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{ ARTIGO }

Rubens Figueiredo: ‘Bem-vindo ao reino da novidade’

Cientista político Rubens Figueiredo, consultor do Espaço Democrático, escreve sobre as singularidades do governo Bolsonaro

 

 

 

Rubens Figueiredo, cientista político e colaborador do Espaço Democrático

 

 

O governo Bolsonaro é singular, único, “sui generis“. A partir da eleição de Fernando Collor, nenhum presidente da República eleito ficou atrás no segmento mais pobre do eleitorado. Collor, FHC1, FHC2, Lula1, Lula2, Dilma1 e Dilma2 venceram a eleição e venceram entre os eleitores de menor renda. Bolsonaro, ao contrário, perdeu nas classes menos favorecidas e venceu nos segmentos mais abastados. Também pela primeira vez, um candidato com quase nenhum tempo na TV conseguiu ser vitorioso. Bolsonaro ganhou não só com o menor tempo, mas passando boa parte da campanha internado no hospital.

Collor, assim como Bolsonaro, também se posicionou em 1989 como um “outsider“: era contra os partidos, os políticos e as elites empresariais. Mas tinha apoio da Rede Globo de Televisão, que chegou até a editar um debate às vésperas da eleição, mostrando os melhores momentos do “caçador de Marajás” e os piores de Lula. Bolsonaro trombou feio com os meios de comunicação (revistas, jornais e a própria Globo) – e sofre por causa disso até hoje. Em sua entrevista no Jornal Nacional, durante a campanha, chamou à colação os até então intocáveis Willian Bonner e Renata Vasconcellos.

Ao contrário de seus antecessores, Bolsonaro montou um Ministério sem dar importância para os partidos e à classe política. O Congresso Nacional também tem uma composição completamente diferente das anteriores: a fragmentação nunca foi tão grande. São 30 partidos com representação. São nove agremiações com números entre 28 e 37 parlamentares. No primeiro governo Lula, apenas os dois principais partidos da base governista – PT e PMDB – somavam 167 deputados. Hoje, as duas principais agremiações governistas agrupam 89 deputados – e olhe lá…

Mas o que impressiona não é isso. Por incrível que pareça, apesar de desprezar a classe política, se negar a assumir a articulação, ter um partido frágil (o PSL) e não ter um líder de governo competente, Bolsonaro está indo bem nas votações do Congresso Nacional. Dados do “Basômetro” do jornal O Estado de S. Paulo (30/6/2019) mostram que o atual governo tem a mesma porcentagem de parlamentares a seu lado que tiveram Lula2 e Dilma em seu primeiro mandato. E está melhor, até agora, do que Dilma em seu segunda administração. Um fenômeno.

Outra peculiaridade do governo Bolsonaro é a capacidade de gerar crises internas do nada. O agora aparentemente silencioso Olavo de Carvalho, por exemplo, tumultuou o quanto pode. Indicou para o estratégico e importantíssimo Ministério da Educação um professor ao qual não conhecia pessoalmente. Trocou farpas e palavrões com generais. Os filhos do presidente também são nitroglicerina pura. A demissão do ministro Bebiano se deu após uma conversa ríspida no WhatsApp, devidamente vazada para toda a Nação. A demissão de Joaquim Levy aconteceu de forma canhestra. E por aí vai.

Outra bizarrice é que o governo tem um ministro da Justiça “popstar” e, pasme, mais popular do que o próprio presidente da República. A falta de articulação política deu ao Congresso Nacional um protagonismo desproporcional ao prestígio que a instituição goza na sociedade. É interessante: um presidente de extração autoritária, que se elegeu de costas para a classe política, oxigenando e “empoderando” o segmento que mais criticou. Além disso, Bolsonaro bateu o recorde mundial de antecipação de eleição: em menos de seis meses de Governo discutiam-se abertamente os candidatos à sucessão… de 2022!

Esse governo com características tão excêntricas consegue que parcela ponderável dos eleitores mais escolarizados (e, portanto, mais exigentes) se mobilize e vá para as ruas apoiá-lo. Também teve o mérito de inverter a direção da opinião pública no que diz respeito à necessária e urgente Reforma da Previdência. Em abril de 2017, o Datafolha mostrava que 51% dos brasileiros rejeitavam a Reforma. Em maio de 2019, o Ibope apontava que 59% a consideravam necessária. Por fim, tem uma área econômica sintonizada com o mundo moderno, que está trabalhando para melhorar o ambiente de negócios – além da MP 881, da liberdade econômica, já estão em prática o Cadastro Positivo e a Empresa Simples de Crédito – e diminuir o tamanho do Estado. É muita novidade para um governo só.


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