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{ ARTIGO }

Candidatos sem ambiente

Nos novos tempos, a água potável vale mais do que o petróleo e a floresta em pé mais que todo o ouro retirado pelo desmate do garimpo, escreve Emerson Kapaz

 

 

Emerson Kapaz, empresário, ex-secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo e ex-deputado federal 

 

Fora os negacionistas convictos, aqueles que se arrepiam à simples menção da palavra ciência, há consenso sobre a urgência de se frear a destruição do planeta, buscando pelo menos retardar a hecatombe climática. Isso impõe mudanças, até mesmo radicais, nos modelos de desenvolvimento e no modo de vida das sociedades, cujo bem-estar, em breve, estará associado a riquezas muito diferentes das cobiçadas até então.

No Brasil, um dos líderes mundiais de desigualdade social, os 45% da população sem coleta de esgoto (dados atualizados pelo DataSan-FGV) convivem com mais de 3.000 lixões a céu aberto, nefastos para a saúde das pessoas e do ambiente, multiplicando doenças e produzindo nada menos do que 27 milhões de toneladas de CO2 ao ano. Pior: o desarranjo ambiental é mais agudo para os pobres, aprofundando o fosso da miséria. Basta observar a frequência das tempestades violentas. Só nos últimos cinco meses 7,8 milhões de pessoas sofreram com cheias e deslizamentos — mais de 500 morreram. O Sul do país secou, dizimando plantações.

A gravidade do cenário não permite adiar soluções. Ainda assim, elas não aparecem nos programas de governo — desconhecidos do eleitor a menos de quatro meses da eleição — nem nos discursos dos candidatos à presidência da República que lideram as pesquisas, mais preocupados em disseminar o ódio do que em construir qualquer alternativa para as crises de hoje e do amanhã.

Reféns de seu descaso, os postulantes nem notam que as saídas existem. Muitas delas já em curso no meio empresarial, com a introdução de práticas ESG na produção, atendendo aos novos parâmetros ambientais e de relações humanas. Ou ainda no agronegócio de ponta, que redescobriu que vive da saúde da terra e da água.

Mas é possível avançar mais, com celeridade — e, acreditem, com apoio popular. Pesquisa realizada pela FGV com 5.400 entrevistados aponta que 94% reconhecem que a mudança climática está acontecendo e 74% acham que ela é prejudicial para o País e para as suas vidas. Números nada desprezíveis, que deveriam seduzir os candidatos.

Na prática, as mudanças que o mundo e o país exigem começam a ser construídas a partir da formulação de uma agenda alicerçada em um novo contrato social. Essa é a minha aposta. Não individual, mas coletiva, de dezenas de cientistas, empresários, dirigentes e militantes de ONGs e tantos outros. Estamos convencidos de que o mundo do presente e do futuro gira em torno do eixo ambiental —nova mola de impulsão do desenvolvimento. E que o Brasil tem tudo para liderar estes novos tempos. Nele, a água potável vale mais do que o petróleo, a floresta em pé mais que todo o ouro retirado pelo desmate do garimpo. Nele, não há lugar para candidatos sem ambiente.

Publicado originalmente na edição de 11 de junho de 2022 da Folha de S.Paulo

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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