Roubos de veículos diminuem. Por que o seguro não cai ?

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ARTIGO

 

 

 

Túlio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

Embora o seguro do seu carro provavelmente não tenha diminuído de valor, os furtos e roubos de veículo estão em nítida queda no país desde 2017, quando no mês de março daquele ano atingimos os 50 mil casos, fruto provável da forte crise econômica do período 2014-2016.

De lá para cá, vemos uma queda linear (r = .67) – que foi ampliada durante a epidemia de covid-19 – mas que é anterior e que não se explica apenas por ela. Com 25.829 casos em março de 2021, segundo o Sinesp, temos agora o equivalente à metade dos casos de 2017. Tivemos números mais baixos que estes no início da epidemia e uma retomada nos meses posteriores quando as atividades foram progressivamente retornando, mas note-se que mesmo com a retomada, os números estão abaixo do esperado pela linha de regressão (pontilhada) e bem abaixo da média (em vermelho) do período.

 

 

Cenários nacionais sempre escondem diferenças regionais e os contextos variaram de acordo com a região do país. A tabela abaixo traz a variação percentual dos casos com relação ao ano de 2015, tomando apenas os meses de janeiro e fevereiro de cada ano, uma vez que os dados disponibilizados na base do Sinesp vão apenas até fevereiro de 21.

Assim, como é possível verificar, as quedas ocorreram basicamente nas Regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Mas mesmo nas Regiões Norte e Nordeste é possível verificar alguma desaceleração na velocidade de crescimento nos períodos mais recentes. Note-se finalmente que o fenômeno é similar tanto para roubos quanto para furtos de veículos, desagregados na tabela.

 

 

Estamos diante de uma queda sustentada e duradoura, como se tem observado nos países desenvolvidos, ou presenciando um fenômeno temporário? Os dados do início de 2021 ainda estão contaminados pela segunda onda da epidemia, quando o isolamento social voltou a crescer e precisaríamos aguardar alguns meses de normalidade para interpretar corretamente estas tendências. Pela queda no emprego e crescimento da evasão escolar, entre outros fatores, deveríamos esperar um crescimento nas subtrações de veículos em 2021 e não queda.

Sobre o aspecto regional, além da situação econômica anterior, é possível que a epidemia tenha atingido mais fortemente a economia do Norte e Nordeste e que este impacto regional desigual explique em parte as diferenças nas tendências entre as Regiões de 2020 para cá.

Com relação ao declínio geral pós 2017, existem algumas conjecturas plausíveis, entre elas: 1) retorno à média, após o ápice provocado pela crise de 14-16; 2) surgimento de outras oportunidades criminais mais lucrativas e menos arriscadas, como fraudes eletrônicas ou de celulares; 3) eficiência policial no combate a desmanches, uso de leitores óticos de placas, combate a revenda de peças usadas e quadrilhas; 4) melhora na segurança de fábrica dos veículos, tornando mais difícil o cometimento destas modalidades criminais; 5) diminuição na demanda por peças usadas em razão da diminuição no uso de veículos, etc.

Sobre esta última hipótese, sabe-se que boa parte dos furtos e roubos de veículos mais antigos no Brasil destina-se ao mercado de peças usadas e como mostrei em artigo no passado, há uma correlação entre a busca de autopeças no Google e a quantidade de crimes relacionados a veículos. A pesquisa abaixo dá uma ideia do comportamento da demanda e mostra como a procura por autopeças no Google diminuiu no Brasil de março a maio de 2020 e novamente durante a segunda onda, entre janeiro e abril de 2021.

 

 

Como sempre, é preciso de mais pesquisas e tempo para colocar à prova estas conjecturas. Mas o fato é que se trata de uma queda bastante notável num período curto de tempo e pouco divulgada. Bom momento para tentar negociar com as seguradoras o valor das apólices!

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