Leituras, conexões e reminiscências

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ARTIGO

 

 

 

Luiz Alberto Machado¹, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Não foram poucas as vezes em que me referi em meus escritos à importância da leitura para a formação individual e, por extensão, para o aprimoramento da educação de qualquer país².

A leitura é elemento fundamental para a criação de repertório, o conjunto de conhecimentos acumulados por um indivíduo por meio de suas experiências, ou seja, tudo que viu, aprendeu e conheceu em suas atividades cotidianas, suas viagens e trocas de experiências. Tanto na vida pessoal como na profissional, um amplo repertório ajuda a melhorar a comunicação, gerar ideias, descobrir e sustentar assunto de conversas, responder perguntas e, no limite, encontrar soluções criativas para os mais variados problemas.

O hábito da leitura, somado a um amplo repertório, estimula o estabelecimento de conexões entre temas e recordações extraídos de situações e leituras não necessariamente relacionadas, naquilo que muitas vezes os teóricos da criatividade chamam de analogias inusuais³, um dos métodos recomendados para as fases de geração de ideias nos processos criativos.

Foi o que me aconteceu com dois dos últimos livros que tive oportunidade de ler no recém-encerrado estranho ano de 2020. Participando de uma Live com o Prof. Gustavo Donato, atual reitor da FEI, senti-me estimulado a ler dois livros sugeridos por ele no decorrer de sua excelente exposição sobre a situação e as perspectivas da educação.

O primeiro deles, O que fazer quando as máquinas fazem quase tudo: como ter sucesso em um mundo de IA, algoritmos, robôs e big data4, focaliza um tema que está frequentemente entre os que mais preocupam as pessoas em qualquer parte do mundo: o impacto das inovações sobre o nível de emprego e a possibilidade de expansão do desemprego em massa decorrente da utilização crescente de máquinas, robôs e outros instrumentos gerados pela tecnologia da informação e pela inteligência artificial.

O assunto é realmente da maior relevância e será objeto de meu próximo artigo.

Duas observações a respeito deste primeiro livro para justificar o conteúdo e o propósito deste artigo. No plano das analogias inusuais, o livro apresenta uma série de exemplos interessantes. A mim, apaixonado por esportes de uma maneira geral, a analogia que me despertou maior atenção foi a estabelecida entre o engenheiro inglês Edwin Budding, inventor do cortador de grama em 1827 e a extraordinária fama de Cristiano Ronaldo.

Limpar os espaços com uma foice para jogar o críquete era difícil e, por isso, os locais eram poucos e distantes; os primeiros tipos de bolas de futebol foram chutadas em ruas lamacentas. O cortador de grama de Budding permitiu que a grama fosse cortada de modo fácil e uniforme, e o que eram historicamente campos de grama alta se tornaram espaços com uma nova definição: “campos de jogo”. […] Tudo que nós, fãs do esporte vivemos e respiramos vem dessa inovação fundamental e original que criou esse “espaço”. […] Se Edwin Budding pudesse voltar agora e ver o impacto que seu cortador de grama teve no mundo, sem dúvida alguma ficaria surpreso. É pouco provável que ele tivesse imaginado, quando vendeu sua primeira máquina para o Jardim Zoológico de Regent, que, 138 anos mais tarde, um jovem jogador de futebol profissional, Cristiano Ronaldo, teria 200 milhões de seguidores na mídia social, tudo porque ele chuta uma pequena bola em um campo de grama cortada. A fama de Cristiano Ronaldo, todos os empregos e dinheiro associados às modalidades esportivas praticadas em campos e quadras de grama no mundo vêm da máquina de Budding. O cortador de grama é a base sobre a qual a indústria do esporte foi construída (pp. 186-7).

No plano das reminiscências, o livro me fez relembrar a palestra de Steve Davis, professor da Escola de Administração da Universidade de Chicago, promovida pelo Instituto Liberal, sobre o livro Job creation and destruction5. No então recém-lançado livro, juntamente com os coautores John Haltiwanger e Scott Schuh, Steve Davis sustenta a hipótese de que, a não ser em situações excepcionais, o volume de empregos que surgem é sempre muito próximo ao de empregos que desaparecem, embora os últimos tenham muito mais repercussão do que os primeiros.

O segundo livro sugerido pelo Prof. Gustavo Donato foi A nação empreendedora: o milagre econômico do Israel e o que ele nos ensina6. Nele, os autores Dan Senor e Saul Singer oferecem pistas que explicam como um país com pouco mais de 7,6 milhões de habitantes (dados de 2010), com apenas seis décadas de existência, situado em um território sem recursos naturais e enfrentando constantes conflitos militares desde a sua fundação consegue gerar mais empresas iniciantes (startups) do que nações maiores, pacíficas e estáveis como o Japão, a China, a Índia, a Coreia do Sul e o Reino Unido.

A exemplo do que fiz com o primeiro livro, vou me limitar a duas considerações. A primeira delas diz respeito à riqueza dos relatos dos autores sobre o incrível número de invenções de relevo no mundo contemporâneo originárias de Israel, produto não apenas da rígida dedicação ao serviço militar de seu povo, mas também da estreita relação entre a formação militar e a educacional, com forte estímulo ao empreendedorismo e à inovação. No plano das reminiscências, o livro me remeteu à palestra do estrategista militar Edward Luttwak, citado várias vezes, realizada na FAAP, por ocasião de sua vinda ao Brasil para o lançamento de seu livro Turbocapitalismo: perdedores e ganhadores na economia globalizada7. Na referida palestra, que foi, seguramente, uma das que despertaram maior interesse das que tive oportunidade de presenciar em mais de 35 anos dedicados à Fundação, Luttwak fez diversas afirmações de impacto, entre as quais, “Guerra, guerrilha, revolução, golpe de Estado, pronunciamento podem levar à vitória. Terrorismo, não, porque não é uma estratégia, mas uma forma de expressão8”.

É por essas e outras que, além de continuar apaixonado por esportes, vou me tornando também um amante cada vez mais assíduo dos livros e das maravilhosas experiências proporcionadas pela leitura.

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¹Economista pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal) e assessor da Fundação Espaço Democrático.

2 Ver, a respeito, de minha autoria, “O hábito da leitura e seu impacto no desenvolvimento”, disponível em https://espacodemocratico.org.br/?s=o+h%C3%A1bito.

³ Ver, a respeito, de minha autoria, “Analogias inusuais”, disponível em http://www.souzaaranhamachado.com.br/2020/03/analogias-inusuais/.

4 FRANK, Malcolm, ROEHRIG, Paul e PRING, Ben. O que fazer quando as máquinas fazem tudo: como ter sucesso em um mundo de IA, algoritmos, robôs e big data. Tradução de Eveline Machado. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018.

5 DAVIS, Steven J., HALTIWANGER, John C. e SCHUH, Scott. Job creation and destruction. Cambridge, Massachusetts; London, England: The MIT Press, 1996.

6 SENOR, Dan e SINGER, Saul. Nação empreendedora: o milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina. Tradução de Henrique Amat. São Paulo: Évora, 2011.

7  LUTTWAK, Edward. Turbocapitalismo: perdedores e ganhadores na economia globalizada. Tradução de Maria Abramo Caldeira Brant e Gustavo Steinberg. São Paulo: Editora Nova Alexandria, 2001.

8 Para uma visão mais detalhada dos temas abordados por Luttwak nesta palestra na FAAP, recomendo o artigo de Lourival Sant’Anna disponível em http://www.lourivalsantanna.com/temas/resenhas/terror-nao-e-estrategia-e-forma-de-expressao/

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