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{ ARTIGO }

O setor de serviços no Brasil e a sua relação com a China

Empresário Dácio Pretoni mostra as muitas oportunidades comerciais que o Brasil tem na China

Dácio Pretoni, empresário, conselheiro internacional da Confederação Nacional de Serviços (CNS) e colaborador do Espaço Democrático

 

Muitos não sabem, mas o Brasil é um país que tem sua economia baseada, em grande parte, na área de serviços. O número oscila ano a ano, mas temos em média cerca de 70% do PIB brasileiro firmado nela.

Quando olhamos para a agricultura, 42% deste setor refere-se a serviços, como logística e automação.

É por isso que quando tratamos, por exemplo, da reforma tributária, é VITAL analisar o impacto que ela terá no setor de serviços e que consequências certamente trará à economia brasileira (vale a dica).

Posto isso, gostaria de apresentar alguns números interessantes sobre Brasil, China e a relação entre os dois países.

Fonte: Indicadores do Desenvolvimento Mundial (WDI), Banco Mundial e IBGE.

(1) inclui mineração, energia, gás e saneamento

 

Temos aqui os números que representam o peso de cada segmento no PIB de cada país (agricultura, indústria e serviços) e a porcentagem na geração de emprego.

Reparem que no Brasil, em 2016, 73,3% do PIB foi do setor de serviços, sendo responsável por 68,8% na geração de empregos. Já agricultura, apenas 5,5% do PIB e 10,3% de empregos. E a indústria, 21,2% do PIB e 20,8% de empregos.

Sim, a agricultura foi muito importante na nossa balança comercial de 2020, principalmente pelo nosso maior cliente, a China (e que tratarei mais a frente), mas em termos absolutos, a proporção se manteve a mesma.

A China, que em 2012 teve 55% do PIB baseado em manufatura, em 2016 já havia mudado para 51,6% em serviços e no último ano já bateu 60%. Uma grande mudança de rumo na economia chinesa, já que se ganha muito mais dinheiro com serviços do que com manufatura. Foi neste exato ano de 2012 que o governo central chinês promoveu a 1ª Feira Internacional de Serviços em Pequim, chamada CIFTIS FAIR. Estive presente e a mensagem foi muito clara: a China deixaria de ter sua economia fundada em manufatura e que a área de serviços iria liderar as receitas nos anos seguintes. Dito e feito.

Quando comparamos o saldo comercial brasileiro entre comércio de serviços e de bens de consumo, o primeiro obteve em 2018 um deficit na ordem de U$D 33 bilhões, chegando a U$D 40 bilhões em 2020, enquanto o segundo obteve um de U$D 58 bilhões.

Isso mostra o quanto o Brasil ainda tem que internacionalizar seu segmento de serviços, como tecnologia, franquias, medicina etc. E aqui a China poderá também se tornar um grande parceiro.

O capital estrangeiro é muito sensível a riscos e ninguém põe dinheiro onde não sabe se as cláusulas contratuais serão honradas. Isto se aplica a todos os investidores, inclusive aos chineses.

O investimento estrangeiro direto em nosso País sofreu uma importante queda nos anos de 2017 e 2018 graças à instabilidade política no Brasil, quando do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e o início do processo de prisões de empresários e políticos.

O Brasil ainda tem uma boa reputação no cumprimento de contratos, requisito fundamental para qualquer intenção na captação de recursos externos.

Além disso, há muito ainda a ser feito, no Brasil, em infraestrutura – e isto certamente atrai a atenção de grandes grupos internacionais para investir aqui.

Vou compartilhar alguns números referentes à área de serviços do Brasil, e logo em seguida, números chineses (2017):

Ø Tecnologia da Informação:

ü Desenvolvimento e comercialização de software: receitas de mais de USD 20 bilhões no ano e emprego de 169.000 pessoas.

ü Provedores de internet: receitas de mais de USD 12,6 bilhões no ano e emprego de 90.000 pessoas.

ü Outros serviços de informação: receitas de mais de USD 32,5 bilhões no ano e emprego de 187.000 pessoas.

