O caso Decotelli (Ph.D. ABD) e titulações acadêmicas mal definidas

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ARTIGO

 

 

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Carlos Decotelli ficou só cinco dias como ministro da Educação. Nomeado, não tomou posse oficialmente. Numa de suas entrevistas, causou-me boa impressão, pois mostrou capacidade de argumentação e conhecimento de questões do ministério – onde já havia trabalhado –, nas quais pretendia focar sua atenção. Perguntado sobre a questão ideológica, disse que não era sua especialidade e não ia cuidar disso.

Saiu por causa de problemas ligados ao seu currículo acadêmico. Disse ter um doutorado pela Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, mas seu reitor negou que ele fosse doutor, pois faltou aprovar a tese exigida para obtenção do título. Também disse ter um pós-doutorado na Alemanha, pela Universidade de Wuppertal, cujo reitor também negou essa condição. Ademais, não poderia ter um pós-doutorado se não era doutor. Afirmou, e insiste nisso, que era professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), mas esta informou que não é bem assim – voltarei ao assunto mais à frente. Também foi acusado de plágio ao escrever sua dissertação de mestrado, concluído na mesma fundação, e espero que tenha a oportunidade de se defender.

Diante da péssima repercussão dessas notícias, Decotelli acabou pedindo demissão. Segundo o noticiário, ele o fez a pedido do presidente Bolsonaro, que teria temido outra repercussão negativa se demitisse o único ministro negro de seu governo.

Decotelli falhou, assim, ao apresentar inverdades sobre seu currículo, e entendo necessário criar regras bem definidas para evitar ocorrências desse tipo. Começo pela titulação que lhe atribuí no título deste artigo. Tomei conhecimento dela ao cuidar do meu doutorado nos Estados Unidos. Ph.D. vem do latim philosophiae doctor, e com essa abreviação lá são chamados os doutores acadêmicos. Quando seguida de ABD, ou all but dissertation, significa ser um candidato ao título, que concluiu as várias exigências do programa, menos a tese, lá chamada de dissertação. Assim, enquanto não aprovada, há quem se intitule Ph.D. ABD. Tal adendo deveria ser adotado no Brasil. Pensei em chamá-lo de “exceto tese”, mas a abreviação ficaria Dr. ET, e não cairia bem. Outro seria ST, ou “sem tese”. De todo modo, o importante seria adotar um adendo sobre essa condição.

Ainda sobre o Ph.D. ABD, soube de economista que ficou nessa situação e dela não saiu, desistindo da tese. Certa vez, deu-me um cartão de visitas onde constava essa titulação com adendo. Perguntei-lhe: como você põe isso no cartão? E sua resposta foi: “Você quer que eu perca um título? E há gente aqui que acha que o ABD é mais um”.

Quanto à condição de professor da FGV, e também conforme o noticiário, a instituição negou que Decotelli fosse professor efetivo ou pesquisador de suas escolas, embora tenha atuado como professor colaborador, mas apenas nos cursos de educação continuada e nos programas de formação de executivos. Ou seja, é inegável que deu aulas lá. E desde 1986, segundo ele. Uma regra para situações desse tipo seria distinguir entre professor da instituição e professor na mesma escola, com a segunda condição cobrindo o caso Decotelli.

Sobre o pós-doutorado, não é título conferido por universidades, mas a menção desse status é comum em currículos acadêmicos. Usualmente, o próprio interessado toma a iniciativa de realizar um programa desse tipo, buscando outra instituição que possa acolhê-lo por um período. Mas para ser uma credencial deveria ser exigido um objetivo, e que fosse cumprido. Passei por um programa assim em Cambridge, na Inglaterra, com o propósito, cumprido, de escrever um livro, e a universidade local acolheu-me como visitor to the faculty, ou visitante de uma das suas faculdades, onde assistia a seminários, aulas e outros eventos, além de ter acesso às bibliotecas e participar do convívio social com professores e alunos.

Há gente que faz um pós-doutorado sem objetivo específico e se intitula pós-doutor, ou até professor visitante, o que pode dar a impressão de que, então, foi professor. A expressão visitor to the faculty parece adotado para evitar interpretações desse tipo, o que ocorre com visiting professor, o professor visitante. Neste caso caberia outra exigência: se deu aula, explicar de quê, onde e quando. Quanto a isso Decotelli falhou de novo, pois poderia ter dito apenas que ficou um período na Universidade de Wuppertal e o que lá fez de concreto.

A Plataforma Lattes (lattes.cnpq.br), de currículos acadêmicos, foi criada em 1999 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a partir de experiências anteriores. Tem o nome em homenagem ao físico Cesare Lattes, um dos maiores cientistas brasileiros e que chegou perto do Prêmio Nobel. Desde então ela se tornou padrão para apresentar, arquivar e acessar esses currículos. O texto é inscrito por seu titular, e seria prudente adotar regras como as apontadas para que depois não se alegue o “eu não sabia”, tanto pessoal como institucionalmente. Titulações mal definidas podem se transformar em fake news quando avaliadas com rigor.

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