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Henrique Meirelles: ‘Leitura de Carnaval’

O coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático faz uma análise do Carnaval, que segundo ele ajuda a entender o que podemos fazer para organizar o País em busca de mais crescimento.

Henrique Meirelles, coordenador do Conselho de Política Econômica do Espaço Democrático e ex-presidente do Banco Central

O Carnaval, celebrado em várias partes do mundo de maneiras distintas, evoluiu no Brasil de forma a oferecer visão interessante da nossa diversidade cultural e organização social.

Há poucas décadas, o Carnaval brasileiro era em muitas regiões um fenômeno de convívio social e familiar. Nas cidades pequenas e médias do país, os foliões se reuniam em clubes sociais para bailes que, à luz do que acontece hoje, parecem ingênuos e românticos. As pessoas andavam pelas cidades fantasiadas, e as crianças, especialmente, se divertiam bastante.

Com o tempo, o Carnaval de rua e de clubes foi desaparecendo da maior parte do país, enquanto o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro (e mais tarde em São Paulo) e o Carnaval de rua em Salvador e Recife/Olinda cresciam e evoluíam.

Agora, entre outros movimentos, temos o crescimento dos blocos carnavalescos nas duas grandes metrópoles brasileiras, mas apresentando características bastante diferentes.

Enquanto, no Rio de Janeiro, os blocos de Carnaval já se transformaram em fenômenos de massa, levando centenas de milhares de pessoas às ruas numa grande convergência de classes informal e caótica, em São Paulo eles são mais homogêneos, desfilando em ruas delimitadas, tendo às vezes até ambulâncias para emergências.

São as mais recentes tendências que começam a ser replicadas pelo país, devidamente adaptadas às características regionais, garantindo a diversidade e a evolução da festa, parte importante da nossa cultura e da nossa imagem.

No topo dessa pirâmide carnavalesca estão os desfiles das escolas de samba do Rio, que se organizaram, cresceram e adquiriram mais recursos. Hoje eles são um grande show global de televisão, mais show business do que festa popular, mas que retêm ainda a original engenhosidade organizacional de sua formação. Um exemplo de gestão popular, que permite muita ação e criação individuais, desde que dentro do ritmo da bateria e dos limites espaciais de cada integrante da escola.

E como evento global ele atrai investimentos e polêmicas globais. A última delas é o financiamento de uma escola de samba neste ano por uma ditadura africana, provocando o debate necessário num país democrático e cada vez mais alerta a questões éticas.

O Carnaval brasileiro, portanto, nos permite viajar no tempo e na geografia do nosso país. De maneira leve e alegre, ele nos oferece uma visão muito mais profunda do que parece da cultura brasileira e nos ajuda a entender o que podemos fazer para organizar melhor este país em busca de mais crescimento, mais ética e mais bem-estar na vida pública, privada e empresarial.

Bom carnaval a todos.

Artigo publicado na edição de 15 de fevereiro de 2015 da Folha de S. Paulo.


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