Casa-grande e Senzala em análise

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PARA PENSAR

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático                          

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático, iniciou recentemente uma nova série de artigos no site da fundação, oferecendo uma visão das principais correntes de interpretação do Brasil nos campos político, econômico, cultural, social e antropológico. Os artigos serão seguidos de breves resenhas das obras neles mencionadas. Esta breve resenha é de uma das obras mencionadas por Machado em Interpretações do Brasil – Uma antologia, primeiro artigo da série. Escrevo sobre Casa-grande e senzala, a seguir referida como CG&S, de Gilberto Freyre.

CG&S se apresenta como introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil. Conforme o autor (1900-1987), “(…) O sistema patriarcal (…), representado pela casa-grande (…) que (…) começou ainda no século XVI (…) não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase surpreendente, inesperada, do imperialismo-português: sua atividade agrária e sedentária nos trópicos; seu patriarcalismo rural e escravocrata (…) representa todo um sistema econômico social, político de produção (a monocultura fundiária), de trabalho (a escravidão) (…) de vida sexual e de família (o patriarcalismo polígamo) (…)”, entre aspectos que o autor ressalta[1].

A simples leitura do livro não é suficiente para compreendê-lo nos seus vários aspectos. Na minha primeira leitura, ainda bem jovem, o entendi apenas como uma descrição detalhada do que se passava num engenho de cana daquela época. Mas é muito mais do que isso, pois veio em 1933 com inusitada pretensão de uma análise no sentido científico – o autor, sociólogo –, sem personagens individualizados e nominados, como nos populares romances de Machado de Assis e de José de Alencar. CG&S foi um olhar analítico sobre a forma com que conviviam grupos de pessoas em torno de uma atividade produtiva.

Quando agora voltei a CG&S interessei-me mais por duas análises de seu texto por renomados autores de sólida formação acadêmica. A primeira é a apresentação do sociólogo Fernando Henrique Cardoso (FHC) à 48ª (!) edição do livro (Recife, Global Editora: 2003). Aliás, junto com a apresentação de FHC, essa edição pode ser livremente acessada via internet.[2] A segunda análise é mais rara, e a encontrei noutra edição de CG&S, ao custo de R$100,00 num sebo (Rio de Janeiro: Record, 2000). E havia ofertas a preços bem maiores.

A análise introdutória, na forma de um prólogo e cronologia, foi originalmente escrita pelo antropólogo Darcy Ribeiro para uma edição de CG&S em espanhol publicada na Venezuela. Darcy é um entusiasta da obra de Freyre enquanto que FHC é mais crítico. A análise de Darcy é bem mais densa do que a de FHC. O livro também traz cópia de uma gravura colorida e detalhada do engenho Noruega, que se abre numa folha com cerca de 45 cm nos lados, de autoria, em 1933, do famoso pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003), nascido nesse engenho. Talvez seja esse adendo artístico o responsável pelo alto custo dessa edição de CG&S, mesmo em sebos. Estou pensando em colocá-lo numa moldura.

Sugiro, portanto, que interessados por CG&S vejam também essas análises. Na minha própria visão, há algo em CG&S que lembra o enorme tamanho do Estado brasileiro, o comportamento aético de muitos de seus gestores e os contribuintes que o sustentam como escravos tributários.

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