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{ ARTIGO }

O que é ser classe média no Brasil

Para Rogério Schmitt, há uma forte tendência, observada em vários países, de setores mais ricos se autodefinirem como “classe média”; os motivos são simbólicos e políticos.

 

Rogério Schmitt, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

Edição Scriptum

 

O conceito de “classe média” ocupa um lugar central nas ciências humanas. Desde o século 19, sociólogos e economistas vêm tentando compreender esse grupo intermediário situado entre a elite econômica e a classe trabalhadora. Na tradição marxista, a classe média era vista com desconfiança: um estrato ambíguo, ora aliado ao capital, ora próximo do proletariado. Já Max Weber, em uma abordagem mais pluralista, associava a posição de classe não apenas à propriedade dos meios de produção, mas também ao tipo de ocupação, à qualificação e ao prestígio social. Desde então, a noção de classe média tornou-se uma das mais debatidas e fluidas da sociologia política contemporânea.

No Brasil, o termo “classe média” começou a ser utilizado de forma mais sistemática a partir da década de 1950, em meio ao processo de urbanização e industrialização. O sociólogo Florestan Fernandes observava o surgimento de um novo grupo de trabalhadores assalariados, mais escolarizados e inseridos nos setores de serviços e na administração pública. Essa “nova classe média urbana” era vista como um agente potencial de modernização, embora ainda dependente do Estado e vulnerável a crises econômicas. Já nos anos 1970 e 1980, estudiosos como José de Souza Martins e Lúcio Kowarick destacaram o caráter heterogêneo desse grupo, dividido entre uma classe média tradicional (funcionários públicos e profissionais liberais) e uma classe média emergente, formada por pequenos empresários e assalariados de setores dinâmicos da economia.

Com o avanço da pesquisa demográfica e o uso mais sofisticado de indicadores socioeconômicos, passou-se a definir a classe média por critérios objetivos de renda e escolaridade. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) adotam frequentemente recortes baseados na renda domiciliar per capita. Um dos referenciais mais utilizados é o proposto por Marcelo Neri, da FGV Social, segundo o qual pertence à “nova classe média” quem possui renda familiar per capita entre R$ 1.200 e R$ 5.000 (valores aproximados atualizados para 2025). Essa faixa reuniria, grosso modo, cerca de 45% da população brasileira.

No entanto, a renda, isoladamente, não é suficiente para caracterizar a classe média. É preciso considerar também o acesso a bens simbólicos — como escolaridade, estabilidade ocupacional e expectativas de ascensão. A classe média brasileira, em sua definição mais sociológica, é marcada pela valorização do diploma universitário, pelo consumo de serviços privados de educação e saúde e pela busca por distinção social em relação às classes populares. A combinação entre capital econômico e capital cultural, para usar os termos de Pierre Bourdieu, definiria não apenas o poder de compra, mas o estilo de vida e o horizonte de aspirações dessa camada social.

Outra forma de abordar o tema é por meio dos padrões de consumo. O IBGE, ao analisar o perfil de consumo das famílias, identifica a classe média como o grupo que concentra seus gastos em transporte, alimentação fora do domicílio, educação e comunicação. Trata-se de uma faixa da população que, embora não viva na pobreza, tampouco desfruta do conforto e da segurança financeira das classes mais altas. O endividamento e a dependência do crédito — inclusive para consumo básico — são traços recorrentes. Em momentos de instabilidade econômica, a classe média brasileira revelaria a sua vulnerabilidade estrutural.

Nas discussões políticas recentes, o termo “classe média” tem sido usado de forma bastante imprecisa. A recente aprovação, pelo Congresso Nacional, do PL 1.087/2025, que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda e eleva as alíquotas superiores, reacendeu o debate. Diversos comentaristas e parlamentares afirmaram que a medida penalizaria a “classe média”, por atingir rendas mensais acima de R$ 50 mil. No entanto, essa interpretação distorce o sentido técnico do conceito: quem recebe nessa faixa já pertence, estatisticamente, ao grupo dos mais ricos do País (equivalente a 0,13% dos contribuintes).

De acordo com a PNAD Contínua do IBGE de 2024, a renda domiciliar per capita média do brasileiro seria de cerca de R$ 1.900. Isso significa que uma família de quatro pessoas com renda total de R$ 7.600 situa-se exatamente no centro da distribuição — nem pobre, nem rica. Acima desse patamar, já se começa a entrar na faixa superior da pirâmide social. Assim, quando o debate tributário trata como “classe média” os contribuintes que ganham R$ 15 mil, R$ 20 mil ou mais por mês, na verdade está se referindo à elite de renda, e não à classe média propriamente dita.

Esse equívoco não é trivial. Ele reflete a tendência, observada em vários países, de setores mais ricos se autodefinirem como “classe média” por motivos simbólicos e políticos. A identificação com a classe média carrega uma conotação de mérito, trabalho e responsabilidade — valores positivos no imaginário coletivo. Mas, do ponto de vista analítico, é importante separar o discurso identitário da realidade econômica. O verdadeiro centro da pirâmide social brasileira não está nos patamares de renda mais elevada, mas nos segmentos que lutam para manter um padrão modesto de estabilidade e consumo.

Portanto, a classe média brasileira, em sentido estrito, compreende famílias com renda total entre R$ 4 mil e R$ 10 mil mensais, dependendo do tamanho do domicílio e da região. São trabalhadores formais, pequenos empreendedores, professores, técnicos e servidores públicos de níveis intermediários. Eles sustentam boa parte da arrecadação tributária e do consumo nacional, mas convivem com a precariedade dos serviços públicos e com o peso do endividamento. É um grupo numeroso, decisivo nas eleições e nas dinâmicas de mobilidade social, mas que vive em uma margem estreita entre o conforto e a insegurança.

Nesses termos, entender o que é ser classe média no Brasil exige mais do que olhar para a renda. Implica compreender um conjunto de aspirações, vulnerabilidades e identidades que se situam no coração da sociedade. A classe média brasileira é, ao mesmo tempo, motor e termômetro das transformações do País. Idealizá-la ou distorcê-la, como se tem feito no debate sobre o Imposto de Renda, é um erro analítico e político. Definir corretamente quem ela é — e o que precisa para prosperar — é condição essencial para qualquer projeto de desenvolvimento socialmente equilibrado e fiscalmente justo.

 

 

Os artigos publicados com assinatura são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do PSD e da Fundação Espaço Democrático. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.


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