Roberto Macedo: ‘Melhoraram ainda mais as expectativas para 2017’

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ECONOMIA

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Em janeiro abordei aqui essas expectativas, concluindo então “ser alta a probabilidade de que pelo menos o fim da recessão esteja à frente”. Escrevendo agora, final de março, concluí que novos números dessas expectativas, e fatos que as sustentam, reforçam essa probabilidade.

A tabela que integra este artigo compara expectativas no final de 2016 e em meados deste mês quanto a importantes variáveis macroeconômicas e uma de natureza setorial, a produção industrial. A fonte é o Relatório Focus do Banco Central (BC), que toda sexta-feira faz um levantamento sobre o assunto junto a operadores, analistas e consultores do mercado financeiro.

 

 

Como se percebe, ao longo do trimestre em curso houve sensíveis melhorias das expectativas quanto à inflação medida pelo IPCA, o que vale também para a variação dos preços administrados, que têm influência importante no mesmo índice, para a meta da Selic, ou taxa básica de juros, e para a produção industrial. A expectativa quanto ao PIB caiu, mas muito pouco, ficando bem próxima da anterior. O câmbio caiu, mas sua própria queda costuma ser associada a melhores percepções quanto à situação da economia.

No artigo anterior mencionei fatores que davam sustentação à melhoria então constatada. Foram citados o arrefecimento das tensões políticas na fase pós-impeachment da presidente Dilma, trazendo menor dose de incerteza a contaminar os agentes econômicos e suas decisões; a perspectiva de uma situação fiscal aliviada, ou pelo menos não tendente a um contínuo agravamento, após a aprovação de um teto para o crescimento das despesas primárias do governo federal a partir deste ano; a continuidade do atual ciclo de reduções da Selic, desde que o sistema financeiro promova a redução também significativa das taxas de juros de seus empréstimos e financiamento, de modo a estimular decisões de investimento e de consumo; o desempenho muito bom do agronegócio, pois o crescimento anual então previsto da safra de grãos era de 15,5%(!); e uma melhoria da confiança de consumidores e de empresários da indústria, da construção civil, do comércio e dos serviços.

Desde então vieram várias notícias que levaram a uma melhoria adicional das expectativas. Foram elas: o governo liberou contas inativas do FGTS e um total estimado em R$ 35 bilhões irrigará a economia; Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho, mostrou em fevereiro mais 35.612 empregos, após 22 meses de queda; voltando à tabela acima, em termos relativos o aumento foi a da expectativa quanto à taxa anual do crescimento da produção industrial em 2017, que passou de 0,88% a 1,22%, expectativa essa estimulada particularmente por notícias quanto ao crescimento da produção mineral, de petróleo e de produtos químicos; segundo a Cia. Nacional de Abastecimento, em estimativa mais recente, o crescimento da produção de grãos passou dos já elevados 15% citados em janeiro para 20%(!!) – e provavelmente em razão disso o economista José Roberto Mendonça de Barros, especialista em agronegócios e macroeconomia, passou a uma expectativa de 1% para a taxa do PIB em 2017, mas em contraponto o Departamento Econômico do Bradesco está mais cauteloso e opera com 0,3%, com a média desses dois números ficando próxima do valor que aparece na citada tabela; houve sucesso na licitação de quatro aeroportos pelo governo federal e na de um lote de rodovias pelo governo paulista, revelando disposição de empresários estrangeiros e brasileiros em investir no país; a agência americana Moody’s, de avaliação internacional de riscos de crédito, manteve o grau Ba2 do Brasil, mas alterou a nota de sua dívida soberana de negativa para estável; no plano externo, também vieram notícias boas, sintetizadas pela capa da última edição da The Economist, cuja manchete é “Para cima – o surpreendente avanço da economia mundial”; essa capa é ilustrada com sete balões representando países e subindo, nesta ordem de cima para baixo: EUA, China, União Europeia, Reino Unido, Japão, Índia e Brasil; ou seja, este devagar, mas subindo.

Portanto, melhoraram no período analisado as expectativas, sustentadas por fatos relevantes, quanto ao desempenho da economia brasileira. Entretanto, o cenário político revela preocupações ampliadas com eventuais impactos negativos da divulgação da “lista de Janot” sobre a governabilidade. Houve também aquecimento das notícias quanto à eventualidade de impugnação, pelo Tribunal Superior Eleitoral, da chapa Dilma-Temer como um todo, e outras de uma oposição crescente quanto à aprovação da reforma da Previdência Social.

O efeito de problemas na área política se daria principalmente via deterioração dos índices de confiança como os citados, com impacto negativo nas decisões de consumo e investimento de consumidores e empresários. Mas são questões com desenlace imprevisível, espelhado inclusive pela ausência de avaliação de cenários políticos na linha do que é feito pelo Relatório Focus do BC na esfera econômico-financeira. Em tese, poderiam ser realizados, por exemplo, levantamentos junto a políticos, cientistas políticos e juristas quanto à probabilidade de acontecer esse ou aquele evento. Provavelmente, todavia, pesquisas desse tipo apresentariam resultados com enorme variância, prejudicando assim a sua relevância.

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