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{ ARTIGO }

Como formar professores para a redução das desigualdades educacionais?

Para Alexandre Schneider, é preciso uma nova agenda em sala de aula, fundada na formação continuada dos docentes

 

Alexandre Schneider, pesquisador do Transformative Learning Technologies Lab da Universidade Columbia em Nova York, pesquisador do Centro de Economia e Política do Setor Público da FGV/SP e ex-secretário municipal de Educação de São Paulo na gestão de Gilberto Kassab

Edição: Scriptum

 

Em meu último artigo afirmei que fazer mais do mesmo não reduzirá a desigualdade educacional no Brasil — que aumentou antes da pandemia nas escolas públicas —, o que significa que o abismo entre os estudantes destas e os das escolas privadas deve ser ainda maior. Defendi que o foco da gestão pública deve ser na formação continuada de professores e prometi tratar do tema.

O desafio de proporcionar aprendizagens em profundidade e com qualidade para todas as crianças, jovens e adultos exige múltiplas ações, na sala de aula e fora dela. O cenário pós-Covid-19 apenas torna mais urgente essa tarefa. Em um país onde 37,8% dos lares com moradores de 10 anos ou menos sofre de insuficiência alimentar moderada ou grave não basta garantir que crianças e adolescentes comam bem na escola. É fundamental que se articulem políticas intersetoriais que fortaleçam eles e suas famílias.

Na sala de aula é preciso uma nova agenda, fundada na formação continuada dos professores, orientada em três pilares: avaliação diagnóstica e formativa dos estudantes, organização do currículo em ação e a oferta de devolutivas que apoiem a aprendizagem contínua dos estudantes.

Em um ambiente heterogêneo como a sala de aula pós-pandemia, os professores precisam saber de onde seus estudantes estão partindo. Para isso, além de utilizar os dados das avaliações padronizadas, devem saber elaborar instrumentos avaliativos —formais e informais — que acessem não apenas o conhecimento factual dos estudantes, mas competências globais que apoiam a aprendizagem como um todo.

O estado emocional dos estudantes, os saberes correlatos que eles construíram, seus gostos e preferências são informações essenciais para que o docente crie situações de aprendizagem significativas e que engajem as crianças em um contexto de escolarização que muitas vezes é desinteressante. Essa avaliação deve servir de base para o professor planejar suas ações e ser utilizada ao longo do processo de ensino para retroalimentar suas decisões pedagógicas.

O segundo pilar de uma formação continuada efetiva deve ser o do fortalecimento do conhecimento pedagógico do conteúdo dos professores, para que eles, diante dos contextos e das necessidades específicas de seu grupo de estudantes, possam organizar o currículo ação, ou seja, priorizar aspectos disciplinares centrais e selecionar materiais e atividades que apoiem a construção da aprendizagem em profundidade e com compreensão. Além de não fortalecer a ação docente, a seleção prévia ou priorização curricular de forma centralizada pode levar a um trabalho desprovido de sentido e desconectado da realidade dos estudantes, podendo resultar em aprendizagens superficiais e fragilizadas.

O terceiro pilar é o da ampliação da capacidade dos professores em oferecer devolutivas construtivas que apoiem as aprendizagens e o desenvolvimento da metacognição pelos estudantes. O mundo exige que a aprendizagem ocorra além dos muros da escola, de forma contínua e permanente. De um modo geral, professores não são formados para elaborar devolutivas efetivas aos seus estudantes, voltadas ao seu engajamento em aprender sempre. Ampliar a capacidade docente em oferecer este tipo de devolutiva é fundamental para que as escolas formem pessoas capazes de encontrar os caminhos apropriados para seguir aprendendo ao longo da vida.

Para desenvolver e fortalecer esses três pontos, a formação continuada que é ofertada aos professores não pode ser pontual, massificada e desprovida de interação. As pesquisas sobre práticas efetivas apontam para elementos centrais que devem ser incorporados nesse sentido: a formação deve ser de longa duração, com encontros espalhados ao longo do tempo, e coerentes entre si.

O foco da formação deve ser na área de ensino do professor, preferencialmente com o recorte da etapa/ano de atuação. Os professores precisam estar envolvidos em aprendizagens ativas e conectadas aos problemas reais que encontram em suas salas de aula, com múltiplas oportunidades para construir comunidades de práticas com seus pares.

Mudar o modelo de formação continuada de professores não é uma tarefa trivial e exige em primeiro lugar que os gestores acreditem na capacidade do corpo docente sob sua responsabilidade, compreendam suas necessidades reais de desenvolvimento profissional e atuem continuamente sobre elas. Isso é possível com uma boa articulação entre as redes públicas e as universidades, além do fortalecimento das estruturas de formação das secretarias de Educação.

Já antes da pandemia os instrumentos que garantiram a melhoria da aprendizagem em redes públicas no Brasil davam sinal de fadiga e não foram suficientes para evitar o aumento das desigualdades educacionais. É hora de apostar nos nossos educadores e dar-lhes todas as condições para que possam melhor cumprir com a árdua tarefa que terão pela frente. Criar um sistema robusto voltado ao seu desenvolvimento profissional é um dos principais movimentos nessa direção.

 

Artigo publicado originalmente na edição de 15 de setembro do jornal Folha de S.Paulo

 

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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