De certo mesmo, só a incerteza

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CENÁRIO POLÍTICO

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O Brasil passa por um momento peculiar. A julgar pelos resultados, temos um ótimo governo que é pessimamente avaliado. Nunca houve um descolamento tão grande entre a performance de uma administração na área econômica e aquilo que opinião pública avalia dos êxitos obtidos. O que o brasileiro quer? Inflação controlada, juros baixos, crédito para consumir, a volta da oferta de emprego, crescimento. O que o governo tem conseguido? Inflação controlada, juros baixos, crédito para consumir, a volta da oferta de emprego e crescimento. A expectativa e o consumo melhoram. Mas nada parece estar bom.

Segundo o Datafolha, em fevereiro de 2015, 81% dos brasileiros acreditavam que a inflação iria aumentar. Em janeiro de 2018, esse percentual era de 55%. O contingente que apostava na estabilidade, que era de 11% em 2015, subiu para 28%. E aqueles que achavam que iria diminuir saltou de 5% para 12%. Se considerarmos como índice de pessimismo a diferença entre aqueles que acham que a inflação irá aumentar e a soma dos que acham que vai continuar como está ou diminuir, houve uma queda de 65% para 15%. Nada menos do que 50 pontos percentuais!

No que se refere ao desemprego, os números também são impressionantes. Em fevereiro de 2016, 71% dos entrevistados achavam que o desemprego iria aumentar. Em janeiro de 2018, eram 47%. Na outra ponta, aqueles que achavam que iria ficar como estava, considerado o mesmo período, subiu de 13 para 26% – e os que acreditavam na diminuição saltou de 14% para 23%. Aqui, o nosso índice de pessimismo que era de 44% (71% – 27%), passa para um otimismo de 2 pontos. Mais uma vez, uma gigantesca diferença de 46 pontos percentuais.

Em fevereiro de 2016, 60% achavam que o poder de compra dos salários iria diminuir, 20% que iria ficar como estava e 17% que iria aumentar. Um pessimismo de 23 pontos. Em janeiro de 2018, 37% achavam que iria diminuir, 38% que iria ficar como estava e outros 22% acreditavam que iria aumentar. No começo de 2018, o pessimismo de 23 se tornou um otimismo de 22 pontos. Uma diferença de robustos 55 pontos. Os dados estão sintetizados na tabela abaixo.

Trata-se de uma espantosa reversão de expectativas que não estão soltas no ar, feito balões. A Kantar Worldpanel pesquisa quais as categorias de produtos estão presentes nos lares dos brasileiros. Com os dados, é possível mapear quais produtos estão ganhando e perdendo espaço e verificar a “qualidade” do consumo. Produtos como manteiga, batata congelada, requeijão, azeite e pão industrializaram aumentaram sua participação em 2017, como mostram os dados abaixo.

Num contexto de otimismo, satisfação, consumo crescente e vida melhorando, seria de se esperar que um candidato que represente a continuidade da política econômica tivesse grandes chances na sucessão presidencial. Mas o eleitor brasileiro votou em 2016 na continuidade com a economia indo mal e está votando agora na oposição com a economia indo bem. Isso porque não está claro para o eleitor médio, hoje, quem representa a continuidade. Tampouco é capaz de avaliar as consequências de uma guinada populista, que colocará a recuperação da economia em risco, diminuirá drasticamente a confiança dos agentes econômicos e inviabilizará os investimentos.

 

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