Luiz Alberto Machado: ‘Diferentes olhares’

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Opinião

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

A economia, que entre outras coisas já foi chamada de “ciência lúgubre”, constitui-se, inegavelmente, num campo do conhecimento abrangente, complexo e repleto de peculiaridades que tornam a sua compreensão uma tarefa que pode exigir atenção e ampla capacidade de interpretação.

Duas publicações lançadas quase ao mesmo tempo apresentam pontos de vista diametralmente opostos a respeito da economia brasileira, deixando o leitor menos atento – ou menos preparado – completamente perdido.

A primeira delas apareceu na prestigiosa revista The Economist, cuja matéria de capa, com o titulo On the up (Para cima), focaliza a surpreendente retomada do crescimento da economia mundial. A capa mostra sete balões, representando as economias dos Estados Unidos, China, União Europeia, Reino Unido, Japão, Índia e Brasil.

A matéria deve ter sido comemorada pelo governo brasileiro, em especial pela equipe econômica liderada pelo ministro Henrique Meirelles, pois reflete o início da recuperação da nossa economia, após dois anos com queda acumulada do PIB de 7,2%. Diversos acontecimentos contribuíram para o clima de relativo otimismo constante na matéria, entre os quais podem ser destacados: (i) o aumento divulgado pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, em fevereiro, de 35.612 empregos, depois de 22 meses de queda; (ii) o sucesso nos leilões de concessão de quatro aeroportos pelo governo federal, evidenciando clara disposição de investidores do Brasil e do exterior em voltar a apostar no País; e (iii) a divulgação da agência de avaliação de riscos de crédito Moody’s de que manteve o grau Ba2 do Brasil, alterando, porém, a nota de sua dívida soberana de negativa para estável, o que pode ser entendido como um primeiro passo rumo à reconquista do grau de investimento (investment grade).

A segunda, que não mereceu qualquer comemoração, está contida no Relatório Anual das Nações Unidas sobre o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), em que 159 países registraram melhora, 13 registraram queda e 16 ficaram estagnados, entre os quais o Brasil. Ainda assim, o País permanece no grupo classificado como sendo de Alto Desenvolvimento Humano. O IDH considera quatro níveis: muito alto, alto, médio e baixo. Este resultado põe fim ao avanço que o Brasil vinha experimentando nas últimas onze edições do Relatório.

O IDH representa um avanço nos indicadores de desenvolvimento dos países. Antigamente, as classificações (ou rankings) consideravam apenas a variação anual do Produto Interno Bruto (PIB) de cada país, o que consistia numa comparação meramente quantitativa da variação do que cada país produzia de um ano para outro. Posteriormente, a ONU passou a considerar o Coeficiente de Gini, cuja representação gráfica era a Curva de Lorenz, em que se considerava não apenas a variação da renda nacional, mas também o seu grau de distribuição. O IDH, concebido com a colaboração de Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 1998, é mais abrangente, composto por indicadores de três dimensões: saúde (em que considera não apenas a mortalidade infantil, mas também a longevidade); educação (considerando não só o grau de analfabetismo, mas também o volume de matrículas nos três níveis de ensino); e a renda per capita, calculada com base no critério de paridade do poder de compra.

O IDH trabalha com uma escala de 0 a 1 e o Brasil alcançou o indicador de 0,754, repetindo o resultado do ano anterior, o que lhe confere a 79ª posição do ranking, empatado com ilha de Granada. A título de informação, o primeiro lugar no ranking ficou com a Noruega, que alcançou o IDH de 0,949.

Examinando os dados do Relatório, constata-se que o fator que mais contribuiu para o fraco desempenho do Brasil foi o indicador renda, consequência do crescimento negativo registrado pela economia brasileira em 2015 (ano em que os dados foram coletados) e 2016, o que significa que não se pode esperar resultado muito diferente no Relatório do ano que vem, uma vez que o PIB per capta caiu 8,5% em 2015 e 2016, mais até do que a queda acumulada do PIB. Como bem observou o Prof. Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador da FGV-RJ: “Como o IDH não piorou, ficou estável, quer dizer que a gente continua evoluindo em saúde e educação”.

Como é possível duas interpretações tão diferentes?

Neste caso, a explicação não é tão difícil. A matéria da revista The Economist leva em conta os recentes avanços conseguidos na área econômica e faz uma projeção considerando a possiblidade de melhora. Sua análise, portanto, é feita olhando para o futuro. Já a análise contida no Relatório da ONU considera apenas os indicadores de 2015 referentes à saúde, à educação e à renda per capita. Seu resultado, portanto, é feito com base nos dados do passado.

Diferentes olhares, diferentes interpretações: um dos olhares vê o lado cheio do copo, a expectativa de melhora; o outro vê o lado vazio do copo, o mau desempenho recente da economia brasileira.

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