Luiz Alberto Machado: ‘As várias leituras do Nobel de Economia de 2019’

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ARTIGO

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

“Pode ser que, entre nós, a tragédia da miséria humana apresente escala menos esmagadora que na África. Ela não é, todavia, menos frustrante e avassaladora.”
Rubens Ricupero

 

A concessão do Nobel de Economia de 2019 ao indiano Abhjit Banerjee, à francesa Esther Duflo, e ao norte-americano Michael Kremer, os dois primeiros vinculados ao MIT (Massachusetts Institute of Technology) e o terceiro à Harvard University, permite diversas leituras.

A primeira pode ser direcionada ao grande alcance da ciência econômica. Por ocasião da concessão do Prêmio Nobel de Economia de 2012, escrevi um artigo intitulado Uma ciência, muitas aplicações, em que examinava “a extraordinária abrangência oferecida pelo curso de Economia, o que é válido tanto no plano da teoria como no da aplicação prática”.

No referido artigo, ponderava:

A concessão do Prêmio Nobel de 2012, divulgada no dia 15 de outubro, aos norte-americanos Lloyd Shapley, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), e Alvin Roth, de Harvard, é apenas mais um reforço ao meu ponto de vista. Suas contribuições no que se convenciona chamar de “teoria da combinação”, uma ramificação da “teoria dos jogos”, permite a utilização de modelos teóricos para associar, com a maior eficiência possível, pares ou grupos de agentes em situações em que há uma falha de mercado, ou, para usar o jargão econômico, “situações em que o mercado não teria um ponto de equilíbrio, onde a oferta e a demanda se cruzam”. Entre os vários exemplos de aplicação desse modelo teórico podem ser citados a escolha mais adequada entre doadores e recebedores de órgãos, a dos homens e mulheres mais indicados para se casarem ou a alocação mais eficiente de estudantes em escolas e hospitais, no caso de residência médica.

Não é qualquer ciência que permite uma aplicação tão ampla de seus modelos teóricos, o que só é possível pela rígida e abrangente formação do economista, que combina teoria econômica, métodos quantitativos e formação histórica.

Outra leitura, derivada desta primeira, refere-se às áreas da ciência econômica contempladas com o Nobel. Em função das inúmeras possibilidades de aplicação do conhecimento e dos métodos econômicos, a economia – quer no plano teórico, quer no plano aplicado – apresenta-se dividida em diversas áreas, entre as quais: economia do desenvolvimento; economia monetária; economia internacional; economia regional e urbana; economia do trabalho; economia da educação; economia da saúde, economia comportamental ou experimental; economia criativa; economia compartilhada; economia solidária; economia circular.

As pesquisas realizadas pelos três laureados concentram-se claramente em duas dessas áreas, economia do desenvolvimento e economia comportamental ou experimental, como fica claro na justificativa apresentada pelo júri da Academia de Ciências da Suécia: “As descobertas das pesquisas do trio premiado melhoraram drasticamente nossa capacidade de combater e aliviar a pobreza global por sua abordagem experimental”.

No que se refere à área da economia do desenvolvimento, cabem algumas observações. Uma delas é que a concessão do Prêmio de Ciências Econômicas deste ano, em memória de Alfred Marshall, recoloca uma diferença importante, porém desconhecida de muitos, entre crescimento econômico e desenvolvimento. Enquanto o primeiro envolve apenas aspectos quantitativos, sendo medido pela variação do produto interno bruto, o segundo é mais abrangente, pois, além dos aspectos quantitativos considerados pelo primeiro, considera também indicadores sociais que se refletem na elevação do padrão médio de vida da população. Ao enfatizar que a questão da pobreza pode ser combatida de forma mais eficiente se dividida em questões menores e mais precisas em áreas como educação e saúde, os responsáveis pela concessão do Nobel chamam atenção para o fenômeno do desenvolvimento a partir do ângulo da redução da pobreza e não do aumento da riqueza, preocupação prioritária das políticas que buscam prioritariamente o crescimento econômico.

Importantes economistas têm se dedicado a esse tipo de abordagem, entre os quais Jeffrey Sachs, que realizou diversos trabalhos para as Nações Unidas e é o autor do livro O fim da pobreza; Thomas Piketty, que escreveu um livro que se tornou sucesso mundial, O capital no século XXI; e o também laureado com o Nobel Amartya Sen, um dos responsáveis pela alteração do próprio conceito de desenvolvimento por meio da criação do Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH.

Outra área diretamente contemplada com o Nobel de 2019 foi a da economia comportamental, também chamada por alguns de economia experimental (ainda que outros autores apontem a existência de diferenças significativas entre elas). Para evidenciar, recorro novamente à afirmação do júri do Nobel, que afirma que “em apenas duas décadas, a nova abordagem baseada em experimentos transformou a economia do desenvolvimento, que agora é um campo de pesquisa florescente”. As referidas pesquisas se basearam em experiências com grupos controle e grupos de experimento nas áreas de educação e saúde, o que permite ampliar também para essas áreas – economia da educação e economia da saúde – a extensão das áreas contempladas pelo Prêmio Nobel de 2019.

Outra leitura possível de se fazer com base na concessão da láurea a Abhjit Banerjee, Esther Duflo e Michael Kremer relaciona-se com a metodologia da análise econômica. Nesse aspecto, dois destaques: o primeiro para a divisão da análise em setores específicos, uma vez que as pesquisas do trio mostram que a questão da pobreza pode ser combatida de forma mais eficiente se dividida em questões menores e mais precisas em áreas como educação e saúde, e a partir de experimento de campo em países como Quênia e Índia. O segundo destaque vai para o caráter predominantemente microeconômico das análises e pesquisas do trio laureado, o que favorece a percepção de que o economista, ao contrário do que é muitas vezes alardeado em cursinhos e em publicações sobre escolha de carreira, não precisa necessariamente trabalhar em secretarias ou ministérios fazendo análises e trabalhos eminentemente macroeconômicos.

Portanto, essas diferentes leituras proporcionadas por um rápido exame dos motivos que estão por trás da escolha dos laureados com o Nobel de Economia em 2019 abrem enormes perspectivas para uma melhor compreensão das extraordinárias possibilidades de aplicação desta que já foi chamada de “ciência lúgubre”.

 

Referências bibliográficas

ÁVILA, Flávia e BIANCHI, Ana Maria (Organizadoras). Guia de Economia Comportamental e Experimental. São Paulo: EconomiaComportamental.org, 2015.

MACHADO, Luiz Alberto. Viagem pela Economia. São Paulo: Scriptum Editorial, 2019.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Tradução de Monica Baumgarten de Bolle. São Paulo: Intrínseca, 2014.

SACHS, Jeffrey. O fim da pobreza: como acabar com a miséria mundial nos próximos vinte anos. Prefácio de Bono; prefácio à edição brasileira de Rubens Ricupero. Tradução de Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução de Laura Teixeira Motta; revisão técnica de Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

STEIN, Jeff. Três levam Nobel por estudos contra pobreza. O Estado de S. Paulo, 15 de outubro de 2019, p. B 5.

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