Roberto Macedo: ‘Economia mundial passou a crescer menos’

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Artigo

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

No segundo semestre do ano passado, surgiram na imprensa internacional notícias sobre esse menor crescimento, com alguma repercussão no Brasil. Uma publicação trimestral do Fundo Monetário Internacional, o World Economic Outlook (WEO), ou Perspectivas da Economia Mundial, divulgada no primeiro mês de cada trimestre, confirmou essa percepção na edição de janeiro de 2019.

A tabela que se segue resume dados dessa publicação do FMI e cobre estimativas de variações porcentuais do PIB da Economia Mundial em 2017 e 2018, previsões das mesmas variações nos mesmos anos em 2019 e 2020, e as diferenças dessas previsões entre o WEO de janeiro de 2019 e o de outubro do ano passado.

Na tabela, tais estimativas, previsões e suas diferenças são apresentadas por grupos de países (Economias Avançadas, Zona do Euro e Economias em Desenvolvimento). Dentro desses grupos, selecionamos alguns países entre os mais importantes. No caso das Economias em Desenvolvimento, os quatro países selecionados são os que formam o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL
PERSPECTIVAS DA ECONOMIA MUNDIAL
VARIAÇÕES DO PIB EM % MUNDIAL, POR GRUPOS DE PAÍSES E ALGUNS PAÍSES – JANEIRO DE 2019

(e) = estimativas (p) = previsões
Fonte: https://www.imf.org/en/Publications/WEO/Issues/2019/01/11/weo-update-january-2019?cid=em-COM-123-38267

A tabela mostra, na sua primeira linha de números, que a estimativa do crescimento do PIB da economia mundial foi maior em 2017 e em 2018 do que as previsões para o biênio 2019-2020. Essa queda é clara, mas não é forte.

Nas duas últimas colunas, que mostram as diferenças das previsões entre o WEO de janeiro de 2019 e o de outubro do ano passado, percebe-se que essas diferenças são predominantemente negativas. Ou seja, em geral as previsões caíram.

Quanto às economias em desenvolvimento, embora com variação também pequena, a média das previsões para o biênio 2019-2020 é levemente superior à das estimativas do período 2017-2018, indicando uma expectativa de que elas não seguirão neste e no próximo ano a mesma direção das economias avançadas. Mas note-se que a previsão para 2019 também foi revista para baixo nas economias em desenvolvimento. Vale lembrar que, em geral, as economias em desenvolvimento crescem mais do que as avançadas, o que é confirmado pela comparação das taxas que a tabela mostra nos dois casos.

Quanto ao Brasil, as previsões para o biênio 2019-2020 são claramente superiores às estimativas do biênio anterior, revelando uma economia em recuperação.

Passando às razões do menor crescimento global, o último relatório do FMI primeiramente aponta que suas previsões já haviam sido alteradas para baixo no WEO anterior, de outubro de 2018, em parte por conta dos efeitos negativos dos aumentos de tarifas externas realizados pelos EUA e pela China anteriormente no mesmo ano, que prejudicaram o comércio entre os dois países. E que a revisão adicional das previsões para 2019-2020 para baixo, em janeiro desde ano, refletiram a continuidade de um momento mais frágil desde o segundo semestre de 2018, citando particularmente a Alemanha, que introduziu restrições mais fortes para a emissão de poluentes pelos automóveis, e a Itália, onde preocupações sobre riscos financeiros e soberanos afetaram negativamente o lado da demanda agregada da economia. Também faz referência a uma contração na Turquia, que agora se revela mais profunda do que na época da previsão anterior.

Olhando à frente os riscos ao crescimento global, o novo WEO assinala que tendem para um efeito negativo. Textualmente (tradução): “Um agravamento das tensões comerciais além daquelas incorporadas nas previsões permanece como fonte importante de risco para as perspectivas atuais. Condições financeiras se agravaram desde outubro. Um conjunto de gatilhos adicionais poderia acionar nova deterioração da percepção de risco, especialmente em face dos altos níveis do endividamento público e privado. Esses gatilhos incluem um Brexit sem acordo com a União Europeia e maior retração do crescimento da China.”

O FMI recomenda: “A mais importante ação compartilhada pelos países deve ser a prioridade de que resolvam cooperativa e rapidamente seus desacordos comerciais e a incerteza que deles decorre para o futuro das políticas governamentais, em lugar de aumentar ainda mais as barreiras comerciais danosas, desestabilizando uma economia global já em desaquecimento. Em todas as economias, o imperativo é a adoção de medidas para aumentar o potencial de crescimento, reforçar a inclusão social e os amortecedores fiscais e financeiros num ambiente de elevadas dívidas e condições financeiras mais apertadas.”

Para o Brasil, uma lição é clara: não podemos contar com um maior impulso da economia mundial para acelerar o nosso crescimento. A busca de soluções deve se voltar para as “made in Brazil”, ainda que o aumento da competitividade dos produtos e serviços que levam essa marca possa contribuir a médio e longo prazos para ampliar os ganhos que o comércio internacional pode trazer ao País.

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