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{ ARTIGO }

Partidos rejeitados em 2018 vencem em 2020

É como se a sociedade estivesse de “ressaca” dos conflitos de 2018, com o ambiente menos nervoso e menos polarizado nas redes sociais, escreve o cientista político Rubens Figueiredo

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

As eleições municipais de 2020 tiveram um caráter absolutamente atípico. Os motivos são vários. Foram realizadas em data diferente da habitual, o tempo de campanha foi menor, aconteceram pouquíssimos encontros e reuniões, a movimentação nas ruas foi quase inexistente. O eleitorado estava assustado, fragilizado e inseguro. Foi uma campanha triste, quase não houve carreatas, caminhadas, comícios e as poucas bandeiras pareciam não tremular com o vento.

Sempre que terminam as eleições, começa um movimento de análise dos resultados. Na época pré-redes sociais, essas análises frequentavam os meios de comunicação tradicionais (jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão) e eram conduzidas por especialistas da área. Fazia algum sentido. Hoje, todos que têm uma conta no Twitter e/ou Facebook – o que significa dizer, quase todo mundo que consegue articular uma frase – se arvora na condição de analista/especialista, o que ajuda a atrapalhar o entendimento efetivo do que está de fato acontecendo. É o fenômeno moderno do que chamo de “analismo” – qualquer um expressa uma interpretação sobre tudo, sempre de forma superficial e muitas vezes equivocada.

Por isso é prudente estabelecer critérios. Pelo lado da demanda, o eleitorado não estava nas suas condições normais de temperatura e pressão. Em casa desde março, não sabendo o que poderia acontecer com seus empregos, muitos com filhos na escola e tendo que se acostumar com aulas digitais, vendo seu poder aquisitivo despencar e tudo mais, o brasileiro deu um recado claro: avesso a novidades que insinuassem um pequeno rasgo de aventura, apostou no conhecido. Não por acaso, o número de prefeitos reeleitos aumentou de 49% em 2016 para 64% neste ano. Um incremento e tanto.

Em 2020 tivemos também o ocaso dos assim chamados grandes puxadores de votos, lideranças incontestes, aquelas personalidades capazes de aumentar o cacife eleitoral daqueles que fazem por merecer seus apoios. O presidente Bolsonaro, com seus índices de aprovação (aqueles que consideram seu governo “ótimo” ou “bom”) na faixa dos 40% lá para setembro, muito em função da distribuição do auxílio emergencial, dinheiro na veia da população mais pobre, foi incapaz de transferir seu prestígio aos seus apaniguados nos grandes centros urbanos. O mesmo aconteceu com Lula e João Dória. Pesquisa realizada pelo Datafolha em São Paulo em 5 e 6 de outubro apontava que 63% dos paulistanos não votariam num candidato apoiado por Bolsonado, 60% por Dória e 54% por Lula.

Do ponto de vista da oferta de candidaturas, o quadro contemplou pouquíssimas novidades. Em São Paulo, embora a votação de Boulos tenha surpreendido, os candidatos mais competitivos foram figurinhas carimbadas em eleições: o prefeito Bruno Covas, o deputado Celso Russomano, o ex-governador Márcio França. As novidades, Artur do Val e Joice Hasselman, tiveram votações bastante modestas. No Rio, foram para o segundo turno o ex e o atual prefeito – e até Benedita da Silva foi candidata. Em Recife, se digladiaram os representantes de dois clãs que dominam o Estado há décadas: Arraes e Campos. Em Belo Horizonte, o prefeito Kalil se reelegeu no primeiro turno, o mesmo acontecendo em Curitiba, com Rafael Greca. Em Salvador, o prefeito ACM Neto indicou, Bruno Reis disparou.

Nesse contexto de eleitorado conservador e avesso ao risco escolhendo entre uma grande maioria de candidatos conhecidos, o resultado não poderia ser outro: uma vitória acachapante das forças políticas tradicionais representadas pelos partidos de centro e centro-direita. Juntos, o MDB (784), PP (685), PSD (655), PSDB (520) e o DEM (459) fizeram 3.103 prefeitos em 2020, algo em torno de 56% do total das cidades brasileiras. É bom lembrar que o candidato que representava o centro – a fortíssima coligação de Geraldo Alckmin em 2018 congregava PSDB, DEM, PP, PR, PRB, SD, PTB, PSD e PPS – nas eleições presidenciais de 2018 teve uma votação pífia, de 4,76%. Por outro lado, o PT, que teve 43% dos votos válidos no segundo turno da eleição presidencial, conquistou apenas 183 Prefeituras, nenhuma capital, contra 257 em 2016. Outro representante da esquerda, o PSB, teve 409 prefeitos eleitos em 2016 e 250 neste ano.

Valem mais alguns comentários sobre esse bloco de cinco partidos que fez o maior número de prefeitos. Embora tenha conseguido a liderança, o MDB desidratou em relação a 2016, quando ganhou em 1046 cidades contra 784 agora. O PSDB também decresceu, de 804 para 520. Já o PP cresceu de 498 para 685, o PSD de 539 para 655 e o DEM de 271 para 464. Se considerarmos apenas 95 grandes cidades com segundo turno, que têm mais de 200 mil eleitores, o PSD passará a governar 6 cidades a mais do que governa agora, o PP e o DEM mais 5 e o Podemos, outro partido que cresceu bastante, mais 4. Portanto, PP, PSD e DEM e, em outro patamar, o Podemos, foram os maiores vencedores em 2020.

Aquela onda antipolítica que aflorou no Brasil em 2018 e permitiu a eleição de alguém de fora do establishment inexistiu em 2020. Houve uma espécie de recuo nos ânimos exaltados, é como se a sociedade estivesse de “ressaca” dos conflitos de 2018, com o ambiente menos nervoso e menos polarizado nas redes sociais. É temerário especular sobre de que maneira os resultados dessa eleição influenciarão no pleito presidencial de 2022. Mas uma coisa parece certa: seja quem for o próximo presidente, os partidos de centro e centro-direita estarão mais fortes na próxima composição na Câmara dos Deputados, pois as agremiações com muitos prefeitos de cidades médias e grandes costumam levar vantagem nas eleições proporcionais. Isso não é pouco, pois é contabilizando o número de parlamentares que se estabelece o tempo de rádio e TV e o fundo partidário.


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