Otto Alencar: ‘Salvem o Velho Chico’

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ARTIGO

Otto Alencar é senador da República (PSD-BA) desde 2015, líder do partido no Senado e ex-presidente da Comissão de Meio Ambiente (2015-16)

 

O Velho Chico de águas corridas, antes navegáveis, completa 518 anos de descoberta nesta sexta-feira (4). É um senhor doente. Neste momento em que enfrentamos severos problemas com desmatamentos ilegais, queimadas descontroladas e no qual o Brasil está sob os holofotes da defesa ambiental, peço atenção a um dos mais importantes cursos de água do nosso país e da América do Sul. Do rio da integração nacional depende a sobrevivência de brasileiros e o desenvolvimento econômico de regiões.

A bacia hidrográfica do São Francisco, por ser uma das poucas fontes de água potável, mata a sede de boa parte do povo do Nordeste. As suas águas levam esperança, desenvolvimento econômico, social e empregos para áreas imensas, a exemplo da fruticultura irrigada entre as regiões de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE). O São Francisco é, ainda, grande fonte de energia. São seis usinas hidroelétricas construídas ao longo de seu percurso —Três Maria, Xingó, Moxotó, Paulo Afonso, Itaparica e Sobradinho.

Imponente, é um paciente grave. O excesso de terra e sedimentos diminuem o seu volume. Bancos de areia obstruem suas artérias e o tornam não mais navegável em vários trechos. O principal sintoma da morte de um rio é quando o mar invade as suas águas. Na foz, em Brejo Grande (SE), isto já ocorre. Lá, o São Francisco não tem mais força para entrar no oceano Atlântico. O rio agoniza pela falta de cuidado dos homens. O diagnóstico: revitalização urgente. O remédio: desobstruir suas artérias.

Projetos de revitalização existem. Em Bom Jesus da Lapa (BA), iniciei com a iniciativa privada e a prefeitura o Reviveiro Velho Chico. O projeto é importante, mas a grandiosidade do rio exige investimento federal. O Brasil não tem a responsabilidade necessária com os seus recursos hídricos, com suas florestas. Um país avantajado pelas riquezas naturais, que não cuida delas e desacredita na finitude.

É estratégico revitalizar o Velho Chico. O governo federal deveria decretar estado de emergência, iniciar a recuperação de imediato. Se não houver revitalização, em 2035 pode não chegar mais água na barragem de Sobradinho, e os investimentos na transposição serão jogados no lixo.

Recuperar áreas degradadas, orientar a população sobre o uso sustentável, combater a pesca predatória e proteger a biodiversidade. A prioridade tem que ser a proteção das nascentes, das matas nas margens do rio e das veredas, como forma de elevar o volume de água e controlar a erosão.

Também é fundamental reforçar a fiscalização do uso dos recursos hídricos, coibir captações irregulares e impedir a expansão urbana em áreas de preservação, além de articulação de ações de municípios, estados e governo federal com os usuários das águas.

O São Francisco grita por socorro. Resta saber até quando o rio dos currais, o oásis do sertão, das carrancas, dos surubins, protagonista de vidas, histórias e lendas, aguenta o descaso. O relógio da história é implacável com os incautos. Ouçamos a voz daqueles que sofrerão com a inação. Salvemos o Velho Chico!

Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 4 de outubro de 2019

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