Luiz Alberto Machado: ‘O chamado da tribo’

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ARTIGO

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

No segundo semestre de 2011, escrevi um artigo para a revista da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP intitulado Peixe na água: trajetória de uma conversão¹. Tratava-se de um pequeno gesto para homenagear o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que um ano antes havia sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, contrariando uma tendência ideológica da Academia Sueca, que nos anos anteriores vinha contemplando autores da esquerda “multicultural”.

Para escrever o referido artigo, baseei-me na leitura de grande parte das obras de Vargas Llosa e, em especial de Peixe na água², livro de memórias que começou a ser escrito logo depois da derrota nas eleições para a presidência do Peru, em junho de 1990, nas quais foi derrotado por Alberto Fujimori.

Vale destacar, entre tantas coisas interessantes contidas nesse livro, uma conversa de Vargas Llosa com sua esposa Patrícia. Nessa conversa, ele argumenta que entrou na disputa política por uma “obrigação moral”, sendo contestado por ela, que diz que ele entrou na eleição porque queria viver o seu “romance total”.

Vargas Llosa acabou concordando que suas memórias podiam ser vistas como um “romance total” – a tentativa de escrever o meu romance da vida real. Esse “romance total” conta a história do Peru nos últimos cinquenta anos, como explicou a Martim Vasques da Cunha³, que o entrevistou em uma visita ao Brasil poucos dias depois do anúncio de que havia sido agraciado com o Prêmio Nobel:

“Concordo plenamente, as minhas memórias podem ser lidas dessa forma, sem dúvida. Mas tudo isso que vivi deve ser entendido da seguinte maneira: todas as ideias que defendi nessa eleição eram muito impopulares. Agora, são extremamente populares e aceitas por todos. É curioso como muda a cultura política de uma época, não?”

Cerca de 25 anos depois de Peixe na água, Vargas Llosa nos brinda com outo livro de memórias, desta vez sobre as influências intelectuais que o levaram a abandonar as ideias socialistas que havia abraçado na juventude, inspirado fortemente por Jean-Paul Sartre, para se transformar num dos maiores defensores de uma “tradição de pensamento que favorece o indivíduo frente à tribo, à nação, à classe ou ao partido, e que defende a liberdade de expressão como um valor fundamental para o exercício da democracia”.

O chamado da tribo, que tem por subtítulo Grandes pensadores para o nosso tempo, é a autobiografia intelectual de Mario Vargas Llosa, sem qualquer favor, um dos maiores escritores de nosso tempo.

Logo no capítulo inicial, em que apresenta uma justificativa para o livro, Vargas Llosa explica as razões de seu desencanto e ruptura com o socialismo.

“Minha ruptura com Cuba e, em certo sentido, com o socialismo veio em decorrência do então famosíssimo caso Padilla. O poeta Heberto Padilla, ativo participante na Revolução Cubana – chegou a ser vice-ministro de Comércio Exterior -, começou a fazer algumas críticas à política cultural do regime em 1970. Primeiro foi atacado violentamente pela imprensa oficial e depois preso, com a acusação disparatada de ser agente da CIA. Indignados, eu e quatro amigos que o conheciam – Juan e Luis Goytisolo, Hans Magnus Enzensberger e José Maria Castellet – redigimos no meu apartamento em Barcelona uma carta de protesto à qual aderiram muitos escritores no mundo todo, como Sartre, Simone de Beauvoir, Susan Sontag, Alberto Moravia, Carlos Fuentes, protestando contra aquele abuso. Fidel Castro respondeu pessoalmente, acusando-nos de estar a serviço do imperialismo e afirmando que não voltaríamos a pisar em Cuba por “tempo indefinido e infinito” (quer dizer, toda a eternidade)”.

Nos capítulos seguintes, ele aborda os sete pensadores que foram fundamentais para sua conversão ao liberalismo, apresentando pequenos dados biográficos de cada um deles e referindo-se – como excepcional crítico literário que é – às suas obras mais relevantes.

Seguem-se, então, pela ordem: Adam Smith (1723-1790); José Ortega y Gasset (1883-1955); Friedrich August von Hayek (1899-1992); Sir Karl Popper (1902-94); Raymond Aron (1905-83); Sir Isaiah Berlin (1907-97); e Jean-François Revel (1924-2006).

A leitura, como não poderia deixar de ser, é agradabilíssima e oferece inúmeras oportunidades de reflexão a respeito dos aspectos salientados por Vargas Llosa no mergulho que faz a cada um desses sete autores.

Afora essas reflexões, me pus a pensar sobre os autores que tiveram influência na minha opção pelo liberalismo. Concluí que além de Adam Smith, Friedrich Hayek, Karl Popper e Ortega y Gasset, mencionados em O chamado da tribo, minha lista incluiria Alexis de Toqueville, Roberto Campos, José Guilherme Merquior e o próprio Mario Vargas Llosa.

 

 

¹ Facom – Revista da Faculdade de Comunicação e Marketing da FAAP, Nº 24, 2º semestre de 2011, pp. 32-39.

² Peixe na água: Memórias. Tradução de Heloisa John. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

³ Elogio da disciplina. Em voo com Mario Vargas Llosa. Revista Dicta & Contradicta. Dezembro de 2010, número 06, pp. 24-46.

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