Roberto Macedo: ‘O PIB do segundo trimestre de 2019’

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ARTIGO

 

 

Roberto Macedo, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

Escrevi este artigo logo em seguida à divulgação, pelo IBGE, do seu relatório sobre o Produto Interno Bruto (PIB) da economia brasileira no segundo trimestre de 2019. O resultado mais importante foi que o PIB cresceu 0,4% relativamente ao trimestre anterior quando, medida da mesma forma, essa variação foi negativa: -0,1%. Se outra taxa negativa houvesse ocorrido no segundo trimestre, viria o diagnóstico de que o Brasil teria ingressado numa fase de “recessão técnica”.

Trata-se de convenção adotada entre economistas, a qual estabelece que, se seu PIB cai por dois trimestres consecutivos, um país é considerado nesse tipo de recessão, e sai dela quando o PIB passa a uma taxa de variação positiva também por dois trimestres consecutivos.

A última vez que uma saída desse tipo aconteceu no Brasil foi no primeiro trimestre de 2017, quando ela veio após oito variações negativas e consecutivas do PIB trimestral, em 2015 e 2016. E continuou positiva até o primeiro trimestre deste ano, quando mostrou a referida taxa de -0,1. A nova taxa, de 0,4%, mais que compensou essa taxa negativa e, vale ressaltar, conforme a referida convenção, evitou que o Brasil fosse considerado na tal “recessão técnica”.

Tenho sérias ressalvas quando a esse conceito, que considero simplista e incompleto, para caracterizar os movimentos cíclicos da economia de um país. O que de fato ocorre é que o Brasil não está numa “recessão técnica”, mas permanece numa situação muito pior, que poderia ser chamada de grande recessão, termo usado para caracterizar a recessão que ocorreu nos Estados Unidos em 2008-2009, quando seu PIB teve as taxas de -0,1% e -2,5%, respectivamente, recuperando-se logo no ano seguinte.

Mas também acho esse outro termo inadequado para o Brasil, pois aqui entramos numa recessão muitíssimo mais forte em 2015, com seu PIB variando à taxa de -3,5% nesse ano e -3,4% em 2016, caindo assim num buraco do qual ainda não saímos, pois a retomada das taxas de crescimento positivo do PIB foi de apenas de 1,1% em 2017 e 2018. Em 2019 a economia caminha para taxa similar ou até menor.

Por isso, no caso brasileiro o diagnóstico que me parece adequado é de uma depressão, algo bem mais forte que uma recessão, “técnica” ou não. A gravidade dela pode ser visualizada por meio do gráfico que se segue, obtido do relatório com que o IBGE divulgou o PIB do segundo trimestre de 2019.

 

 

Este gráfico mostra a taxa de variação do PIB em 12 meses e, assim, no último trimestre de cada ano, ela é a taxa de variação anual desse indicador do desempenho da economia. O que se percebe é que o conjunto de pequenas taxas acima de zero no final do gráfico é claramente insuficiente para permitir a recuperação das altas taxas negativas dos anos 2015 e 2016, conforme também já apontei acima, com os números das taxas anuais.

Outro gráfico interessante é o mostrado abaixo, que apresenta não as taxas, mas a variação do número índice associado ao valor do PIB, sendo que a linha vermelha mostra esse índice ajustado pela variação sazonal, muito evidente na linha azul. Aí fica mais clara a queda que vejo como uma depressão pela sua gravidade e pela sua extensão. Em particular, percebe-se que o PIB voltou a valores que tinha em 2011, evidenciando assim que este ano o País completará mais uma década perdida, e desta vez de forma contundente.

 

 

Voltando à tal “recessão técnica”, o uso equivocado do conceito ficou patente na manchete de primeira página do jornal Valor do dia seguinte ao do anúncio do PIB do segundo trimestre do IBGE: “PIB surpreende e afasta temor de nova recessão”. Faltou o adjetivo “técnica” ao termo recessão, e na mesma página o texto que veio em seguida também diz que “o Brasil não está em recessão”, novamente sem esse adjetivo, e sem ressaltar que a economia permanece numa situação pior que recessão. Só numa página interna, que apresenta a íntegra da reportagem, é que a recessão é chamada de “técnica”.

De qualquer forma, os dois gráficos e os referidos números mostram que mesmo com o tropeço da taxa negativa no primeiro trimestre deste ano a economia vem se recuperando, mas muito lentamente, e conforme o primeiro gráfico perdeu velocidade nos três trimestres anteriores ao segundo de 2019, no qual essa velocidade aumentou, e 0,4% num semestre significaria uma taxa anualizada de 1,61%, bem superior às taxas de 1,1% nos últimos dois anos. Mas essa taxa anual, se alcançada, só seria atingida de 2020 em diante, pois a deste ano já ficou comprometida com o mau desempenho do primeiro trimestre, devendo a taxa anual ficar um pouco acima de 1% se esse novo ritmo for mantido.

É ver para crer.

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