Ø Telecomunicações:

ü Wired, wireless e comunicação por satélite: receitas de mais de USD 50 bilhões no ano e emprego de 120.000 pessoas.

ü Provedores de televisão por assinatura: receitas de mais de USD 1,3 bilhão no ano.

ü Outros serviços de telecomunicações: receitas de mais de USD 60 bilhões no ano e emprego de 154.000 pessoas.

Ø Franquias:

ü 146.000 franqueados associados com 2.845 redes de franquia. Cerca de 1,2 milhão de empregados.

ü Receitas superiores a USD 100 bilhões

ü Este setor cresceu 8% em 2017

Ø Turismo:

ü Serviço de alimentação: 366.000 estabelecimentos que empregaram 1.259.000 pessoas e faturaram USD 139,2 bilhões

ü Hotéis: 32.000 empresas no ramo de hospedagem que ofereceram mais de 2,4 milhões de leitos.

ü Transportes: o Brasil tem quase 2.500 aeroportos e aeródromos. Em todo o mundo, o Brasil é classificado em segundo lugar em número de aeroportos e terceiro em termos de volume na aviação comercial doméstica.

Ø Logística:

ü Manuseio e armazenamento de cargas: 12.700 empresas com receitas de USD 11,7 bilhões e forneceu empregos para 121.000 pessoas.

ü Serviços auxiliares de transporte: 25.000 empresas com receitas de USD 16,7 bilhões e forneceu empregos para 105.000 pessoas.

ü Atividades da organização de transporte: 42.900 empresas, com receitas de USD 46,6 bilhões, e forneceu empregos para 354.400 pessoas.

Ø Saneamento e Reciclagem:

ü Água e esgoto: 6.400 operadores de distribuição de água tratada e coleta e tratamento de esgoto. Essas empresas empregaram 144.000 pessoas e tiveram receitas de USD 34,1 bilhões.

ü Resíduos sólidos: 7.100 empresas que manuseiam resíduos sólidos. Essas empresas empregaram 154.000 pessoas e tiveram receitas de USD 13,6 Bilhões.

ü Reciclagem: o Brasil é o maior reciclador de alumínio do mundo, processando 700.000 toneladas métricas por ano. O país é também um grande reciclador de produtos de papel e material plástico. O PIB deste setor totalizava USD 10,3 bilhões.

Compartilho agora alguns números atualizados da economia chinesa, por serem bem pertinentes para uma mudança de paradigma na relação comercial com eles, pois sempre ouço, e creio que vocês também, que a China é uma grande compradora de comodities apenas:

Ø PIB U$D 14 trilhões (Brasil USD 1,4tri);

Ø Crescimento maior do que o dos EUA;

Ø Sozinha responderá por 26,8% do PIB mundial em 2021.

Ø A proporção da expansão mundial proveniente da China deve aumentar de 26,8% em 2021 para 27,7% em 2025, de acordo com cálculos da Bloomberg com base em dados do Fundo Monetário Internacional.

Ø Maior produtora mundial de alimentos: 520 milhões de suínos, 485 milhões de toneladas de grãos;

Ø É o maior produtor mundial de milho e arroz;

Ø Agricultura mecanizada, gerando excelentes resultados de produtividade;

Ø Aumento nos investimentos na área de educação, principalmente técnica;

Ø Investimentos em infraestrutura com a construção de rodovias, ferrovias, aeroportos e prédios públicos. (MOBILIDADE, SMART-CITY)

Ø Investimentos nas áreas de mineração, principalmente de minério de ferro, carvão mineral e petróleo, mas grande importador de matéria-prima;

Ø Participação no bloco econômico APEC (Asian Pacific Economic Cooperation), junto com Japão, Austrália, Rússia, Estados Unidos, Canadá, Chile e outros países;

Ø Em 2019, a balança comercial chinesa foi positiva (superávit) em US$ 353 bilhões com exportações de US$ 2,500 trilhões e importações de US$ 2,147 trilhão. Em relação a 2018, as exportações aumentaram 0,5% e as importações tiveram queda de 2,8%.

Ø Desempenho do PIB em 2019: crescimento de 6,1%.

