As guardiãs que protegem a periferia de São Paulo

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Joyce Santos Correa entrega um kit com orientações de volta às aulas

 

Elas são mais de 100 mulheres. São donas de casa, trabalhadoras, avós, mães, esposas, moradoras do Jardim Lapena, na zona Leste de São Paulo, a cerca de 30 quilômetros do centro da cidade. Desde março do ano passado elas se tornaram também guardiãs da comunidade. Todos os dias este pequeno exército distribui, de porta em porta, máscaras de proteção, álcool em gel, kits de limpeza, alimentos, material escolar e informações sobre a covid-19, além de todo o tipo de ajuda para uma população pobre que vive na periferia da cidade mais rica do Brasil.

Reportagem de Felipe Betim no site de El País mostra como estas mulheres se organizaram para minimizar os efeitos da pandemia de coronavírus entre seus mais de 15.000 vizinhos.

É tarde de sexta-feira, 12 de fevereiro, e oito das guardiãs, como se chamam, carregam em suas mãos as doações do dia. Caminham nas ruas de terra batida de uma área especialmente vulnerável do bairro, construído junto ao rio Tietê. Vão de porta em porta. São atendidas quase sempre, primeiro, pelas crianças que moram nessas casas e, em seguida, por suas mães. “Aqui é um kitzinho com máscara, álcool em gel, orientação para a volta às aulas e um livro, tá bom?”, anuncia Joyce dos Santos, de 25 anos, ao entregar dois pacotes — um por filho — para Andressa Cristina Santana. Não é a primeira vez que ela é beneficiada por ações do movimento.

As guardiãs Kelly de Souza e Marcia Silva Araújo

Foi durante uma ação parecida que o grupo surgiu de forma espontânea, ainda no início da pandemia, recorda Vânia Silva, de 40 anos. Ela conta que, quando souberam da notícia de que o Brasil começara a registrar casos do novo coronavírus, mobilizaram algumas mulheres que já faziam algum tipo de trabalho social na região. O nome do grupo surgiu por acaso, em um dia em que entraram em uma área ocupada irregularmente para levar os kits aos moradores. “É um labirinto e não sabíamos como sair de lá. Ligamos para uma colega, que mandou uma amiga que morava ali encontrar com a gente. E a Monalisa sabia exatamente onde estávamos”, conta Vânia. “Quando terminamos, falamos sobre como seria bom ter uma mulher com conhecimento de cada parte do bairro, como seria mais fácil esse trabalho. Ao agradecer, disse ‘muito obrigada, você foi nossa guardiã hoje’. E desde então ela ficou guardiã daquele espaço.”

Esse tipo de mobilização não é novo em bairros periféricos e favelas, mas ganhou força ao longo da pandemia em lugares como Paraisópolis, em São Paulo, e Complexo do Alemão e Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. A necessidade da população falou mais alto. “Esse movimento cresceu e está crescendo porque a própria população observa nosso trabalho e nossas ações. Sempre que vamos entregar uma doação, as pessoas beneficiadas também se interessam em ajudar”, explica Angela Barbosa dos Santos, de 38 anos.

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