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{ ARTIGO }

O coronavírus e a popularidade do governo Bolsonaro

Cientista político Rogério Schmitt escreve que as próximas pesquisas servirão para mensurar de forma mais precisa como a opinião pública está reagindo ao coronavírus e também como ela percebe o papel dos atuais governantes no combate aos seus efeitos.

 

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Não se fala de outra coisa nos últimos tempos. No Brasil e no resto do mundo, a pandemia do coronavírus se tornou o assunto hegemônico no mercado financeiro, no meio político, nos veículos de imprensa, nas escolas, no mercado de trabalho e na opinião pública como um todo. Por enquanto, ainda não há sinais de que essa quase onipresença possa se modificar. Pelo menos até que se estabilize o número de infectados e/ou que se descubra uma vacina eficaz.

O grande problema do novo coronavírus não é para os indivíduos que o contraem, já que a letalidade do Covid-19 é considerada relativamente pequena. Mas o tempo de incubação e a transmissibilidade da pandemia são diferentes de vírus anteriores (SARS, gripe suína, H1N1). O maior risco é que os hospitais e prontos-socorros fiquem sobrecarregados, com reduzida capacidade de atender aqueles que realmente precisem de assistência médica (inclusive devido a outras doenças ou acidentes).

No Brasil, um dos aspectos menos explorados do coronavírus está sendo os seus possíveis impactos sobre o cenário político. Neste ano, a conjuntura política do país tende a ser dominada ou pela tumultuada relação do governo Bolsonaro com o Congresso Nacional (no primeiro semestre) ou pela campanha eleitoral para as prefeituras municipais (no segundo semestre). Ao menos potencialmente, portanto, o coronavírus pode influenciar as taxas de popularidade não só do governo federal como também de prefeitos e governadores.

Vejamos o caso do governo Bolsonaro. Ainda não foi divulgada nenhuma pesquisa de popularidade presidencial desde a identificação dos primeiros casos de coronavírus na população brasileira. Mas, se fizermos uma média das pesquisas realizadas em janeiro e em fevereiro, chegaremos à constatação de que o governo Bolsonaro vinha dividindo o eleitorado nacional em três partes iguais: 1/3 de avaliação positiva (ótimo/bom), 1/3 de avaliação regular e 1/3 de avaliação negativa (ruim/péssimo).

Esse é um bom ponto de partida para que possamos traçar cenários para os próximos meses. Vamos imaginar três possibilidades. No primeiro cenário, a pandemia do coronavírus simplesmente não afetaria a popularidade do atual governo. Num segundo cenário, haveria um forte aumento da rejeição e uma forte queda na aprovação de Bolsonaro. Finalmente, num terceiro cenário, o governo veria aumentar consideravelmente as suas taxas de popularidade.

Não é o caso de atribuir probabilidades matemáticas aos cenários descritos acima. A rigor, dados os propósitos desse artigo, isso seria apenas um chute. O que importa é que esses três são os únicos cenários logicamente possíveis para o restante do primeiro semestre. Teríamos, portanto, para o governo Bolsonaro, o que poderíamos chamar de um cenário neutro, um cenário pessimista e um cenário otimista.

No cenário neutro, o coronavírus não produziria impacto mensurável sobre a popularidade do governo. O eleitorado continuaria dividido nas mesmas três partes iguais durante todo o primeiro semestre. Permaneceriam também as conhecidas dificuldades no relacionamento entre o Palácio do Planalto e o Congresso. Algumas reformas seriam aprovadas, mas outras não. Nas eleições municipais, o apoio do presidente Bolsonaro também não seria determinante sobre as chances de vitória dos candidatos a prefeito.

No cenário pessimista, o sistema de saúde pública se mostraria incapaz de lidar com a pandemia do coronavírus. A insatisfação popular com o atendimento aos infectados se estenderia também ao desempenho do governo Bolsonaro nas pesquisas de popularidade e nas taxas de apoio parlamentar. O Planalto seria incapaz de aprovar as principais reformas da agenda econômica, criando um ambiente de instabilidade política. Os candidatos a prefeito tentariam se desvincular ao máximo da imagem do presidente.

Finalmente, no cenário otimista, o sistema público de saúde conseguiria lidar satisfatoriamente com os infectados pelo coronavírus, gerando na opinião pública uma percepção positiva sobre as prioridades do atual governo. O crescimento dos índices de popularidade do presidente Bolsonaro se refletiria, por exemplo, na maior probabilidade de aprovação no Congresso das reformas econômicas encaminhadas pelo Planalto. Na sucessão municipal, o apoio do presidente seria decisivo para a vitória de candidatos governistas nas principais cidades.

As próximas pesquisas de opinião pública que serão divulgadas por institutos como o Ibope e o Datafolha certamente servirão para mensurar de forma mais precisa como a opinião pública brasileira está reagindo ao coronavírus, e também como ela percebe o papel dos atuais governantes no combate aos seus efeitos. Mas, mais do que isso, elas também terão um valor político estratégico. Elas podem ter a capacidade de apontar os destinos mais prováveis do governo Bolsonaro.


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