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{ ARTIGO }

O Índice de Qualidade da Elite e as taxas de homicídio

O Brasil é um país injusto e parte da responsabilidade se deve às decisões equivocadas de nossas elites, escreve o sociólogo Tulio Kahn

 

 

 

Tulio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

O EQx, ou “Índice de Qualidade da Elite”, elaborado pela Foundation for Value Creation, é um indicador comparativo internacional que classifica 32 países segundo a habilidade de suas elites em criar valor. Em contraste com esta elite criadora, algumas elites, como a brasileira, antes extraem do que criam valores para a sociedade. As primeiras servem a sociedade, enquanto as últimas são servidas por ela.

Elites existem, inevitavelmente, em toda a sociedade. E elas influenciam a economia, as instituições, o desenvolvimento humano, a riqueza, o progresso e diversas outras dimensões da sociedade. A mensuração do EQx é feita através de 72 indicadores, e a crença dos criadores do índice é que quanto mais próxima do polo criação de valor e distante do polo “rentista”, maior o grau de inclusividade econômica e de desenvolvimento humano da nação. O indicador é dividido em 4 subdimensões e 12 “pilares” – sugiro que os interessados consultem o site da fundação se desejarem se aprofundar nos detalhes técnicos do índice.

O mapa abaixo ilustra a situação dos 32 países pesquisados no ranking, onde já é perceptível a influência da dimensão “norte-sul” na classificação de cada país. Países desenvolvidos tendem a ter elites criativas e países subdesenvolvidos elites expropriadoras, o que explica, em parte, porque os primeiros se desenvolveram e os últimos não.

 

 

De acordo com a classificação, Singapura, Suíça e Alemanha teriam as elites de melhor qualidade, enquanto Egito, Argentina e África do Sul as de pior qualidade. O Brasil ocupa a pouco honrosa 27º posição no ranking de 32 países analisados.

Uma vez que a violência é uma dimensão importante do desenvolvimento humano e da qualidade de vida da população, é interessante analisarmos a eventual correlação entre a qualidade da elite de um país e sua taxa de homicídio. Trata-se aqui apenas de uma análise exploratória, uma vez que estamos lidando apenas com relações bivariadas, sem exercer controle sobre uma série de variáveis intervenientes.

Na tabela abaixo correlacionamos as taxas de homicídio doloso disponibilizadas pela UNODC para diferentes anos (entre 2008 e 2014, dependendo do país) e o Indicador EQx e seus subcomponentes.

Os dados parecem corroborar as hipóteses dos pesquisadores, pois quanto melhor o modelo econômico construído pela elite, menor a taxa de homicídio. A análise cross section dos 32 países mostra que tanto o rank global quanto os subíndices são estatisticamente significantes com p <.005.

O gráfico de dispersão abaixo traz os homicídios no eixo vertical e o Score no EQx no eixo horizontal e mostra tanto a correlação linear entre as variáveis quanto as exceções. Assim, por exemplo, Egito, Turquia e Índia são casos desviantes, pois tem níveis baixos de homicídio, não obstante os scores de suas elites sejam baixos. Isto significa que existem outras variáveis – culturais, históricas, religiosas, socioeconômicas – que influenciam as taxas de criminalidade num país, para além da qualidade das elites e modelos econômicos adotados. Por outro lado, países como África do Sul, Brasil, México e Nigéria tem taxas de homicídio superiores ao que seria esperado, novamente sugerindo que é preciso levar em conta fatores como disponibilidade de armas, consumo de álcool e drogas, demografia e outros. Não obstante os casos desviantes, parece existir uma relação entre qualidade da elite e violência, e neste sentido, passar de um tipo de sociedade rentista para um tipo criador de valor pode ser uma estratégia política válida para diminuir a violência.

A estratégia “rentista” ou “extrativista” adotada pelas elites que se servem da sociedade traz externalidades como maiores índices de violência, entre outras consequências negativas. Estas externalidades se voltam para estas próprias elites, que são obrigadas a viver encasteladas e inseguras. Além disso, a violência e a criminalidade são elas mesmas obstáculos ao desenvolvimento econômico do país (há uma relação causal reversa aqui, daí a necessidade de interpretar com cautela as correlações bivariadas). Avançar a agenda em direção a um modelo econômico mais inclusivo e produtivo pode ser um jogo de soma positiva, um jogo de ganha-ganha onde todos lucram, em termos de qualidade de vida.

Essa agenda envolve melhorar a mobilidade social, diminuir a corrupção política, descentralizar o poder político, modernizar o ambiente regulatório para fazer negócios, eliminar o trabalho escravo e o trabalho infantil, diversificar a produção, diminuir a taxa de mortalidade das empresas, diminuir subsídios desnecessários, aperfeiçoar o sistema tributário, melhorar a proteção ambiental, diminuir as barreiras alfandegárias, diminuir as desigualdade de renumeração de gênero e raça e dezenas de outras medidas. Esta parece ter sido a agenda modernizadora adotada pelas elites de alta qualidade dos países desenvolvidos, que regra geral convivem com baixas taxas de homicídio. Como Fernando Henrique Cardoso definiu certa vez, o Brasil não é um país pobre, mas um país injusto. Parte da responsabilidade se deve às decisões equivocadas de nossas elites, cujas consequências pagamos com vidas, até hoje.


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