Ø PIB per capita (nominal): US$ 8.100 (em 2019) (Brasil: R$ 33.593,82 = US$ 6.523,00)

Ø Dívida pública: 47,6% do PIB (em 2017)

Ø Dívida Externa: US$ 1,850 trilhão (em 2019 – estimativa) (Brasil: US$ 323,593 bilhões)

Ø Inflação: 2,8% (em julho de 2019)

Ø Força de trabalho por ocupação: serviços (43%), indústria (30%) e agropecuária (27%) – em 2019

Ø Principais empresas chinesas privadas da atualidade (2019) e áreas em que atuam: Huawey (telecomunicações e tecnologia), Suning (varejista), Amer International (alta tecnologia), JD.com (comércio eletrônico), Weiqiao Pioneering Group (têxtil, vestuários e termoeletricidade), Legend Holdings (finanças e imóveis), Evergrande (setor imobiliário), Gome Holdings (varejo de eletrodomésticos) e Hengli Group (têxtil, petroquímica e polyester).

Ø Mais de 1,04 bilhão de usuários ativos mensais do wechat (=whatsapp);

Ø Mais de 527 milhões de usuários pagadores via celular, o que representa em torno de U$D 24 trilhões em receita (80 vezes a dos Estados Unidos);

Ø Duas dentre as 6 maiores start-ups de Inteligência Artificial são chinesas;

Ø Mais de U$D 32 bilhões investidos em start-ups e 895 novos fundos de Venture Capital com mais de U$D 55 bilhões em 2017;

Ø A empresa DJI possui mais de 70% do market-share de drones mundial;

Ø Consumidores chineses são rápidos em adotar novas tendências e são sofisticados no meio digital. Ao contrário daqueles em mercados estabelecidos, eles têm uma tolerância maior para falhas, o que permite às empresas menos avessas ao risco e experimentar e aprender rapidamente;

Ø 149 empresas “Unicórnios” (Unicórnios são empresas com valor de mercado acima de US$ 1bi);

Ø “Até abril de 2019, existiam 15 mil trens e 57 ferrovias conectando 35 cidades chinesas e 108 cidades internacionais de 16 países. O tempo médio de passagem de alfândega diminuiu 50%”;

Ø “Nos últimos 5 anos as companhias aéreas estabeleceram 1.249 novas rotas aéreas nos países do BRI (“Belt & Road Innitiative”), conectando diretamente com 51 paises do BRI;

Ø “Belt and Road Innitiative – BRI” é um programa de governo expansionista chinês que leva para países vizinhos tecnologia, mão-de-obra especializada, capital barato, e oferece seu mercado consumidor para tais países.

Ø Companhias aéreas internacionais abriram 18 novas rotas com os países do BRI.

Ø Desde 2013 a china investiu mais de U$D 30 bilhões na 3ª indústria dos países do BRI;

Ø A quantia de comércio excede U$D 6 trilhões, e representava 24,5%  do montante de comércio exterior da China.”

E qual é a nossa relação atual com a China?

Bom, esta relação iniciou-se em 1974, quando foram abertas as embaixadas do Brasil em Pequim e da China em Brasília. O Brasil tem consulados-gerais em Xangai, Cantão e Hong Kong. A China conta com consulados-gerais no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife.

A partir de 2009 a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e ambos fazem parte do BRICS, G20, OMC E BASIC (articulação entre Brasil, África do Sul, Índia e China na área do meio ambiente).

Em 1993 estabeleceram uma parceria estratégica e em 2004 foi criada a COSBAN – Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Consertação e Cooperação, copresidida pelos vice-presidentes do Brasil e da China e onde discute-se assuntos sensíveis entre os 2 países, como por exemplo problemas entre empresas brasileiras e chinesas.

No ano de 2012, a relação Brasil-China foi elevada a nível de Parceria Estratégica Global, estabeleceu-se o Diálogo Estratégico Global (DEG), e firmou-se o Plano Decenal de Cooperação (2012-2021). Nele, projetos são nomeados por ambos os países para investimento e com dinheiro a juros baixíssimos.

