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{ ARTIGO }

David Card, Nobel de Economia, e o efeito da educação

Economista Roberto Macedo fala sobre o trabalho do americano que foi um dos ganhadores do prêmio este ano

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

O prêmio Nobel de Economia deste ano foi atribuído a David Card, que ficou com metade do valor do prêmio – a outra metade foi dividida entre Joshua Angrist e Guido Imbens. Todos os três são professores da área, nas universidades da Califórnia (em Berkeley), Massachusetts Institute of Technology e Stanford, respectivamente, todas dos Estados Unidos.

Receberam o prêmio por realizar estudos estatísticos de vários temas usando o que é chamado de “experimentos naturais”. Ou seja, não é feita uma simulação, mas recorre-se a dados da realidade para estatisticamente testar hipóteses quanto a relações de causalidade.

Neste artigo vou focar apenas em David Card, o primeiro e mais importante laureado citado, outra razão sendo que ele há tempos aborda um tema de grande interesse do Brasil, o efeito da educação sobre as pessoas.

O currículo de Card é extenso e pode ser consultado em https://davidcard.berkeley.edu/. Escreveu nove livros e mais de 100 artigos em revistas científicas, alguns deles em coautoria. Na área de economia da educação, um dos primeiros artigos foi escrito em 1992 com Alan Krueger, e publicado no Quarterly Journal of Economics 107, de fevereiro daquele ano. Em resumo, constata-se que a diferença de salários entre homens brancos e negros, nos EUA, nascidos entre 1920 e 1949, caiu de 40% em 1960 para 25% em 1980.

Havia sido argumentado que esse movimento refletia melhorias na qualidade relativa das escolas voltadas para os negros, nos EUA. Para testar essa hipótese, os autores reuniram dados da razão entre os números de professores e alunos, salários anuais dos professores e duração de períodos letivos em dezoito estados onde havia segregação entre 1915 e 1966. Esses dados foram associados a estimativas do retorno da educação para homens nascidos no Sul do país, onde predominavam esses estados. E a conclusão foi a de que as melhorias da qualidade das escolas dos negros explicavam 20% do estreitamento do hiato entre rendimentos entre negros e brancos entre 1960 e 1980.

Consultando outra fonte¹, soube que (tradução livre) por muitas décadas prosperou nos EUA uma narrativa de descrédito do valor da educação. Numa época de fervor anticomunista dos anos 1950, universidades eram algumas vezes descritas como antros de subversão. Nos anos 1960, marcados por conflitos sobre direitos civis e a Guerra do Vietnã, elas eram vistas como centros de radicalismo. Quando Ronald Reagan, do Partido Republicano, à direita, foi eleito governador da Califórnia, em 1966, fez uma campanha que focou também na turbulência política que via no campus da universidade da California, em Berkeley, onde Card hoje leciona. É interessante que na direita brasileira, hoje, há grupos que também criticam ideologicamente o sistema universitário público.

Na mesma fonte, é dito que Card e outros pesquisadores de sua universidade tornaram-se uma força influente no exame dos impactos do investimento em educação em todos os seus níveis. Card também já havia dito, que antes dos anos 1970, distritos de baixa renda com ensino fundamental e médio público tinham gasto muito baixo por aluno. Nos distritos mais ricos, os gastos eram maiores. Entretanto, leis passaram a exigir gastos equitativos entre os distritos, com fundos adicionais providos aos distritos que exigiam um suporte extraordinário. E Card citou estudos de colegas seus na universidade, concluindo que essa equalização beneficiou crianças de famílias de baixa renda nas áreas onde os recursos eram mais escassos, muitas das quais crianças não brancas.

Ou seja, Card e seus parceiros continuam defendendo que vale a pena investir na educação principalmente onde há escassez de recursos, em geral áreas mais pobres e de grande predominância de não brancos. Felizmente, tem seguidores no Brasil, inclusive este autor.

 

¹https://www.marketwatch.com/story/nobel-prize-winning-economists-latest-work-examines-how-job-postings-improved-gender-diversity-11633975203.


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