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{ ARTIGO }

Uso estratégico dos mapas para entender a criminalidade

Sociólogo Tulio Kahn mostra que bons dados, bons mapas e análise ajudam a interpretar e prever a localização dos crimes

 

 

 

Tulio Kahn, sociólogo e colaborador do Espaço Democrático

 

Edição: Scriptum

 

Mapas criminais são utilizados operacionalmente pelas polícias para orientar, por exemplo, a distribuição de efetivos e viaturas no policiamento ostensivo ou ainda para investigação de crimes seriais pela polícia judiciária.

Mapas podem também ser de grande utilidade no planejamento estratégico da segurança, sugerindo a conexão do crime com outros fenômenos sociais e econômicos: como os mapas permitem exibir simultaneamente diversas camadas de informação (layers), é possível visualizar os crimes em conjunto com informações socioeconômicas e urbanas, permitindo assim estabelecer conexões entre concentrações criminais e processos sociais e urbanos.

Trabalhando simultaneamente com indicadores criminais e indicadores populacionais, por exemplo, é possível criar mapas de risco epidemiológico, com taxas por mil habitantes, que podem nos sugerir uma visão do fenômeno totalmente nova em comparação com o mapeamento de casos absolutos. Por exemplo, uma área tranquila do centro cidade pode se revelar uma área de elevado risco relativo, quando comparamos o número de homicídios com a população do local. Do ponto de vista policial operacional, precisamos saber onde ocorrem as maiores concentrações de casos, pois atuando ali obtemos melhores resultados. Mas do ponto de vista estratégico, um mapa de risco epidemiológico nos ajuda a compreender o fenômeno em profundidade.

Estas conexões entre bases permitem o melhor entendimento das causas ou fatores que facilitam o crime e planejar uma atuação estratégica dos órgãos de segurança sobre estas causas e fatores. Eles podem mostrar, por exemplo, que há uma correlação entre áreas com sinais de desordem urbana física e social e os furtos, sugerindo que uma atuação sobre a desordem pode implicar na redução dos furtos na área.

A distribuição das concentrações criminais no espaço nunca é aleatória: há sempre algo que explica porque ela ocorre aqui e não lá e saber o tipo de atividade que ocorre naquele local nos ajuda a entender e combater o fenômeno criminal. Com base no conhecimento das características típicas dos locais que atraem ou repelem certos tipos de crime, é possível mesmo se antecipar aos criminosos e prever para onde os crimes podem se deslocar.

Os hot spots nos mostram onde os crimes ocorreram, quando olhamos pelo espelho retrovisor. Como boa parte dos hot spots são estáveis no tempo, é possível utilizá-los também para prever onde os futuros crimes ocorrerão.

Todavia, existem locais com características semelhantes que por diversos motivos nunca se tornaram um hot spot, embora sejam vulneráveis. Assim, por exemplo, se fizermos uma intervenção qualquer num hot spot, é provável que os criminosos migrem para estes espaços vulneráveis, que são espacialmente próximos e apresentam características similares.

É possível prever e se antecipar aos criminosos? Se tivermos bons “preditores” é possível. Existe, por exemplo, uma correlação entre o uso do solo – as atividades econômicas sociais que se desenrolam no espaço – e os tipos de crimes. O Plano Diretor da cidade pode ser um bom preditor da distribuição espacial dos crimes. O zoneamento urbano organiza e reflete as atividades e “vocações” existentes numa determinada área e procura preservar estas características ou estimular novas funções de acordo com as possibilidades da área.

