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{ ARTIGO }

Eleitores mascarados

Nenhuma eleição é igual a outra, mas a deste ano é recheada de singularidades, a começar pela data da votação. Leia análise do cientista político Rubens Figueiredo.

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

As eleições municipais movimentam uma quantidade gigantesca de candidatos a vereadores, vice-prefeitos e prefeitos em mais de 5.500 cidades brasileiras. Trata-se de um esforço organizacional e logístico de grandes proporções. Segundo dados do TSE (28/09/2020), serão 38.328 postulantes a prefeito e vice-prefeito e 546.699 candidatos ao cargo de vereador. Os cinco partidos que mais apresentaram candidaturas são, pela ordem, MDB, PSD, PP, PSDB e DEM.

É claro que toda eleição é diferente da outra. Mas a desse ano parece ser, de longe, aquela que apresenta mais especificidades. A começar pela data, que por força da pandemia será no dia 15 de novembro, em primeiro turno, e 29 do mesmo mês, nas 95 cidades onde pode haver segundo turno, pois contam mais de 200 mil eleitores. Também será diferente porque o Republicanos, partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, e o PSL, que abrigou a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, se transformaram nos partidos que mais lançaram candidatos nas capitais, desbancando agremiações mais tradicionais.

Vai ser diferente porque a eleição municipal de 2020 acontecerá sem a existência de um partido do presidente da República. Nos tempos de Fernando Henrique Cardoso e Lula-Dilma, PSDB e PT  eram referências para os eleitores na medida em que o chefe máximo da Nação pertencia aos seus quadros. O PT, particularmente, usava à exaustão, em sua propaganda eleitoral, a figura do presidente de ocasião. Lula tecendo loas a si próprio e louvando “o jeito PT de administrar” era quase onipresente nos programas de TV dos candidatos a prefeitos petistas, atraindo votos para seu partido.

Além disso, levantamentos do Datafolha (com campo nos dias 5/6 de outubro de 2020) realizados em quatro capitais demonstram que, nesse ano, os “padrinhos políticos” têm uma performance muito ruim no que se refere à transferência de votos. Na verdade, as lideranças políticas que são (ou eram) referências para os eleitores geram hoje mais rejeição do que apoio. Em São Paulo, o apoio de Lula a um candidato seduziria 21% dos eleitores, Bolsonaro atrairia 16% e Dória apenas 11%. Com pequenas variações, esse fenômeno de falência dos grandes puxadores de voto se repete em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Recife. Os pontos fora da curva são a baixíssima repercussão positiva do apoio do governador do Rio, Claudio Castro (apenas 3%) e a força de Lula (35%) na cidade de Recife.

Outro aspecto é o aumento da penetração das redes sociais, que vem acompanhada de uma grande desconfiança em relação às notícias que se referem a eleições nelas publicadas. Em 2016, eram 111 milhões de usuários no Facebook, hoje são 120 milhões. No Instagram, eram 35 milhões em 2016 e são 69 milhões em 2020. Em São Paulo, segundo o Datafolha (5/6 de outubro de 2020), 84% dos eleitores têm Facebook e 71% possuem Instagram. Por outro lado, apenas 6% dos eleitores paulistanos confiavam no Facebook quando recebem informações ligadas à política.

A legislação eleitoral, como acontece eleição após eleição, mais uma vez mudou. A grande alteração, do ponto de vista prático, foi que, neste ano, na pré-campanha (lapso de tempo que antecedeu o período legal no qual os candidatos podem pedir votos explicitamente) era permitido praticamente tudo. A um pré-candidato, diferentemente das eleições anteriores, foi possível apresentar propostas, falar de suas qualidades pessoais e dizer quem o estaria apoiando.

Finalmente, e sem a pretensão de ser exaustivo, existe uma grande dúvida sobre a quantidade de abstenções que teremos esse ano, em razão da pandemia e a insegurança gerada por ficar em um ambiente fechado e com aglomeração. Todos os eleitores votarão de máscara. Como pano de fundo, temos um eleitor assustado e fragilizado com as consequências do surto do novo coronavírus, que necessita de alguém confiável do qual possa esperar ajuda.


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