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Luiz Alberto Machado: ‘Nem tanto pra lá, nem tanto pra cá’

Economista e conselheiro do Espaço Democrático analisa o artigo da revista The Economist sobre a situação econômica do Brasil e diz: “Não há razão – ainda – para alarmismo ou catastrofismo, como alguns chegam a alardear.”

Luiz Alberto Machado, economista, professor da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e conselheiro do Espaço Democrático

Em novembro de 2009, a revista The Economist estampou em sua capa uma foto do Cristo Redentor sendo lançado como um foguete sob a manchete “Brazil takes off” (O Brasil decolou).

Saudada em prosa e verso pelos integrantes do governo, a matéria foi amplamente utilizada como propaganda da administração do presidente Lula, inclusive na campanha que resultou na eleição de Dilma Rousseff. Na época, não foram poucos os adeptos do governo que apontaram a referida matéria como a prova definitiva de que os analistas dos países desenvolvidos haviam se rendido à política econômica adotada no Brasil, que tinha permitido que o País superasse, em tempo recorde, a grave crise econômico-financeira que assolara o mundo desde 2007/2008.

Menos de quatro anos depois, a mesma revista volta a destacar o Brasil em sua matéria principal. Na edição do dia 28 de setembro, The Economist estampou na capa uma foto do foguete do Cristo Redentor em apuros, sob a manchete “Has Brazil blown it?” (O Brasil estragou tudo?).

Foi o suficiente para que muitos dos que haviam comemorado a publicação da matéria de quatro anos atrás viessem a público com afirmações do tipo “esses caras não entendem nada do Brasil”.

Particularmente, acredito que nem a situação era tão boa quanto a que foi sugerida pela matéria de 2009, nem é tão ruim quanto a descrita pela matéria recém-publicada.

E o que houve de tão grave para justificar tamanha mudança de ponto de vista?

A nosso juízo, a constatação do esgotamento da política econômica adotada pelo governo brasileiro, baseada no binômio “programas de transferência + estímulo ao consumo”.

Se esse modelo respondeu positivamente num primeiro momento, quando muitos países enfrentaram pesadas dificuldades em decorrência dos efeitos da crise financeira internacional, sua viabilidade no longo prazo foi questionada imediatamente por analistas mais serenos (ou menos comprometidos), que sinalizaram para a falta de um planejamento digno desse nome, que articulasse ações de curto, médio e longo prazos.

Nos dois anos de governo de Dilma Rousseff, ocorreram mudanças tanto no plano externo como no interno que serviram para tornar mais evidentes os nossos problemas.

No plano externo, além da lenta recuperação da economia norte-americana e das enormes dificuldades de algumas economias europeias, verificou-se a desaceleração da economia chinesa, cujas importações, inclusive de produtos brasileiros, haviam sido fundamentais para o satisfatório desempenho de nossa balança comercial e, por consequência, para ajudar a manter num patamar aceitável o nível de atividade da economia brasileira. As taxas de crescimento do PIB tornaram-se pífias, mas os níveis de emprego e renda mantiveram-se elevados, o que explica em boa parte a manutenção de altas taxas de aprovação do governo por parte da opinião pública.

No plano interno, porém, a situação vem se deteriorando. Ainda carente de uma política econômica digna desse nome, o governo usou e abusou de intervenções que foram pouco a pouco minando a confiança conquistada a duras penas desde a redemocratização ocorrida nos anos 1980, complementada com a abertura econômica do início dos anos 1990 e com a estabilidade propiciada pelo Plano Real a partir de 1994.

Mudanças constantes nas regras do jogo, uma série de medidas protecionistas, flexibilização crescente da política fiscal com desonerações sucessivas e sem critério, discutível criatividade na divulgação das contas públicas e enorme incapacidade para promover reformas que melhorassem o ambiente para a realização de negócios foram afastando cada vez mais os investidores – tanto os de fora como os de dentro.

Assim, diante de duas manchetes tão discrepantes da revista The Economist, recomenda-se uma breve retrospectiva histórica a fim de evitar exageros.

Num país em que por mais de duas décadas prevaleceu um cenário que combinava estagnação, inflação crônica e elevada, além de razoável instabilidade política, dizer que vivemos tempos turbulentos porque o crescimento econômico permanece abaixo do seu potencial e porque a inflação insiste em se manter próxima do limite superior da meta parece-nos certo exagero. Estamos falando de uma inflação anual de aproximadamente 6,5%, quando chegamos a conviver por muitos meses seguidos com taxas de dois dígitos e, em 1992 e 1993, com uma inflação anual que atingia quatro dígitos!!!

Colocar a situação numa perspectiva histórica adequada, porém, não significa que a situação está boa e deixa de merecer cuidados. Longe disso. Mas não há razão – ainda – para alarmismo ou catastrofismo, como alguns chegam


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