Luiz Alberto Machado: ‘Realidades e perspectivas da economia mundial’

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Luiz Alberto Machadoeconomista pela Universidade Mackenzie, mestre em Criatividade e Inovação pela Universidade Fernando Pessoa (Portugal), vice-diretor da Faculdade de Economia da FAAP e conselheiro efetivo do Conselho Federal de Economia. 

 

“A arte da previsão consiste em antecipar o que acontecerá e depois explicar o porquê não aconteceu.”
Winston Churchill

Normalmente, evito fazer previsões. Excepcionalmente, porém, gostaria de compartilhar minha percepção da economia mundial a partir do exame de quatro de seus atores, Brasil, Estados Unidos, China e União Europeia.

Brasil

A imagem do Brasil melhorou consideravelmente a partir do final dos anos 1980 e início dos anos 1990 graças, entre outros fatores, à redemocratização, ocorrida durante a década de 1980, à abertura da economia, impulsionada pelo presidente Fernando Collor no começo dos anos 1990 e, principalmente, à conquista da estabilidade, obtida em 1994 com o Plano Real, pondo fim a um longo período caracterizado pelo tripé perverso constituído pela estagnação prolongada, a inflação crônica e a pressão das dívidas – externa e interna.

Essa boa imagem foi consolidada nos mandatos dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, de tal forma que o Brasil chegou ao final da primeira década do século 21 despertando a admiração de renomados analistas políticos e econômicos.

Essa boa imagem, contudo, sofreu consideráveis arranhões recentemente, como ficou evidente pelas duas capas estampadas pela revista The Economist no intervalo de aproximadamente quatro anos. Em novembro de 2009, a referida revista estampou em sua capa uma foto do Cristo Redentor sendo lançado como um foguete sob a manchete“Brazil takes off” (O Brasil decolou). Menos de quatro anos depois, em sua edição do dia 28 de setembro de2013, arevista voltou a destacar o Brasil em sua matéria de capa,  estampando uma foto do foguete do Cristo Redentor em apuros, sob a manchete “Has Brazil blown it?” (O Brasil estragou tudo?).

Particularmente, acredito que nem a situação era tão boa quanto a que foi sugerida pela matéria de 2009, nem é tão ruim quanto a descrita pela matéria de 2013. A meu juízo, a mudança de ponto de vista deveu-se à percepção de certo esgotamento da política econômica adotada pelo governo brasileiro, baseada no binômio “programas de transferência + estímulo ao consumo”.

Se esse modelo respondeu positivamente num primeiro momento, quando muitos países enfrentaram pesadas dificuldades em decorrência dos efeitos da crise financeira internacional, sua viabilidade no longo prazo foi sempre objeto de questionamento por parte de analistas mais serenos, que sinalizaram para a falta de um planejamento digno desse nome, que articulasse ações de curto, médio e longo prazos.

Nos três anos de governo de Dilma Rousseff, ocorreram mudanças tanto no plano externo como no interno que serviram para tornar mais evidentes os nossos problemas. Taxas pífias de crescimento do PIB, mudanças constantes nas regras do jogo, inúmeras medidas protecionistas, a flexibilização crescente da política fiscal, a discutível criatividade na divulgação das contas públicas e a enorme incapacidade para promover reformas que melhorem o ambiente para a realização de negócios foram fatores que afastaram cada vez mais os investidores – tanto os de fora como os de dentro.

Assim, muitos brasileiros enxergam 2014 como uma grande incógnita. Se, de um lado, não existem ainda razões que sinalizem para um descontrole, de outro, não há qualquer esperança de uma surpresa muito favorável. Tudo indica que teremos mais um ano combinando baixo crescimento, inflação próxima do limite superior da meta e sacrifícios enormes para manter a situação fiscal dentro do razoável.

Se, nesse horizonte, o cenário descrito parece factível e, até certo ponto administrável, estão acontecendo fatos preocupantes em várias partes do País que evidenciam que há um considerável contingente da população insatisfeito com a situação. Diante disso, e do seu possível impacto para um horizonte mais longo, vale a pena observar a preocupação do embaixador Rubens Ricupero, manifestada em artigo recente na Folha de S. Paulo.

Ricupero abre seu artigo dizendo que “Incêndios de ônibus, saques, bloqueios de estradas são sinais ominosos que deveriam preocupar mais que o funk ostentação nos shoppings”. Tais acontecimentos, que até pouco tempo atrás ocorriam esporadicamente, passaram a ocorrer de forma sistemática, indicando um crescente esgarçamento do tecido social, evidenciado pelas cenas de violência e de desrespeito à ordem.

“Não adianta”, prossegue Ricupero, “minimizar a gravidade da tendência dizendo que o nível de vida melhorou e a população ficou mais exigente. O que se deve perguntar é por que demanda e protesto assumem formas destrutivas”.

Na sequência de seu artigo, o embaixador afirma que a inação e inabilidade dos governos – nos três níveis – estão entre as principais causas da situação. Afinal, como bem observa Ricupero, “as únicas medidas tomadas foram as fáceis, que adiam e agravam o problema: suspender aumentos de passagens, pedágios, gasolina, qualquer coisa que gere protesto”.

Ricupero conclui seu artigo com um alerta e uma constatação que merecem ser reproduzidos:

Não é com novo tipo de bolsa, salário mínimo ou melhora de renda que se dará satisfação ao que depende de respostas práticas a questões concretas: mobilidade, transporte, segurança contra criminosos e arbítrio policial, inundações, catástrofes como a da boate Kiss.

