Luiz Alberto Machado: ‘Primeiras impressões de 2020’

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ECONOMIA

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

O ano está apenas começando, mas algumas impressões já podem ser colhidas com base nos acontecimentos dos primeiros dias.

Vou me ater, neste artigo, a dois indicadores: bolsa de valores e balança comercial.

No primeiro dia útil do ano, 2 de janeiro, o índice B3 subiu 2,53%, atingindo 118.573 pontos, dando continuidade à tendência de alta verificada no final de 2019 e batendo recorde de pontuação, tendo por justificativa um cenário de otimismo global decorrente do avanço das negociações da fase 1 do acordo comercial entre os Estados Unidos e a China.

A bolsa brasileira fechou 2019 aos 115.645 pontos, acumulando no ano alta de 31,58%, a maior variação anual desde 2016.

A partir do dia 3, no entanto, em razão do clima de tensão provocado pela morte do major-general Qassen Soleimani – considerado a segunda pessoa mais poderosa do Irã – num ataque aéreo dos Estados Unidos em um aeroporto de Bagdá, o índice da bolsa brasileira passou a registrar sucessivas quedas, fechando aos 117.706 pontos no dia 3, 116.877 pontos no dia 6, 116.661 pontos no dia 7, 116.247 no dia 8, 115.947 no dia 9 e 115.503 no dia 10.

Apesar das seguidas quedas, compreensíveis num tipo de atividade tão sujeito a oscilações geopolíticas, a manutenção do índice em patamares elevados como os observados atualmente reflete, de certa forma, uma perspectiva otimista do mercado, que segue acreditando num crescimento da economia brasileira superior a 2% em 2020.

O outro dado importante divulgado no dia 2 de janeiro referiu-se ao resultado da balança comercial brasileira em 2019, que registrou um superávit de US$ 46,674 bilhões, recuando 19,6% na comparação com 2018, quando o superávit foi de US$ 58,033 bilhões.

O peso maior para este recuo coube às exportações, que tiveram uma queda de 7,5% em relação a 2018, ao passo que a queda das importações foi menor, sendo da ordem de 3,3%.

Embora este seja o menor superávit desde 2016, o resultado não surpreende quem acompanha o desempenho do comércio mundial como um todo, e o do Brasil em particular.

Depois de décadas evoluindo acima da produção, o comércio mundial passou a apresentar declínio crescente a partir do início do século 21, consequência de diversos fatores que perturbaram o clima de tranquilidade que havia prevalecido nas últimas décadas do século passado. O episódio mais marcante foi o atentado da Al Qaeda às torres do World Trade Center no dia 11 de setembro de 2001. A partir do atentado e da reação militarizada do governo norte-americano, três fatores passaram a ser observados simultaneamente: o aumento do terrorismo e da violência; a pirataria; e a desconfiança generalizada nos muçulmanos, como se qualquer um deles fosse um fundamentalista islâmico e participasse de grupos terroristas.

Tem sido constatado, em consequência disso, um retrocesso em áreas antes consideradas como avanços irreversíveis da globalização, entre as quais podem ser destacadas:
· Restrições à livre circulação e ingresso de viajantes;
· Restrições ao despacho de contêineres de mercadorias.

Portanto, para quem acompanha as oscilações do comércio mundial, a retração verificada com a balança comercial brasileira em 2019 não chega a surpreender.

Outros aspectos, porém, merecem ser destacados.

O primeiro deles refere-se aos principais compradores dos nossos produtos. Nesse particular, dois dados são relevantes: a enorme vantagem da China sobre os demais países; e a queda da Argentina do terceiro lugar em 2018 para o quarto lugar em 2019.

Outro aspecto digno de registro diz respeito aos produtos exportados pelo Brasil, com total e absoluto predomínio de produtos primários, como se vê na tabela abaixo.

Aqui reside o aspecto mais preocupante da nossa balança comercial, uma vez que pela primeira vez nas últimas quatro décadas a exportação de commodities foi superior a 50%. De acordo com a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), “as exportações de produtos básicos, como commodities, chegaram a 52,7% no ano passado, o maior patamar desde os anos 1980. Ao mesmo tempo, a de manufaturados caiu para 34,6%, o menor nível dos últimos 40 anos”.

Evidentemente, a queda nas exportações de automóveis e autopeças para a Argentina teve peso decisivo para esse resultado. Como, porém, é difícil imaginar que a economia argentina apresente uma recuperação significativa no curto prazo, as perspectivas para 2020 não apontam para uma reversão desse quadro. O presidente da AEB, José Augusto de Castro, é muito realista a esse respeito: “Focamos as exportações de manufaturados para a Argentina. Quando esse mercado tem um problema, não conseguimos correr para outro, porque não temos preço para competir”. Essa falta de competitividade tem componentes estruturais, revela nossa baixa produtividade e tem no custo Brasil, seguramente, uma de suas principais causas.

Três observações à guisa de conclusão: (i) considerando o tamanho da economia brasileira, é preciso estabelecer como objetivo da política econômica a ampliação considerável do nosso fluxo comercial, uma vez que a participação do Brasil no comércio mundial permanece em níveis próximos aos do final da década de 1970, em flagrante contraste com o que ocorreu em outros países em desenvolvimento; (ii) tão importante quanto foi a Reforma da Previdência em 2019, será a aprovação da Reforma Tributária em 2020, uma vez que parte significativa do custo Brasil tem origem no manicômio tributário vigente em nosso país; (iii) a primarização da nossa economia reflete a atualidade das análises de Celso Furtado, cujo centenário de nascimento será comemorado este ano.

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