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Henrique Meirelles: ‘Consequência, não causa’

Em artigo, ex-presidente do BC explica os mecanismos das taxas de juros. “Países com histórico de hiperinflação e descontroles inflacionários e fiscais recentes tendem a pagar taxas mais elevadas”, diz.

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

Há cerca de dez anos, importante jornalista me falou que os juros brasileiros eram tão altos que a aplicação em títulos do Tesouro de longo prazo com taxas prefixadas era o melhor negócio do mundo. Sugeri a ele então que pegasse todo o seu dinheiro e aplicasse nesses títulos. Ele disse: Eu não, eu não sou louco. Retruquei: Ué, não é o melhor negócio do mundo? Ele disse: Mas eu não sei no futuro quem será o presidente do Banco Central, o ministro da Fazenda, o presidente da República, como estarão a inflação e a dívida pública. Então respondi: Você acabou de explicar por que a taxa de juros no Brasil é tão alta.

A primeira coisa a entender sobre o patamar dos juros é que ele é uma combinação de diversos tipos de riscos que influenciam as taxas, como a expectativa de inflação, a solvência do Tesouro Nacional, riscos políticos e cambiais.

Um dos fatores fundamentais é a confiança do investidor de que a inflação estará controlada e na meta nos próximos anos. Quanto menor essa confiança, maiores tenderão a ser os juros demandados pelos investidores para colocar suas poupanças a serviço do financiamento do país em questão.

Quando assumimos o Banco Central, em 2003, a taxa Selic chegava a 25% e a taxa real (descontada a inflação) de um ano no mercado estava ao redor de 14%. Na medida em que a inflação foi caindo, as taxas caíram de forma consistente dentro dos ciclos monetários até uma taxa real de equilíbrio em níveis abaixo de 6%.

É normal que essa taxa pare de cair e mesmo volte a subir quando há instabilidade inflacionária e aumento das incertezas sobre a trajetória da dívida pública e a capacidade de pagamento do país.

Uma das mais antigas evidências dessa dinâmica ocorreu séculos atrás, quando o Parlamento britânico fiscalmente conservador ganhou poder para elaborar o Orçamento, antes função exclusiva de um rei perdulário. Os juros começaram a cair e, em algumas décadas, foram de 15% para abaixo de 5%.

Esse e outros fatos históricos deixam claro que, ao contrário do que muitos afirmam, a taxa de juros é consequência, e não causa, dos problemas das despesas públicas. Não há mágica na economia. Países com histórico de hiperinflação e descontroles inflacionários e fiscais recentes tendem a pagar taxas mais elevadas.

Quanto mais o Brasil estabelecer o controle da inflação ancorado na meta de 4,5%, mantiver a dívida pública em níveis baixos e as contas externas controladas, a nossa taxa real de juros tenderá a cair em direção a padrões internacionais, como na década passada.

Ironicamente, as pressões dos que advogam uma queda voluntarista e artificial da taxa de juros contribuem para as incertezas que alimentam essas taxas.

 


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