Menos Marx, mais Mises

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ARTIGO

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Em 2015, por ocasião das gigantescas manifestações que precederam o impeachment da presidente Dilma Rousseff, escrevi um artigo neste mesmo espaço com o objetivo de esclarecer o significado de um cartaz com os dizeres do título acima, exibido por manifestantes na avenida Paulista, que foi focalizado repetidas vezes pelas câmeras das emissoras de televisão que cobriram o evento.

Volto ao tema agora para comentar o recém-lançado “Menos Marx, mais Mises”, de autoria da cientista política Camila Rocha (Editora Todavia, 2021)¹.

No livro, que tem por subtítulo O liberalismo e a nova direita no Brasil, a autora faz uma radiografia do liberalismo brasileiro, tomando por base o papel desempenhado, primeiramente, pelos think tanks e personagens que foram protagonistas nas décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990 e, num segundo momento, pelas redes sociais e movimentos da sociedade civil nas primeiras décadas do século 21.

Camila Rocha, que faz questão de declarar-se de esquerda, consegue tratar a questão sem se deixar levar pela preferência ideológica, muito comum em obras dessa natureza.

O livro teve origem na tese de doutorado em ciência política pela Universidade de São Paulo, laureada com os prêmios de melhor tese de doutorado da Associação Brasileira de Ciência Política e de Tese de Destaque USP na área de Ciências Humanas.

Na pesquisa que fundamentou sua tese, Camila entrevistou, entre 2015 e 2018, dezenas de nomes representativos das diversas tendências do pensamento e das instituições liberais², chegando mesmo a morar por alguns meses no Rio de Janeiro, com o objetivo de fazer pesquisas na sede do Instituto Liberal do Rio de Janeiro.

No capítulo inicial, Camila explora aspectos semânticos relacionados à expressão direita, por reconhecer que “é muito comum entre analistas políticos o uso de expressões como ‘direita radical’ ou ‘extrema direita’ para se referir ao fenômeno da nova direita brasileira”. Nessa exploração, a autora recorre ao cientista político britânico Michael Freeden para esclarecer o significado de ideologias políticas. Para Freeden, “as ideologias políticas seriam um conjunto de ideias, crenças, opiniões e valores que: 1) possui um padrão recorrente; 2) é sustentado por grupos relevantes; 3) é utilizado nas disputas em torno da adoção de planos para políticas públicas; e 4) procura justificar, contestar ou mudar arranjos sociais e econômicos”. Desse modo, conclui, “as ideologias políticas possuiriam uma relação estreita com a prática política, permeando conflitos que se dão na esfera pública em torno do desenho de amplos programas que dizem respeito a políticas sociais e econômicas”.

Na parte final deste capítulo, Camila enfatiza a importância dos think tanks para a disseminação da defesa do livre mercado, mencionando alguns exemplos que obtiveram notoriedade tanto no Brasil como no exterior, entre os quais o Institute of Economic Affairs, na Inglaterra, a Foundation for Economic Education, nos Estados Unidos, e o Instituto Liberal, no Brasil.

O tema será retomado e aprofundado no segundo capítulo, em que a autora mergulha na ação dos principais think tanks brasileiros nas quatro últimas décadas do século XX, procurando mostrar a influência das ideias do economista austríaco Friedrich Hayek, principal idealizador, em 1947, da Sociedade Mont Pèlerin, que até hoje reúne, sistematicamente, representantes das diversas tendências do pensamento liberal do mundo inteiro.

Entre os think tanks citados por Camila, destaque para o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em 1961, em São Paulo; a Sociedade Brasileira de Cultura – Convívio, também de São Paulo; a Câmara de Estudos e Debates Econômicos e Sociais (Cedes), que reunia relevantes empresários brasileiros; o Instituto Liberal, fundado em 1983, no Rio de Janeiro, pelo empresário Donald Stewart Jr., mas que teve filiais em nove Estados do Brasil; o Instituto de Estudos Empresarias, fundado no Rio Grande do Sul pelos irmãos William e Winston Ling; e o Instituto Atlântico, fundado em 1992, no Rio de Janeiro, por antigos membros de Cedes liderados pelo economista Paulo Rabello de Castro, que se uniram ao empresário carioca Thomaz Magalhães. Em diferentes momentos os referidos think tanks conseguiram exercer – em maior ou menor grau – o papel a que se propunham na defesa do livre mercado, até entrarem em decadência com a chegada ao poder do Partido dos Trabalhadores e o progressivo afastamento dos principais financiadores dessas instituições.