O subdesenvolvimento brasileiro se manifesta não no baixo crescimento do PIB. Ele reside na incapacidade de lidar com a complexidade dos desafios da moderna sociedade urbana. A exasperação do povo nasce desse fracasso.

 

Estados Unidos

Nos Estados Unidos, prevalece uma sensação de relativo otimismo. O país ainda se mantém como a maior economia do planeta e, embora o presidente Barack Obama esteja longe de desfrutar do mesmo prestígio do início de seu primeiro mandato, não há qualquer indício de perda de controle.

Superado, pelo menos temporariamente, o grave impasse vivido em outubro de 2013 em razão da dificuldade de aprovação do orçamento por conta de divergências entre republicanos e democratas, os Estados Unidos começam a colher os frutos do esforço empreendido desde o início da grave crise econômico-financeira, em 2007/2008. Evidência clara disso é a redução dos estímulos concedidos pelo Federal Reserve, o que só está ocorrendo em razão da percepção de que as forças da economia readquiriram condições de andar com suas próprias pernas.

Por falar em Federal Reserve, vale a pena registrar a mudança ocorrida em sua direção com a saída de Ben Bernanke, substituído por Janet Yellen. No pronunciamento de sua primeira audiência no Congresso norte-americano, Yellen prometeu continuidade na política monetária, afirmou que a retomada do mercado de trabalho ainda não está concluída e declarou que pretende manter a política de diminuição dos estímulos à economia, como vinha fazendo o seu antecessor.

Considerando o enorme peso relativo da economia norte-americana, é possível imaginar, num cenário otimista, certa reação em cadeia, com diversas outras economias se beneficiando, caso a recuperação continue ocorrendo no ritmo observado até agora.

China

Depois de suplantar o Japão como a segunda maior economia do planeta e de manter um crescimento econômico a taxas próximas de 9 ou 10% ao ano até 2012, a China apresentou relativa desaceleração em 2013, com uma taxa de crescimento pouco acima de 7%.

Em 2013 houve mudança na cúpula dirigente. Em março de 2013, tomaram posse o presidente Xi Jinping, sucedendo Hu Jintao, e o primeiro-ministro Li Keqiang,em substituição a Wen Jiabao.Na primeira entrevista concedida após tomar posse, Xi Jinping disse afastou qualquer temor em relação a pretensões hegemônicas da China, comprometeu-se com as reformas econômicas e políticas do país e disse que há um longo caminho a percorrer até a China ser um país “rico e forte”. 

Embora tenha afirmado que “uma China rica e forte ainda está distante”, a realidade é bem diferente, quer pela expressiva participação da China no comércio mundial, que supera 11% do total transacionado no mundo, quer pela importância estratégica da China para o Brasil.

De acordo com o embaixador Clodoaldo Hugueney, que ocupou a Embaixada do Brasil em Pequim de setembro de 2008 a fevereiro de 2013, a mudança se reveste de especial importância por tratar-se de uma mudança de geração no poder, da quarta para a quinta. Para Hugueney, não adianta especular a partir da análise do perfil dos novos ocupantes dos cargos. Mais importante é observar o legado da quarta geração e os principais desafios da quinta.

As últimas avaliações sobre a quarta geração foram negativas, por ela não ter levado adiante o processo de reformas que havia sido traçado. Apesar de reconhecer a validade de algumas críticas, Hugueney pondera que essa geração teve que enfrentar nos últimos cinco anos o impacto de uma crise internacional sem precedentes, sabendo superar os problemas com muita competência. O problema do adiamento das reformas é que, quanto mais elas forem postergadas, mais difícil será levar o programa adiante sem o risco de uma crise interna. A China, entretanto, não tem escolha. Pois os desafios que tem pela frente são enormes, apresar do enorme avanço verificado nas últimas quatro décadas.

Os novos mandatários possuem uma visão estratégica muito boa e têm também um rumo traçado que será seguido à risca. Nesse rumo, a prioridade absoluta é a continuidade do desenvolvimento pacífico. A estratégia do desenvolvimento pacífico deverá ser buscada sem esquecer jamais do século das humilhações a que o país esteve sujeito até a metade do século XX. E nessa busca, os interesses fundamentais seguirão inalterados, envolvendo a integridade do território, a supremacia do Partido Comunista (que possui 85 milhões de membros) e a soberania.

União Europeia

A União Europeia continua sendo o mais débil entre os principais atores da economia mundial, embora em determinados momentos transmita a sensação de que “o pior já passou”. Permanecem, no entanto, fortes razões para desconfiança com relação à economia de diversos de seus países-membros, entre os quais Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal, cujos níveis de desemprego permanecem elevados, exigindo permanente atenção de seus governantes. Itália e França também passaram por momentos complicados, levando ao questionamento – ou mesmo o descrédito – de seus principais mandatários. Diante desse quadro, resta torcer para a manutenção da robustez da economia da Alemanha, integrante mais poderoso do bloco. Seria terrível se a Alemanha, por alguma espécie de efeito contágio, tivesse sua economia debilitada em razão da enfermidade crônica de boa parte de seus vizinhos.

 

 

 

Referência bibliográfica

RICUPERO, Rubens. Tempestade quase perfeita. Folha de S. Paulo, 3 de fevereiro de 2014.

Referência webgráfica

YELLEN promete continuidade à frente do Federal Reserve. Disponível emhttp://www.dci.com.br/internacional/yellen-promete-continuidade-a-frente-do-federal-reserve-id383752.html

 

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