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{ ARTIGO }

O papel das Ciências Sociais

Para Rubens Figueiredo, em um mundo onde todos devem ter opiniões instantâneas, definitivas e, por isso, superficiais, as Ciências Sociais, baseadas na reflexão criteriosa, parecem absolutamente “demodè”

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

Um encontro recente no Instituto Fernando Henrique Cardoso debateu o papel das Ciências Sociais na sociedade moderna. Presente na reunião, o sociólogo Simon Schwartzman, autor de um dos clássicos da nossa Ciência Política (o livro Bases do autoritarismo brasileiro) fez uma interpretação bastante útil para aqueles que se interessam pelo assunto, distinguindo os três temas ou papéis da disciplina.

O primeiro diz respeito à engenharia social. As Ciências Sociais – antropologia, ciência política e sociologia – ajudam a administrar a vida em sociedade. Basicamente, são importantes na definição do diagnóstico dos principais problemas sociais, na mensuração da dimensão desses problemas, na elaboração de políticas públicas e sua implementação.

Quando se discute a organização do sistema político, algo recorrente entre nós, a Ciência Política contribui ao propor alternativas institucionais compatíveis com nosso desenvolvimento histórico e perfil cultural. Com isso, evita-se a adoção de procedimentos que podem dar certo em outros países, mas não seriam adequados para nós. Um parlamentarismo com fragilidade, fragmentação partidária e sem voto distrital misto, por exemplo, dificilmente teria sucesso por aqui.

A segunda função das Ciências Sociais é entender e explicar o que acontece nas sociedades e comparar diversos modelos sociais. Por que determinados arranjos dão certo em alguns países e em outros não? O que faz um lugar mais violento do que outros? O que gera as desigualdades sociais? Quais as características mais marcantes de determinadas culturas?

Nessa busca de conhecimento, os cientistas sociais desenvolveram teorias e metodologias a partir das obras dos grandes autores clássicos. Na sociologia, por exemplo, destacam-se os trabalhos de Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber. No seu livro clássico sobre o suicídio, Durkheim mostra os componentes sociais de uma ação aparentemente considerada extremamente individual. É fascinante.

O terceiro componente das Ciências Sociais, na visão de Schwartzman, é de caráter ético e normativo. É como se o cientista social “escolhesse” a sua forma de entender o mundo. Por mais que tente se distanciar do seu objeto de estudo em busca de uma pouco provável neutralidade “científica”, é evidente que as paixões e as preferências do analista contaminam seus trabalhos.

Diz ele: “Nós temos problemas de desigualdade, discriminação, pobreza, violência… e os cientistas sociais são comprometidos com esses problemas”. Mas esse comprometimento é mediado pelo conhecimento, pelo estudo de mecanismos teóricos e metodológicos que nos aproximam da realidade e da explicação do que ocorre na sociedade. É o que diferencia, por exemplo, um intelectual de um militante ou palpiteiro, tão presentes hoje em dia.

É claro que essas três vertentes não são estanques. Elas se associam e, às vezes, podem até se atritar. Num mundo onde todos devem ter uma opinião instantânea, definitiva e, por isso, superficial sobre tudo, as Ciências Sociais, baseadas na reflexão criteriosa, parecem absolutamente “demodè”. Mas, gostemos ou não, são elas o caminho para se compreender e, com engajamento, tentar mudar, aquilo que acontece à nossa volta.


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