Os adversários da contemporaneidade

Compartilhe
TwitterFacebookWhatsApp

ARTIGO

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

O livro Crise e reinvenção da política no Brasil (São Paulo, Companhia das Letras, 2018), de Fernando Henrique Cardoso, talvez por ter sido organizado a partir de uma série de entrevistas concedidas pelo autor a Miguel Darcy de Oliveira e Sérgio Fausto, é cheio de insights bastante interessantes. Traça um panorama da sociedade moderna e como a política tem lidado com transformações tão rápidas, intensas e profundas.

Uma dessas “sacadas” diz respeito ao que FHC chama de “adversários da contemporaneidade” (pg. 16): o estatal-coorporativismo, de um lado, e o fundamentalismo de mercado, de outro.  Quem comunga dessas visões de mundo e maneiras de organizar a sociedade as considera estanques. Qualquer tentativa de diálogo é infrutífera por antecipação. Meio termo não existe: é tudo ou nada!

Para o fundamentalismo, o mercado é o senhor que tudo regula. A vida em comum se resume a uma coleção de seres individualistas ao extremo, fúteis, que só pensam em acumular e consumir desbragadamente. Já a esquerda tacanha, quase folclórica, se aferra ao estatismo desenfreado. Desemboca num corporativismo frenético que, ao fomentar déficits públicos crescentes, limita sobremaneira a capacidade estatal de executar políticas públicas minimamente eficientes, o que só faz aumentar a nossa desigualdade.

Essas duas correntes absolutamente antagônicas têm o viés do exagero. É evidente que a saída, para o Brasil, está em algum ponto entre uma concepção e outra. Nem o mercado é capaz de tudo, como imaginam os apologistas da autorregulação, nem o Estado pode ser senhor absoluto, competente e onisciente do que acontece. Historicamente, o vigor da iniciativa privada associado a um arcabouço jurídico adequado gerou as sociedades mais afluentes às quais se tem notícia. Fugir desse figurino, seja para que lado for, não parece uma atitude das mais sensatas.

O problema é que chegar ao meio termo envolve uma sucessão de reformas que estão longe de empolgar a sociedade. Estabelecer um novo pacto social, que limite e diminua o papel Estado na esfera produtiva para que a economia funcione direito e sobre recursos para investimentos nas áreas sociais, envolve convencer os eleitores de que esse é o melhor caminho. Hoje, o que vemos nas pesquisas, é a supremacia das teses estatizantes, por um lado, e o abandono progressivo das teses liberais que se materializa na incapacidade de dar um choque de gestão no Estado. Nessa toada, continuaremos correndo atrás do rabo.

  0 Comentários

  Publicações

  Para pensar