Escolhas e decisões

Compartilhe
TwitterFacebookWhatsApp

ARTIGO

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Fazer escolhas e, em consequência dessas escolhas, tomar decisões, é uma exigência permanente à qual estamos sujeitos todos os dias das nossas vidas. Algumas dessas decisões são mais fáceis, outras mais difíceis, sobretudo aquelas que implicam em assumir riscos, uma vez que decisões desta natureza nos tiram de nossa zona de conforto, onde nos sentimos mais seguros e confortáveis. Entre outras coisas, a pandemia de coronavírus acrescenta novas variáveis a serem consideradas nas escolhas e decisões.

Acompanhando o noticiário, amplamente dominado por informações acerca da evolução da pandemia no Brasil e no mundo, tenho procurado manter o equilíbrio e a tranquilidade, embora isso se torne às vezes difícil diante do volume de más notícias.

Nesse verdadeiro pesadelo, uma notícia, em especial, chamou minha atenção. Foi sobre as escolhas que tiveram de ser feitas na Itália e na Espanha – por enquanto – entre os vitimados pelo COVID-19, daqueles que teriam acesso aos respiradores ou leitos de terapia intensiva, cujos números eram insuficientes para atender a todos. Escolhas como estas têm quase o significado de decidir quem vai viver e quem vai morrer. Fico imaginando a situação extremamente difícil de quem é obrigado a fazer tais escolhas e tomar tais decisões.

Esta notícia me remeteu de imediato a um dos filmes que tiveram maior impacto em minha vida: A Escolha de Sofia. Por sua magnífica atuação, Meryl Streep, em minha opinião a maior atriz de todos os tempos, foi agraciada com seu segundo Oscar. No filme, durante a Segunda Guerra, uma mãe judia é obrigada pelos nazistas a escolher, entre seu filho e sua filha, qual seguirá para os campos de concentração.

Felizmente, ainda não chegamos – e espero que não cheguemos – a situação semelhante no Brasil, onde, de acordo com as estimativas dos especialistas, ainda não atingimos o pico das contaminações.

Um fator agravante de escolhas e decisões dessa natureza é que vão além da racionalidade, que é a base sobre a qual fazemos a maior parte de nossas escolhas e tomamos as decisões. Envolvem aspectos de ordem emocional, espiritual e ética, com graves efeitos psicológicos sobre os responsáveis por tais escolhas e decisões.

Numa das últimas madrugadas, assistindo a um dos episódios da série Criminal Minds, deparei-me com uma situação parecida. Uma das integrantes da equipe de elite do FBI, a atriz A. J. Cook, que interpreta a agente Jennifer Jareau, conhecida com JJ, se vê diante da necessidade de libertar três pessoas acorrentadas a três camas num ambiente que está sendo tomado pelas chamas, graças à ação de um maníaco incendiário. Ela salva um dos meninos e a moça mais velha, mas, no momento em que ia salvar a segunda menina, é retirada do local por seu parceiro em razão da iminente explosão do local. Com isso, a menina – irmã do menino que ela conseguiu salvar – acabou morrendo carbonizada.

Nos dias seguintes, JJ não consegue esconder enorme abatimento. Seus colegas procuram consolá-la, lembrando que ela havia feito um ótimo trabalho, livrando da morte duas das três possíveis vítimas. Ela, porém, inconsolável, questionava se a escolha do menino para ser salvo em primeiro lugar não teria sido consequência de uma possível associação com seu próprio filho. Um drama de consciência que, provavelmente, só conhece quem já passou por situação semelhante.

Certo de que a crise a que estamos submetidos será mais cedo ou mais tarde, a exemplo de todas as outras, superada, fico imaginando se dilemas dessa natureza continuarão existindo numa realidade desconhecida ou ainda incipiente, decorrente da Quarta Revolução Tecnológica (ou Indústria 4.0), dominada pela inteligência artificial (IA), robótica, a internet das coisas (IoT na sigla em inglês), big data, veículos autônomos, impressão em 3D, nanotecnologia, biotecnologia, ciência dos materiais, armazenamento de energia e computação quântica, para citar apenas algumas inovações.

Um dos livros que mais me impactaram ultimamente foi 21 lições para o século 21 (Companhia das Letras, 2018), de Yuval Noah Harari [1], considerado um dos maiores pensadores e escritores da atualidade.

Ao descrever uma das características da realidade da Indústria 4.0, os carros autômatos, já produzidos por algumas companhias, mas ainda em fase de testes em diversos países, Harari menciona uma situação que nos induz à reflexão.

Suponha que dois garotos correndo atrás de uma bola vejam-se bem em frente a um carro autodirigido. Com base em seus cálculos instantâneos, o algoritmo que dirige o carro conclui que a única maneira de evitar atingir os dois garotos é desviar para a pista oposta, e arriscar colidir com um caminhão que vem em sentido contrário. O algoritmo calcula que num caso assim há 70% de probabilidades de que o dono do carro – que dorme no banco traseiro – morra. O que o algoritmo deveria fazer?

Depois de tecer uma série de considerações a respeito da situação, chegando mesmo à possibilidade extrema de uma companhia como a Tesla produzir dois modelos de carro, o Altruísta e o Egoísta, Harari complementa fornecendo uma importante informação adicional:

Num estudo pioneiro, em 2015, apresentou-se a pessoas um cenário hipotético de um carro autodirigido na iminência de atropelar vários pedestres. A maioria disse que nesse caso o carro deveria salvar os pedestres mesmo que custasse a vida de seu proprietário. Quando lhes perguntaram se eles comprariam um carro programado para sacrificar seu proprietário pelo bem maior, a maioria respondeu que não. Para eles mesmos, iam preferir o Tesla Egoísta.

Imagine a situação: você comprou um carro novo, mas antes de começar a usá-lo tem de abrir o menu de configurações e escolher cada uma das diversas opções. Em caso de acidente, quer que o carro sacrifique sua vida – ou que mate a família no outro veículo? Essa é uma escolha que você mesmo quer fazer? Pense nas discussões que vai ter com seu marido [ou sua esposa] sobre qual opção escolher.

Na conclusão deste trecho Harari levanta a hipótese de ser necessária a intervenção do Estado para regular o mercado, instituindo um código ético a ser obedecido por todos os carros autodirigidos. Será esta a solução mais adequada?

Tomando por base os livros e a incrível capacidade de imaginação de Harari, escolhas e decisões difíceis existiram, existem e continuarão existindo no futuro, mesmo que venham a ser tomadas por máquinas que se baseiam em algoritmos e não em neurônios.

Meu consolo baseia-se em duas certezas. A primeira, já mencionada anteriormente, é que a atual crise será superada. A segunda é que, a exemplo de qualquer crise, esta deixará como legado lições e oportunidades. Como bem observou Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo, em seu artigo para O Estado de S. Paulo (edição de 7 de abril de 2020):

Toda crise tem três “forças”: aprendizados, oportunidades, finitude. Ou seja, não há crise que dure para sempre, e ela será tanto menos danosa, e a mais breve possível, quanto maior for nossa capacidade de identificar as oportunidades que dela emergem e de aprender com seus desafios – não sem dolorosos custos e enormes sacrifícios.

 

[1]O autor é autor também de outros dois grandes best sellers mundiais, Homo sapiens(Companhia das Letras, 2015) e Homo Deus (Companhia das Letras, 2016).

  0 Comentários

  Publicações

  Para pensar