Em 1988, foi estabelecido o Programa CBERS (sigla em inglês para “Satélite de Recursos Terrestres Brasil-China”), para construção e lançamento de satélites – projeto pioneiro entre países em desenvolvimento no campo da alta tecnologia. Foram lançados, desde então, seis satélites (1999, 2003, 2007, 2013 e 2019).

O comércio Brasil-China ampliou-se de forma impactante na última década. De US$ 3,2 bilhões em 2001, passou para US$ 98 bilhões em 2019, sendo apenas US$ 1 bilhão de serviços. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009. Em 2012, a China tornou-se o principal fornecedor de produtos importados pelo Brasil.

Em 2019, o Brasil exportou para a China um total de US$ 62,8 bilhões e importou US$ 35,2 bilhões (em 2018, os montantes foram, respectivamente, de US$ 64,2 bilhões e US$ 34,7 bilhões).

Abaixo, um gráfico do saldo de serviços em milhões de US$ entre Brasil e China (2018):

 

Fonte: Banco Central do Brasil. (1) inclui Hong Kong e Macau. (2) inclui serviços governamentais, empresariais e culturais.

 A China vem se aproximando do nosso mercado interno e já figura como uma das principais investidoras estrangeiras diretas, implantando alguns de seus bancos, como ICBC, Bank of China, Agricultural Bank, e comprando, através de leilões internacionais, operações importantes em setores como eletricidade (distribuição), extração de petróleo, telecomunicações e indústria.

O Brasil abriu uma agência do Banco do Brasil em Xangai, em 2014, sendo a primeira agência de um banco latino-americano na China.

Em outubro de 2016 foi assinado em Macau, entre o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços do Brasil e o Ministério de Comércio da República Popular da China, e com a participação da CNS (Confederação Nacional de Serviços) na sua elaboração, um “MOU” (Memorando de Entendimento), a fim de promover a área de Serviços entre as duas nações. Diz no seu artigo III:

As partes irão facilitar e promover a cooperação, o diálogo e o comércio em setores de serviços essenciais, especialmente, embora de forma não exclusiva, em tecnologia da informação e serviços habilitados por TI, incluindo comércio eletrônico e automação bancária, transporte, turismo, serviços terceirizados, serviços audiovisuais, consultoria em engenharia e serviços da medicina tradicional chinesa.

Tal acordo é de extrema relevância, visto que apenas 1% do comércio entre os dois países refere-se a serviços, ou seja, temos muito para desenvolver.

O Brasil tem uma oportunidade imensa de explorar a área de serviços em solo chinês. Acordos já foram firmados, tanto a nível governamental como privado. Demandas cada vez maiores e um apetite crescente por inovação, produtos e soluções.

O brasileiro tem que sair de sua zona de conforto, ir até o outro lado do mundo e ver a China como compradora de seus serviços, pois caso contrário, o chinês virá para o Brasil comer o nosso mercado.

A qualidade no ensino fundamental adotado nas escolas chinesas é de primeira e a exigência é muito grande. Crianças de 8, 10 anos de idade já sabem montar pequenos robôs utilizando o brinquedo da Lego. Enquanto isso, nossos jovens discutem temas que trarão poucos frutos no futuro.

A China já passou faz tempo os norte-americanos quando falamos de inovação, e isto é nítido quando vemos que os jovens chineses nem utilizam mais papel moeda no seu dia a dia.

Como em qualquer relação comercial, é extremamente importante termos pessoas capacitadas e competentes para minimizar o risco dos negócios, portanto procure quem conheça o mercado, quem possa fazer uma due-diligence da empresa chinesa, utilize-se de advogados que tenham parceria com escritórios de advocacia em solo chinês, use trades oficiais com credibilidade, enfim, faça o que todo bom empresário faz quando busca novos horizontes em algum outro país. E sim, existem excelentes empresários chineses que cumprem seus acordos e contratos e que gostam do Brasil.

O Brasil não pode perder a oportunidade de explorar o maior mercado do mundo. As regras já foram definidas, basta segui-las.

Espero que este texto tenha aberto sua mente sobre novas ideias e projetos, e te animado para este novo mercado.


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