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{ ARTIGO }

Nostalgia perigosa

Tudo indica que vem aí um ciclo de irresponsabilidade mal calculado e que jogará a conta do ajuste ainda mais para a frente, escreve Rubens Figueiredo.

 

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

 

É evidente que a massa dos eleitores brasileiros, ao definir seu voto, não leva em conta os aspectos da política econômica contidas nos projetos de cada candidatura. Um dos grandes eixos que orienta a decisão na hora da eleição é o que os especialistas chamam de voto retrospectivo. Se um governo está bem avaliado, a tendência é que vença o candidato que representa a continuidade. Se as coisas vão mal, a oposição ganha força.

Até agora, Jair Bolsonaro, que se apresentou na campanha como defensor da agenda liberal, falhou miseravelmente na sua implementação. Avançou muito pouco até agora nas privatizações e concessões, não reformou a máquina pública nem conseguiu mexer no nosso caquético sistema tributário. A seu favor, é possível argumentar que a pandemia não é, exatamente, o contexto dos sonhos para promover significativas mudanças estruturais.

A esquerda e seu ideário estatizante também fracassou estrondosamente, colocando o País numa das maiores crises da sua história, com o descontrole dos gastos públicos e um intervencionismo desastrado que desajustou parte da cadeia produtiva. Mas, antes disso, os brasileiros viveram um momento de euforia, com um aumento generalizado do consumo para a felicidade geral da Nação. Foi a tal ascensão da Classe C, que começou a comprar celulares, TVs de telas planas, viajar de avião e estrear em cruzeiros marítimos.

Vai daí que, na memória de parcela substancial dos eleitores brasileiros, os governos petistas são considerados muito bons – Lula atingiu inacreditáveis 83% de avaliações “ótima” e “boa” ao final de seu segundo mandato (Datafolha publicado em dezembro de 2010). Se transportarmos os brasileiros que tinham entre 13 e 57 anos em 2010 para 2022, serão mais ou menos 78% do eleitorado (faixa que compreenderá os eleitores que hoje têm entre 25 e 69 anos) com um “recall” altamente positivo daquele período “mágico”, de crédito barato e consumo em abundância. Somem-se a força de uma lembrança altamente positiva com o estardalhaço publicitário que o PT vai fazer e teremos uma dimensão da força da candidatura Lula.

O governo Bolsonaro tem hoje uma avaliação positiva de cerca de 20 a 25%, dependendo do levantamento. E precisa, urgentemente, melhorar a percepção que os eleitores têm acerca de sua performance administrativa. Assim sendo, começa a ceder à tentação populista, o caminho sem dúvida mais fácil para seduzir um eleitorado com muitas dificuldades econômicas e pouca esperança. Neste contexto, vai ser difícil ideias como disciplina fiscal e iniciativas liberais empolgarem a população. Tudo indica que vem aí um ciclo de irresponsabilidade mal calculado e que jogará a conta do ajuste, que aumenta a cada ano, ainda mais para a frente.


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