Profissão de fé em defesa da legalidade democrática

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INTERPRETAÇÕES DO BRASIL

Antonio Paim

Considerado o mais importante representante do marxismo ortodoxo (a versão oficial do leninismo) no Brasil, Nelson Werneck Sodré escreveu sobre os diversos segmentos da cultura nacional. No caso de nossa formação, entende-a como referindo-se às classes sociais e como se defrontam, a luta de classes em última instância. Em consequência, o capítulo final ocupa-se precisamente da Revolução Brasileira.

Apresenta deste modo o ponto de partida: “Há uma contradição fundamental entre a Nação e o imperialismo; em outras palavras, entre o povo brasileiro e o imperialismo. Povo brasileiro, nesta fase histórica, compreende o proletariado, o campesinato, a pequena burguesia e a parte alta e média da burguesia conhecida como burguesia nacional. O imperialismo tem os seus aliados nos latifundiários e em parte da alta e média burguesias e recruta os seus agentes nessas classes e na pequena burguesia, que lhe fornece quadros intelectuais e militares, principalmente. Há contradições no seio do povo, destacando-se pelo seu caráter antagônico, aquela entre a burguesia e o proletariado. O tratamento dessas contradições reflete-se no desenvolvimento da Revolução Brasileira.”

Na visão marxista, sucedem-se cinco modos de produção: o comunismo primitivo, o escravagista, o feudal, o capitalista e o socialista. Na introdução, deixa logo clara essa questão e escreve: “o estudo do processo histórico da sociedade brasileira, objeto deste livro, mostra não só a vigência aqui, da descoberta aos nossos dias, de cada uma daquelas formas, de cada um daqueles regimes de produção, salvo o último, sucessivamente, como sua coexistência ao longo do tempo e ainda hoje.”

O ponto de vista do PCB – e, portanto, “oficial” nesse segmento da opinião – era o de que a revolução brasileira correspondia à revolução burguesa, processo no qual disputaria com a burguesia nacional a hegemonia. Pode-se inferir do seu texto que se acomoda ao mencionado ponto de vista oficial.

Nesse mister, é importante destacar que, na oportunidade da caracterização do processo da Independência teria oportunidade de fazer a seguinte afirmativa: “A existência de condições para que se realizem transformações econômicas, políticas e sociais não significa que elas efetivamente se realizem. É necessário que, concretamente, as forças se componham, que se mobilizem, que se organizem e que lutem para realizar as transformações que estão maduras”. Tal posicionamento desempenha papel relevante, sob os governos militares, desde que seria a base para a condenação daqueles que se lançaram à luta armada, manifestação típica de “esquerdismo, doença infantil do comunismo”, de que falava Lenin.

Escrito em 1962, em meio à movimentação que levaria à derrubada de João Goulart, o livro contém uma profissão de fé em defesa da legalidade democrática.

Referências bibliográficas

BASTOS, Abguar. História da Política Revolucionária no Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Conquista, 1969. 2 vols.

BASTOS, Abguar. Prestes e a Revolução Social. São Paulo: Hucitec, 1986.

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