Pesquisar

tempo de leitura: 4 min salvar no browser

{ ARTIGO }

Rubens Figueiredo: ‘A verdadeira opinião pública’

A opinião pública está muito longe de ser “um amontoado de retratos mentais que uma sociedade resolve aceitar como fidedignos”, escreve o cientista político Rubens Figueiredo

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

O talentoso jornalista e professor Eugênio Bucci escreveu um artigo intitulado “O centro excêntrico da Opinião Pública”, publicado na página 2 de O Estado de S. Paulo (31/1/2019). Basicamente, Bucci argumenta, seguindo as ideias de Walter Lippmann, que a Opinião Pública se resume a estereótipos e eles se alteram ao longo do tempo. E que parcela majoritária da opinião pública brasileira está, perigosamente, se desviando para a direita, gerando um patrulhamento ideológico inaceitável ao ideário, digamos, “mais progressista”.

Opinião pública não é só estereótipo. Lippmann escreveu há quase 100 anos e seu livro “Opinião Pública” é mais um ensaio do que um estudo acadêmico. É uma obra importante na história das ideias. Mas não faz nenhum sentido científico usar o conceito como única categoria de análise. Quando se avalia um governo, por exemplo, e 45% dos entrevistados o consideram ótimo e bom, isso não é um estereótipo. Ao emitir um juízo, o entrevistado pondera aspectos econômicos, simbólicos, de empatia com o governante, propaganda e por aí vai.

A opinião pública está muito longe de ser “um amontoado de retratos mentais que uma sociedade resolve aceitar como fidedignos”, como acredita Bucci. É muito mais complicado que isso. A opinião, na verdade, tem a ver com crenças, mas na sua formação, leva em conta também fatores racionais e as informações disponíveis. Ela está em algum ponto intermediário entre aquilo que a pessoa “acha” e aquilo que ela “sabe” (ou pensa que sabe).

Razão: a opinião pública tem muito de razão. Quando realizamos uma pesquisa qualitativa, por exemplo, o objetivo é justamente buscar quais as motivações que embasam essa ou aquela opinião. As pessoas explicam que acham isso por causa daquilo – e existe uma lógica na explicação, ainda que algumas premissas possam não corresponder aos fatos. Dois cientistas políticos americanos, Benjamim I. Page e Robert Y. Shapiro escreveram um livro chamado “The rational public”, no qual comprovam, com uma quantidade impressionante de dados, 50 anos de estabilidade e a racionalidade na opinião pública americana. É possível enxergar coerência até quando as opiniões mudam.

No seu artigo, Bucci diz que estereótipos mudam e que “um signo positivo se converte em negativo da noite para o dia”. E cita o caso de Yasser Arafat, que era um símbolo do terrorismo e ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Mas não foi o estereótipo de Arafat que mudou. Quem mudou foi Arafat. E o mundo percebeu que o ex-guerrilheiro se tornou um fabricante de acordos, um militante da harmonia. E a opinião sobre ele mudou em bases racionais, não através de crenças ou algo do gênero.

Bucci, em sua reflexão, está muito preocupado com o “ethos” bolsonariano. Segundo ele, “a patriotice vazia de que o Brasil estaria ‘acima de tudo’ (como a Alemanha esteve no passado) vingou”, e isso seria péssimo. É maroto associar o patriotismo ao autoritarismo, à direita, ao nazismo. As populações dos países com as democracias mais sólidas, funcionais e admiradas do planeta – EUA, Inglaterra e França -, são patriotas ao extremo. Além disso, é preferível “o Brasil acima de tudo” do que “o Estado acima de tudo” ou “o partido acima de tudo”.

Diz Bucci que as palavras comunismo e socialismo “transmutam-se em sinônimo de corrupção, ineficiência e parasitismo”. Por que será? Será porque a experiência em todos os países socialistas do mundo fracassou? Será porque a Coreia do Sul se desenvolveu muito mais do que a Coreia do Norte? Por que a Alemanha oriental produzia Mercedes, Audis e BMWs enquanto a Alemanha Oriental fabricava Trabants? Será porque o governo do PT assaltou a Petrobras e jogou o Brasil na maior crise econômica de sua história? Tudo tem sua razão de ser.

Não vivemos mais na Idade Média, tempo de crenças, superstição e bruxos. Tampouco em sociedades primitivas, com pajelanças e medo de trovão. As pessoas de hoje se informam, moram em grandes centros urbanos, veem celular o dia todo e estão integradas no mundo. O bigdata não só é capaz de identificar quais são as opiniões das pessoas, mas também o que elas querem e até o que elas sentem.

Bucci cita o exemplo da Globonews, que antes era atacada como sendo de direita e hoje recebe ataques por ser “a catedral do politicamente correto e do ‘marxismo cultural”. Isso pode até ser verdade, mas é que o eixo hegemônico, para usar uma expressão gramsciana, mudou. Durante 13 anos o PT monopolizou tudo, comprou às escâncaras jornalistas e até criou uma Empresa Brasileira de Comunicação. Onde estavam os vigilantes do equilíbrio, os guardiões da democracia? Há muita diferença de tom entre Gleisi Hoffman e Olavo de Carvalho? Entre Marco Aurélio Garcia e Ernesto Araújo? Venhamos e convenhamos…

Bolsonaro ganhou porque o ideário de esquerda fracassou miseravelmente. A sociedade não se cansou do estereótipo do PT, se cansou do PT, que fez por merecer. Lula está preso. As instituições políticas estavam em seu pior momento em termos de credibilidade porque, dia após dia, políticos estavam na TV envoltos em escândalos de toda ordem. Porque, num país de 13 milhões de desempregados, um ministro da República guardava R$ 51 milhões em dinheiro vivo na sala de um apartamento vazio. Isso sim é excêntrico.


ˇ

Atenção!

Esta versão de navegador foi descontinuada e por isso não oferece suporte a todas as funcionalidades deste site.

Nós recomendamos a utilização dos navegadores Google Chrome, Mozilla Firefox ou Microsoft Edge.

Agradecemos a sua compreensão!