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{ ARTIGO }

Efeitos da pandemia na economia mundial

O mundo deve se preparar para enfrentar os efeitos colaterais da globalização em tempos de coronavírus

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

À medida que os diferentes países vão divulgando suas taxas de crescimento econômico em 2020, torna-se mais claro o terrível impacto da pandemia do coronavírus na economia mundial.

Embora nem todos os países tenham apresentado números definitivos, a China deverá ser o único país com desempenho positivo em 2020, ainda que num patamar muito distante do que o mundo se acostumou a ver desde as reformas introduzidas por Deng Xiaoping, a partir de 1979. Por mais de três décadas, o país teve um crescimento médio em torno de 10% ao ano, caindo para algo em torno de 6,5% a 7,5% nos últimos anos, naquilo que se convencionou chamar de novo normal.

Como se pode ver na tabela 1, os outros 11 países considerados na amostra registraram crescimento econômico negativo, apesar dos esforços de seus governos que despejaram volumes consideráveis de recursos na economia por meio de programas emergenciais, cujos impactos fiscais só serão conhecidos daqui para frente.

O desempenho do Brasil, de -4,10%, embora melhor do que as previsões de meados do ano passado, que chegavam a -8 ou -9%, revela a prorrogação de um longo período com crescimento pífio, muito abaixo do potencial, razão pela qual o País encontra-se num patamar inferior ao do início da década passada, como bem observou o professor Roberto Macedo em seu artigo “Prossegue a tragédia do PIB brasileiro.

Os dados deixam claro que o impacto da pandemia da covid-19 foi muito mais severo do que o da crise econômico-financeira de 2007/2008, que teve origem no sistema hipotecário norte-americano (conhecida como crise da subprime), alastrando-se posteriormente para diversas outras economias, considerada, na época, a mais grave crise da economia mundial desde a Grande Depressão iniciada com o crash da Bolsa de Nova York em 1929, que se prolongou por praticamente toda a década de 1930.

 

 

Observando-se a tabela 1, constata-se que além da China, que manteve um crescimento de 9,10% – alavancando o desempenho médio da economia mundial –, três outros países da amostra, Colômbia, Bolívia e Argentina, também apresentaram crescimento econômico positivo. Se a amostra fosse maior, seria possível constatar o bom desempenho de outros países, como a Índia, por exemplo, que em 2009 já dava os passos iniciais do crescimento acelerado dos anos seguintes, em alguns dos quais superou o crescimento chinês, despertando a atenção de analistas e organismos multilaterais³.

Mesmo considerando que os maus desempenhos de 2009 e 2020 têm motivações diferentes, parece inegável que se pode atribuir ao processo de globalização parcela da responsabilidade pela disseminação da crise. Se em 2009, o efeito pôde não ter sido tão sentido em países menos sujeitos às oscilações do sistema financeiro internacional, agora em 2020 o efeito provocado pelo elevado volume de viagens internacionais explica a rápida trajetória de contaminação, sobretudo em países cujas populações viajam com frequência, profissionalmente ou a lazer.

Considerando que a motivação para viajar não deverá desaparecer, retornando aos patamares pré-pandemia – ou algo próximo disso – assim que as pessoas se sentirem mais seguras é fundamental que o mundo esteja preparado para enfrentar esse tipo de efeito colateral da globalização, que nós, economistas, costumamos chamar de externalidade negativa.

[1] Os dados referentes a 2020 têm como fonte o Banco Mundial e os Bancos Centrais e estão disponíveis em https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/03/03/desempenho-do-pib-do-brasil-em-2020-supera-o-de-latinos-e-europeus-mas-pais-deve-ficar-para-tras-este-ano.ghtml

 

[2] Os dados referentes a 2009 foram obtidos no Index Mundi e estão disponíveis em https://www.indexmundi.com/g/g.aspx?c=ch&v=66&l=pt.

 

[3] No excelente livro Glória incerta (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), Jean Drèze e Amartya Sen chamam a atenção para o fato de que as expressivas taxas de crescimento econômico da Índia não devem mascarar as enormes desigualdades sociais e regionais, responsáveis pela manutenção de um contingente considerável da população vivendo em níveis de extrema pobreza. 

 


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