Rubens Figueiredo: ‘A preguiça mental’

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Opinião

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O pacote foi grande e diversificado. Inflação e juros em alta, dólar subindo, déficit fiscal ascendente, atividade produtiva desarticulada em função das desonerações seletivas, Petrobrás desacreditada, contabilidade criativa, estagnação decisória no Congresso, obras paralisadas, descrédito internacional, péssimo clima de negócios, empréstimos estranhos do BNDES aos países governados por populistas, agentes econômicos sem perspectivas, explosão de desemprego.

Os resultados estão aí: a maior recessão da história, com uma queda de 9,1% de renda per capita dos brasileiros, segundo o IBGE. Nos últimos 11 trimestres, o PIB registrou queda em nove. A Formação Bruta de Capital Fixo, que mede o investimento em máquinas, equipamentos e construções, ficou em 16,4% do PIB, ante 20,9% em 2013. São 12,3 milhões de desempregados. O consumo das famílias, considerado um dos principais motores da economia, recuou 4,2%. Os brasileiros estão vivendo com menos e, portanto, a qualidade de vida caiu.

As esquerdas têm o discurso pronto: a queda da atividade econômica seria consequência da ortodoxia da política econômica, que insiste em promover o ajuste fiscal. A saída seria o Estado capitanear uma vibrante recuperação econômica através de sua ação redentora, providencial e onisciente. Segundo o economista Alexandre Schwartsman, culpar o ajuste fiscal é desonestidade estatística. Não houve retração no consumo do setor público: R$ 361 bilhões agora contra R$ 365 bilhões no início de 2014.

A fotografia é desoladora, mas o filme não é tão catastrófico assim. A inflação recuou bastante e deve ficar no centro da meta em 2017. Com a inflação controlada, os juros começam a cair, embora as reduções na taxa Selic não se transmitam para os juros cobrados pelos bancos aos tomadores finais de empréstimo. Retoma-se a confiança e, aos poucos, a economia dá seus primeiros sinais de recuperação. As estatais, depois da avalanche petista, vão aos poucos se ajustando. A liberação do FGTS das contas inativas dará um novo alento aos consumidores e deve movimentar de forma mais dinâmica a economia.

Podemos dizer que a situação é a seguinte: o grupo político que governou o País nos últimos 13 anos é o responsável por jogar a economia brasileira na maior recessão de sua história, enquanto o governo liderado pelo presidente Michel Temer está conseguindo trazer boas notícias na área econômica, em meio a um pouco amistoso mar de dificuldades políticas. Como pano de fundo, a Operação Lava Jato.

Qual a percepção da sociedade tem desse processo? A julgar pelas pesquisas de opinião, os brasileiros não têm a mínima noção do que está acontecendo. Avaliam muito mal o governo Temer, que recupera a economia e insiste na tecla das reformas. São majoritariamente contra a reforma da Previdência. E, se a eleição fosse agora, elegeriam Lula, o grande responsável por chegarmos a essa situação, como presidente da República.

O Brasil passará, nos próximos meses, por um monumental desafio. O mau humor dos brasileiros é perceptível. A missão do governo é consolidar as reformas através de um Congresso que inspira desconfiança da sociedade. Na questão da Previdência, pedir-se-á sacrifícios a quem sacrificado está. Tudo isso sob o “manto tépido” das delações da Lava Jato.

Análises apressadas, temperadas por boa dose de preguiça mental, repetem que nada está certo, nada presta e que, em política, tudo é igual. A indignação passou a ser mais importante que a interpretação. Neste contexto do “é tudo a mesma coisa” e “o Brasil está ladeira abaixo”, serão favorecidos aqueles que falam o que a população quer ouvir. Por sinal, exatamente o contrário do que o Brasil precisa.

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