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{ ARTIGO }

Mainstream

Economista Luiz Alberto Machado escreve sobre o livro de autoria do jornalista e pesquisador francês Frédéric Martel

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

Acabo de ler Mainstream. Concluído em 2010 e lançado no Brasil em 2012¹, o livro me havia sido recomendado por dois grandes professores, Jair Marcatti e Martin Cezar Feijó. Trata-se de uma espetacular análise do que acontece na guerra global das mídias e das culturas (subtítulo do livro) e oferece uma visão apurada de um processo de mudança comportamental em curso no mundo todo, das culturas e mídias tradicionais (mainstream) para mídias alternativas e menos populares graças ao aparecimento das plataformas digitais.

O livro foi escrito pelo jornalista e pesquisador Frédéric Martel, que durante cinco anos viajou pelo planeta visitando as capitais do “entertainment” com o objetivo de entrevistar mais de 1.250 protagonistas das indústrias criativas em 30 países, além de conhecer in loco estúdios de cinema, rádio e TV, gravadoras, editoras, agências de publicidade e universidades.

Considerando que o autor viajou por vários países para chegar ao texto definitivo, muitos aspectos acabam por prender a atenção do leitor. Alguns desses aspectos dizem respeito a peculiaridades da cultura de cada país visitado. Um dos que mais me chamaram a atenção refere-se à China: “Na China, é preciso saber esperar e voltar a fazer a mesma pergunta periodicamente, em todas as etapas de uma entrevista, sem insistir, mas sem nunca desistir, até finalmente obter a resposta”. Quem já teve a chance de conhecer a China sabe que é exatamente assim.

A fim de aguçar a curiosidade, reproduzo mais três trechos que também atraíram minha atenção de forma especial. O primeiro deles refere-se a Bollywood, a indústria cinematográfica da Índia, e sua estratégia para conquistar o mundo:

A Índia tem uma das economias mais dinâmicas do mundo, com um crescimento anual entre 6% e 8%. No setor das indústrias criativas e do cinema, o crescimento é ainda mais espetacular, superando 18% ao ano. “Nosso futuro está aberto, somos o segundo país mais populoso do mundo”, insiste Amit Khanna [diretor-presidente da Reliance Entertainment, uma das mais poderosas multinacionais indianas do setor das indústrias criativas e da mídia], que quer romper com a imagem do cinema indiano das décadas de 1960 e 1970, apreciado pela crítica e os festivais internacionais, como cinema do Terceiro Mundo, mas não levado muito a sério como indústria e como mercado.

O segundo refere-se à Rotana, grupo de mídia e entretenimento de Al Waleed, príncipe de sangue e membro da família real da Arábia Saudita:

A Rotana especializou-se em dois setores paralelos que contribuem para esse monopólio. Primeiro a internet: o grupo investiu milhões de dólares em sites ultramodernos e na IPTV, a televisão por internet. “Consideramos que a cultura e a informação, a música, os filmes, a televisão e os livros vão se tornar inteiramente digitalizados. Tudo vai se transformar completamente. É o que eu chamo de ‘telecotainment’, a mistura das telecomunicações com o entretenimento. Não haverá mais discos, livros, jornais, televisões, apenas telas ligadas à internet”.

O jornalista e pesquisador Frédéric Martel

O terceiro, por fim, já na parte conclusiva do livro, diz respeito à relação entre arte, cultura e economia, tema extremamente sensível para muitos atores da economia criativa, no qual a influência da Europa, que foi dominante por muito tempo, vem sofrendo acentuado declínio:

Será que a cultura, para ser valorizada, precisa estar necessariamente “fora” da economia e do mercado? Não é fato que setores inteiros da arte, na própria Europa, são regidos e produzidos pelo mercado (grande parte do cinema, da edição, da música, mas também da arte contemporânea)? Em si mesmo, assim, o mercado não seria bom nem mau para a cultura. Depende. É preciso analisar essas questões de maneira menos ideológica do que se tem feito até agora. As indústrias criativas valorizam os números, e não as obras, e não se pode discutir coma Billboard, a Variety ou a Nielsen Soundscan. É sobre essas mudanças de paradigma que os europeus precisam refletir.

Além desses três aspectos, o autor aborda muitos outros extraordinariamente atuais no fascinante mundo das mídias e das culturas, razão pela qual a leitura de Mainstream é extremamente atual e oportuna.

Permito-me uma última observação. Da época da publicação do livro para cá, a transição em direção à digitalização e ao uso de plataformas digitais avançou muito, passando a ter influência cada vez maior em todas as áreas, inclusive na política. Por essa razão, a ausência de referências a fenômenos como relações políticas internacionais, campanhas digitais e fake news deixa um gostinho de “falta alguma coisa” aos que se interessam pelo assunto.

 

¹ MARTEL, Frédéric. Mainstream: a guerra global das mídias e das culturas. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.


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