antecipou a vitória de F. D. Rooselvet, com 55,7% dos votos (o candidato teria 62,5% nas urnas). Estava provado que o importante é a qualidade da amostra e não a quantidade de inquiridos.

Recentemente, levantamentos realizados pelo IPESP-XP e Datafolha, com apenas uma semana de diferença de campo, deram resultados muito diferentes, que extrapolaram, e muito, as margens de erro dos levantamentos. As amostras eram diferentes, bem como a técnica de coleta dos dados (telefônica no IPESP e presencial no Datafolha). Mas é evidente que alguma coisa deu errado. No IPESP, Lula e Bolsonaro empatariam em 29% no primeiro turno. O Datafolha cravou 41 a 23% para Lula. No segundo turno, IPESP deu 42 a 40% para Lula, enquanto o Datafolha deu 55 a 32% para o petista. Sabe por quê? Porque as pesquisas não transformam Biro-Biro em Brad Pitt, mas erram, como só acontece em experimentos coletivos que tentam desvendar o agregado das misteriosas intenções humanas.


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