Em São Paulo, por exemplo, existem 15 diferentes zonas estabelecidas pelo Plano Diretor, segundo a função predominante da área: 01 Residencial Horizontal Baixo Padrão, 02 Residencial Horizontal Médio-Alto Padrão, 03 Residencial Vertical Baixo Padrão, 04 Residencial Vertical Médio-Alto Padrão, 05 Comércio e Serviços, 06 Indústria e Armazéns, 07 Residencial Comercial e Serviços, 08 Residencial Indústria e Armazéns, 09 Comercial Serviços Indústria e Armazéns, 10 Garagens, 11 Equipamentos Públicos, 12 Escolas, 13 Terrenos Vagos, 14 Outros Usos, 15 Sem Predominância. Dentro de um Distrito Policial ou Cia, coexistem geralmente diversas zonas, embora geralmente um tipo seja predominante.

O zoneamento reflete, mas também acaba por determinar e influenciar o tipo de atividade social e econômica predominante numa região, o que por sua vez influencia o tipo de “oportunidades criminais” existentes na área: zonas residenciais horizontais de baixo padrão tendem a concentrar homicídios, crimes sexuais, tráfico de drogas e conflitos interpessoais violentos, mas os furtos são raros. Em contraste, zonas residenciais verticais de padrão médio e alto, tendem a concentrar furtos de veículos e acidentes leves de trânsito, sendo raros os homicídios.

As zonas residenciais horizontais de padrão médio e alto tendem a favorecer as ocorrências patrimoniais relacionadas a residências, bem como os roubos de veículos, enquanto são raros os furtos em estabelecimentos comerciais e bancários. Embora sejam poucas, as zonas residenciais verticais de baixo padrão (predominância de projetos habitacionais populares) são propícias para os crimes sexuais, bem como os desentendimentos interpessoais verbais.

Como seria esperado, zonas comerciais e de serviços concentram as ocorrências de todas as modalidades de furto (exceto de veículos) e crimes relacionados ao comércio como crimes contra o consumidor, moeda falsa, estelionato e sonegação fiscal, enquanto as zonas de predominância industrial favorecem os furtos a estabelecimentos comerciais e outros. Nas zonas com terrenos vagos encontramos muitos crimes de trânsito, bem como homicídios e estupros, sendo raros os furtos e roubos, dada a escassez de atividades econômicas, enquanto nas zonas onde preponderam atividades escolares encontramos os diversos crimes contra os estabelecimentos de ensino, mormente os furtos tentados.

Estes exemplos indicam que os criminosos se movem para onde existem as oportunidades criminais e que as atividades sociais e econômicas locais, bem como o tipo de “habitat”, influenciam o tipo de ocorrência observada numa área. Conhecer o zoneamento da área em que se atua, portanto, fornece pistas importantes para explicar e prever o tipo de crime na área.

No mapa abaixo, vemos em azul os polígonos classificados pelo zoneamento como zonas de comércio e serviço. Não por acaso, os hot spots de furto e roubo (círculos verdes e vermelhos) da região Leste da cidade estão posicionados precisamente em volta destas zonas.

 

Observe-se, contudo, que existem diversos outros polígonos azuis (zonas comerciais e de serviços) que não são hot spots de furtos e roubos. Mas muito provavelmente são espaços vulneráveis, pois espacialmente próximos e similares, do ponto de vista das atividades econômicas e sociais. Se alguma intervenção for realizada pelo poder público – por exemplo, policiamento reforçado nos hot spots – temos uma boa ideia de para onde os criminosos se deslocarão. Uma base de dados sobre o clima e previsões climáticas, por sua vez, pode ajudar a prever como os crimes flutuarão no tempo. Uma base cartográfica de “equipamentos” tem também poder preditivo, pois conhecemos os efeitos “atratores” dos meios de transporte, favelas, universidades, etc. sobre alguns tipos de crimes.

Vemos aqui um bom exemplo da importância de agregarmos outras bases de dados à análise criminal e como elas ajudam a interpretar e prever a localização dos crimes. Enquanto os hot spots nos mostram o passado, conhecer os espaços (e tempos) vulneráveis nos ajuda a antecipar os próximos movimentos e planejar em conformidade com o previsto. Não é preciso recorrer aos videntes, como no filme Minority Report! Bastam bons dados, bons mapas e um pouquinho de análise.

 


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