Se a preocupação central dos think tanks focalizados no segundo capítulo era o combate ao comunismo, a dos think tanks e dos movimentos da sociedade civil surgidos a partir do início do século XXI e identificados à nova direita passou a ser o combate à hegemonia cultural esquerdista, principal aspecto examinado por Camila no terceiro capítulo, no qual cinco fatores, em minha opinião, merecem destaque especial.

O primeiro diz respeito à importância de Ludwig von Mises, também da Escola Austríaca de Pensamento Econômico, apontado por Camila como principal referência teórica da nova direita. Autor, entre outras obras, do clássico Ação humana³, Mises dá nome ao principal think tank liberal surgido neste século no País, ao lado do Instituto Millenium.

O segundo fator que merece destaque é a unificação dos diversos grupos da chamada nova direita em torno do combate à hegemonia cultural esquerdista que passou a vigorar desde a redemocratização e que é representada pelo pacto democrático de 1988, cujo símbolo maior é a Constituição Cidadã, responsável, de acordo com a visão da nova direita, pelo maior grau de intervenção do Estado na economia e pela proliferação exagerada dos direitos sociais.

O terceiro fator reside na relevância do filósofo Olavo de Carvalho em especial no referido combate à hegemonia cultural esquerdista. Embora sofra diversas restrições por sua postura e seus pronunciamentos não democráticos, Olavo de Carvalho conseguiu incutir na cabeça de Jair Bolsonaro e seus três filhos a ideia da necessidade de combater violentamente a influência da esquerda nos meios culturais e educacionais, bom como nos meios de comunicação.

O quarto refere-se ao forte impacto das redes sociais, começando pelo Orkut e continuando com o Facebook, Instagram e Twitter, não só para a reunião de simpatizantes da defesa do livre mercado e das ideias liberais, mas também, numa etapa posterior, para a convocação de seguidores para manifestações populares e campanhas políticas, como ficou evidenciado na eleição de Jair Bolsonaro.

O quinto, por fim, pode ser associado ao surgimento de movimentos da sociedade civil que proliferaram a partir da descoberta e ampla divulgação dos casos de corrupção durante os governos do PT, como foram os que se tornaram conhecidos como mensalão e petrolão. Ainda que com pautas diferentes, surgiram na esteira desses casos movimentos como o Vem Pra Rua, os Revoltados On-line e o Movimento Brasil Livre (MBL), dos quais saíram candidatos nas últimas eleições de partidos defensores da bandeira do livre mercado, como o Novo e o Partido Social Liberal (PSL).

Mesmo reconhecendo a excelência da pesquisa realizada por Camila Rocha e a qualidade do livro Menos Marx, mais Mises, reservo-me o direito de fazer uma ressalva. A meu juízo, ela não conseguiu deixar suficientemente clara a diferença entre direita, conservadorismo e liberalismo, nem entre as diversas ramificações do pensamento liberal.

Apesar dessa ressalva, concordo com suas conclusões citadas por José Fucs na resenha publicada no jornal O Estado de S. Paulo (21 de agosto de 2021): “Embora a maior parte da nova direita tenha apoiado a eleição de Bolsonaro e defenda, como ele, o rompimento do ‘pacto de 88’, o movimento representa um fenômeno diferente do bolsonarismo. É o que mostra o afastamento de grupos que se alinharam a Bolsonaro em 2018. Por isso, independentemente do rumo do governo, a nova direita veio para ficar”.

 

1 Tema por mim comentado na reunião do Espaço Democrático do dia 14 de setembro.

2 Um dos entrevistados pela autora foi o filósofo e historiador Antonio Paim, colaborador do Espaço Democrático, falecido em maio deste ano.

3 MISES, Ludwig von. Ação humana – Um tratado de Economia. Tradução de Donald Stewart Jr. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990.

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