Crime e mobilidade durante a pandemia

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ARTIGO

 

 

 

Tulio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

As medidas de isolamento social adotadas para conter a epidemia de COVID-19 alteraram drasticamente a rotina das pessoas desde 2020. Esta mudança de rotina, como já previa a teoria criminológica do “crime como atividade de rotina”, trouxe impactos relevantes nas tendências criminais: crimes são atividades rotineiras e criminosos e vítimas adaptaram seus comportamentos, alterando as oportunidades criminais.

Embora o impacto tenha variado de crime para crime e de local para local, as tendências criminais no Brasil seguiram aproximadamente o padrão abaixo, ilustrado aqui pelas ocorrências mensais de “ameaças”. Queda inicial ligeira em março e abrupta em abril, seguida de uma lenta e gradual recuperação até meados de dezembro. A partir de 2021, novo movimento de queda gradual até março, quando a série se encerra. Ao final da epidemia e acompanhando suas ondas, é provável que vejamos um padrão em “W”.

 

 

Sem uma pesquisa de vitimização é difícil saber até que ponto estes movimentos refletem variações na incidência criminal ou variações na subnotificação de casos. E é provável que ambos os processos tenham ocorrido simultaneamente, dependendo do tipo de crime.

Outra discussão relevante é discernir o que foi mudança de “risco” e o que foi mudança apenas de “exposição”. Por exemplo, violência doméstica pode ter crescido apenas em função do maior tempo dispendido em casa, sem que isso tenha afetado os fatores de risco. Se calculado por tempo de exposição, é possível que encontremos inclusive queda na taxa. Trata-se apenas de mais ou menos tempo exposto ao risco, ou aumento de oportunidade.

Caso diferente, por exemplo, do aumento do “risco” em si. Suponhamos que com a epidemia e o aumento do desemprego tivemos aumento no consumo de álcool ou no nível de estresse nos relacionamentos domésticos. Neste caso, não se trata apenas de maior exposição, mas de alteração no nível de risco, uma vez que ambos os fatores estão associados às agressões. Mesmo mantido constante o tempo de exposição, veríamos aqui aumento na taxa de violência doméstica.

Estes exemplos são suficientes para ilustrar que ainda precisamos aprofundar bastante as análises para entender o comportamento criminal durante a epidemia. De todo modo – independentemente do nível de notificação e de exposição – parece certo que os níveis de isolamento social adotados em cada localidade estão entre os principais responsáveis pelo comportamento dos índices criminais no período.

O gráfico abaixo traz um indicador de tendências de mobilidade do Google para o Brasil, entre fevereiro de 2020 e março de 2021. Ele mede o número diário de visitantes às estações de transporte (metrô, trem, ônibus), com relação ao período antes da pandemia. Como fica evidenciado, há uma queda abrupta de mais de 60% na mobilidade nos meses iniciais – março e abril de 2020 – seguida de um crescimento linear até o final do ano. Com o recrudescimento dos casos de COVID-19 na segunda onda no início de 2021, há uma nova queda na mobilidade,da ordem de 30%, no começo do ano, seguida de um período de estabilidade ao redor de -20% e nova acentuação da queda em março, quando quase atinge -40%.

 

 

Não é difícil perceber a semelhança com os movimentos vistos no gráfico das ameaças, embora crimes estejam mensurados em base mensal e mobilidade em base diária.

A maioria dos estudos que avaliou o efeito da epidemia nos crimes fez uma comparação do tipo antes-depois, contrastando médias criminais do período pré-covid com médias pós-covid. Ainda que a série seja pequena, não deixa de ser interessante verificar como mobilidade e crimes estão correlacionados, tomando apenas o período pós-covid.

Na tabela abaixo, agregamos os dados de mobilidade por mês e correlacionamos com as séries de diversos crimes divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública para os 14 meses para os quais temos informações disponíveis. A série histórica é pequena para permitir uma análise robusta. Assim mesmo, é digno de nota o elevado índice de correlação em alguns casos. O índice de mobilidade se demostrou altamente correlacionado com ameaças, assédio sexual, estupros (tanto de vulneráveis quanto total) lesões corporais e importunação sexual. Há também uma correlação significativa, ainda que menor, com os homicídios tentados.

Por outro lado, as correlações foram fracas e não significativas com chamados ao 190 da Polícia Militar, feminicídios e com homicídios dolosos consumados. No caso dos feminicídios é preciso cuidado com a análise, pois diversos Estados ainda titubeiam entre classificar um assassinato de mulher como homicídio doloso com vítima feminina ou feminicídio. Ao contrário dos crimes patrimoniais, que apresentaram forte tendência de queda, diversos países tiveram aumento dos homicídios durante a epidemia, por razões que ainda estão sendo estudadas: aumento dos conflitos domésticos, do consumo de álcool ou drogas, diminuição do policiamento, diminuição da renda do crime organizado e disputa por mercados, diminuição da fiscalização natural nas ruas, sensação de impunidade devido ao uso de máscaras, entre outras conjecturas.

A análise de séries temporais exige alguns cuidados adicionais, uma vez que duas séries se movimentando simultaneamente na mesma direção apresentarão elevados índices de correlação, mesmo que a associação entre elas seja totalmente espúria. Aqui já temos alguma evidência de que não se trata de espuriedade uma vez que ambas as séries oscilam em diversos períodos e assim mesmo a correlação é elevada. A correlação espúria é mais comum em séries que se movem linearmente.

De todo modo, para extrair a tendência e tornar as séries estacionárias antes de correlacioná-las, as series foram diferenciadas em 1 período. Os gráficos abaixo, portanto, correlacionam as séries diferenciadas de crimes e mobilidade, testando a correlação em diversos momentos – atrasando ou adiantando as séries em sete períodos. Observe-se que o formato dos gráficos é bastante parecido: a correlação entre as séries começa a crescer 1 ou 2 períodos antes (lags -2 e -1), atinge seu ápice no lag 0 (ou seja, os efeitos maiores entre crime e mobilidade são simultâneos ) e volta a diminuir no lag seguinte (lag 1). Mesmo as séries não significativas seguem aproximadamente este formato. A única exceção foi o feminicídio, onde a correlação é maior no lag 1 , mas não chega a ser significativa.

Em resumo, as correlações bivariadas se mantem significativas mesmo com as séries estacionárias e as quedas nos crimes ocorrem no mesmo mês em que a mobilidade diminui.

Correlação cruzada com 7 lags anteriores e posteriores. Séries diferenciadas em 1 período

Os padrões de mobilidade ainda não retornaram aos patamares anteriores e há quem preveja que não voltarão mais tão cedo, na medida em que nos adaptamos a trabalhar e estudar de casa. Assim, é importante monitorar os padrões de mobilidade na medida em que o indicador se revelou um bom preditor para muitos crimes.

Se a criminalidade subir ao final da epidemia, aguardada para 2022, podemos prever uma “regressão à média”, passado o choque inicial e as ondas subsequentes. Ou será que a epidemia alterou algo de mais profundo no ser humano e nas instituições?

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