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{ ARTIGO }

Quadrinhos em alta

O quadrinho dialoga com outras artes e tem uma grande vantagem na comparação com a literatura tradicional, escreve Luiz Alberto Machado

 

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Começo chamando a atenção para dois fatos – ou mitos?

1. O brasileiro lê pouco.

2. História em quadrinho é leitura infantil.

Quanto ao primeiro, há suficientes razões para questionar a afirmação, entre elas a de que o Brasil é um dos países que promovem – ou promoviam antes da pandemia – o maior número de festivais literários em todo o mundo. Além disso, surgiram várias iniciativas nos últimos anos como clubes e círculos de leitura com o objetivo de estimulá-la, algumas das quais com excelentes resultados como o do Instituto Fernand Braudel.

Quanto ao segundo, considero o quadrinho uma forma de arte e, nesse sentido, possui uma ampla gama de possibilidades que vão desde charges, tiras e gibis convencionais até narrativas bem mais extensas produzidas em livros. Estas últimas, aliás, vêm ganhando espaço considerável na preferência dos leitores e, por conseguinte, nas prateleiras das livrarias ou no e-commerce.

Depois de longo tempo criticado e rotulado por intelectuais e até por governos, persiste na cabeça de muita gente que o quadrinho é um tipo de literatura menor, feito para crianças ou para fãs de super-heróis.

Ledo engano. O quadrinho dialoga com outras artes como cinema, animação, fotografia e tem uma grande vantagem na comparação com a literatura tradicional, representada pela combinação da palavra com a imagem, cuja força é bem ilustrada na afirmação confuciana “uma imagem vale mais que mil palavras”.

A quantidade de lançamentos não para de crescer. Vou me ater a comentar apenas três dos livros em quadrinhos que tive oportunidade de ler e que aumentaram minha admiração por esse tipo de literatura.

Inicio por Maus: a história de um sobrevivente¹, de Art Spiegelman, um dos quadristas mais consagrados da história. Premiado com o Prêmio Pulitzer, versa sobre a incrível trajetória de sobrevivência e reconstrução da vida de um judeu levado pelos nazistas ao campo de Auschwitz. O homem, após resistir às atrocidades de Hitler e seus asseclas, é o pai de Art, que se mostra ao leitor como um personagem de enorme complexidade. A exemplo do que fez George Orwell em A revolução dos bichos (também disponível em quadrinhos), a mensagem de Spiegelman é que ninguém deve se deixar enganar pelos humanos, sejam eles representados por gatos, ratos, cachorros, porcos, cavalos ou qualquer outro animal. Indubitavelmente, Maus se constitui numa obra madura, que permite uma profunda reflexão sobre um dos episódios mais tenebrosos do século 20.

O segundo livro que quero comentar é Sapiens: uma história em quadrinhos: v. 1: o nascimento da humanidade². Escrito por Yuval Noah Harari e David Vandermeulen, adaptado por Daniel Casanave e com cores de Claire Champion, o livro consiste numa divertida viagem ao lado selvagem da história, imaginada como um reality show, em que personagens como Bill Pré-Histórico, dra. Ficção e a detetive Lopez tem o historiador e filósofo Yuval Noah Harari como guia, assessorado pela sabedoria da professora Saraswati e do professor Dunbar. O formato HQ oferece uma nova perspectiva intelectual e artística ao passado e às nossas origens, com especial destaque para a extinção dos mamutes e dos tigres-dentes-de-sabre, assim como para a evolução humana, representada pelo homo erectus, homo neanderthalensis, homo luzonensis, homo denisovensis, homo sapiens e homo floresiensis. É a história recontada como um filme policial.

Meu terceiro comentário vai para Palestina³, livro-reportagem em HQ de autoria de Joe Sacco sobre andanças pelo país que vem sendo massacrado há décadas, num dos conflitos mais traumáticos da história contemporânea. O autor consegue transmitir episódios fundamentais para compreender o que vem se passando na região, entre os quais realço os assentamentos e as intifadas. Os preparativos e a viagem que resultaram no livro Palestina se deram entre 1991 e 1992, já nos últimos anos da Primeira Intifada, uma série de levantes da população palestina contra a ocupação de Israel, ocorridos entre 1987 e 1993, que só terminaram após a assinatura dos Acordos de Oslo, ficando marcados por diversas cenas de brutalidade do exército israelense e pela população civil atacando os militares com paus e pedras4.

Tendo tido a oportunidade de viajar à Palestina, Jordânia e Israel em 2010, participando de uma missão estudantil que percorreu parte do Caminho de Abraão5, faço questão de ressaltar a força dos desenhos contidos no livro, capazes de captar flashes e detalhes que jamais sairão da memória dos que lá estiveram.

Encerro meu comentário sobre Palestina, reproduzindo as palavras do autor em suas reflexões que nas páginas prefaciais do livro datadas de julho de 2007:

O conflito entre israelenses e palestinos persistirá enquanto persistir a ocupação, sob qualquer forma ou denominação. Este livro – embora seu conteúdo pareça brando quando comparado à violência e situação atuais – trata da essência dessa ocupação. Não é uma obra objetiva, se por objetividade tomarmos a ideia ocidental de deixar cada lado contar sua versão, sem se importar que a verdade seja revelada. Minha intenção na obra não é ser objetivo, mas honesto.

Como se pode ver por meus comentários, tratam-se de livros em formato HQ que focalizam temas da maior importância, estando, portanto, muito distantes da visão de muitos adultos que insistem em continuar considerando as histórias em quadrinhos algo infantil, frívolo ou passageiro, pressupondo que, com a idade, serão abandonadas e substituídas por leituras mais relevantes.

Por tudo isso, além de recomendar a leitura dos três livros aqui comentados, concluo antecipando que estou ansioso para ler, ainda este ano, outros dois livros no formato HQ que estão aguardando na minha prateleira: Persépolis, de Marjane Satrapi6, que narra a vida de mulheres sufocadas pelo regime iraniano, e Sendero Luminoso: História de uma guerra suja, de Luis Rossel, Alfredo Villar e Jesús Cossío6, sobre a guerrilha e os crimes do Estado peruano.

 

 

1. São Paulo: Companhia das Letras , 2009.

2. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2020.

3. A Segunda Intifada, por sua vez, ocorreu entre 2000 e 2005.

4. Projeto de William Ury, professor da Harvard University e um dos mais bem-sucedidos negociadores da atualidade, que, inspirado na exitosa experiência do Caminho de Compostela, idealizou uma caminhada pelo trajeto trilhado por Abraão, por meio da qual pessoas do mundo todo possam dar sua contribuição à busca da paz nesta região há tanto tempo marcada por conflitos e conflagrações.

5. São Paulo: Quadrinhos da Cia., 2007.

6. São Paulo: Veneta, 2021.


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