Luiz Alberto Machado: ‘Retrocesso relativo’

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ARTIGO

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Como parte da intensa programação do Espaço Democrático, a fundação de estudos e formação política do PSD, ocorreu a palestra sobre “Desafios da Economia Brasileira” ministrada pelo economista Marcos Lisboa, presidente do Insper e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005.

Lisboa iniciou sua palestra falando do enfraquecimento relativo da economia brasileira nos últimos 50 anos, incluindo os últimos 25, posteriores à conquista da estabilidade obtida com o Plano Real.

A tabela abaixo revela claramente a perda relativa dos trabalhadores brasileiros a partir de 1994, ano da implementação do Plano Real, vis a vis países emergentes, Estados Unidos, países da OCDE e países da América Latina e Caribe.

PIB por pessoa empregada

 

Nos anos que antecederam o Plano Real, o Brasil cresceu num ritmo muito inferior aos demais países emergentes (em média, 6% abaixo). Durante os governos FHC e Lula, o nosso crescimento foi inferior ao dos emergentes, porém num ritmo inferior de apenas 2%. A partir de 2010, no entanto, a situação se deteriorou e nosso desempenho foi lamentável, fazendo com que diversos outros países deixassem o Brasil “comendo poeira”.

Como razões desse retrocesso Lisboa apontou os seguintes fatores: (i) excessivo aumento do gasto público, concentrado fundamentalmente em salários e previdência, embora o Brasil ainda seja um país com população jovem em rápido processo de envelhecimento; (ii) redução acentuada do nível de investimento; (iii) baixa produtividade dos recursos humanos.

Além disso, mencionou quatro causas estruturantes: (i) baixa educação (aprendizagem dispersa e sem foco); (ii) infraestrutura deficiente; (iii) produtividade fora da empresa (instituições eficientes); (iv) políticas e intervenções públicas que dificultam o ciclo de abertura e fechamento das empresas.

Na sequência, Lisboa lamentou a perda de tempo com os falsos debates, tais como: (i) considerar juros e câmbio fatores essenciais para o crescimento; (ii) sobre a necessidade de regulação ou de intervenção para o funcionamento dos mercados, quando o que importa é definir quais as regras que permitem o desenvolvimento eficiente dos mesmos.

A má notícia, na visão de Lisboa, é que tudo que está acontecendo não é novo e é sobejamente conhecido. A boa notícia é que depende apenas de nós mesmos, não dá pra responsabilizar nenhum país ou instituição estrangeira pela nossa situação. Em outras palavras, a bola está conosco.

Na parte aberta às perguntas da plateia, perguntei ao palestrante como ele explicava a acentuada mudança do Brasil em termos de crescimento econômico, considerando que no consagrado trabalho World Economic Performance Since 1870, Angus Maddison, um dos mais respeitados analistas de ciclos longos de desenvolvimento, identificou o Brasil como o país que apresentou melhor desempenho de 1870 a 1986, numa comparação com os cinco maiores países da OCDE (EUA, Alemanha, Reino Unido, França e Japão) e os cinco maiores de fora da OCDE (Rússia, China, Índia, México e Brasil) (¹).

Respondendo à questão, Lisboa apontou como principal razão o fato de que mesmo nesse longo período em que o Brasil apresentou bom desempenho, o crescimento não ocorreu de maneira regular e constante, mas sim de forma espasmódica, alternando fases de excepcional crescimento – como o do chamado milagre econômico – com outros de relativa estagnação. Reconheceu, no entanto, que foi, em termos médios, um período bem mais auspicioso do que o verificado nas últimas décadas e insistiu para a responsabilidade, predominantemente nossa, de retomar a trilha do crescimento sustentado. Para tanto, chamou a atenção para as seguintes prioridades:

– Simplificação e previsibilidade das regras tributárias

– Estímulo à competição e redução das distorções setoriais

– Abertura comercial

– Maior relevância dos mercados de crédito e de capital

– Investimento em infraestrutura

– Política social e Reforma do Estado

(¹)Uma ótima síntese desse estudo de Angus Maddison pode ser vista no livro O Brasil e o dilema da globalização, de autoria do embaixador Rubens Ricupero (São Paulo: SENAC, 2001, p. 103).

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