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Como o barulho em lugares públicos se tornou objeto de disputa de convivência

O excesso de ruído se transformou em disputa simbólica e concreta nas cidades, afetando relações sociais, políticas urbanas e até setores econômicos

O barulho hoje se transformou em disputa simbólica e concreta nas cidades brasileiras, afetando relações sociais, políticas urbanas e até setores econômicos

 

Edição Scriptum com Estação do Autor e Valor Econômico

 

Quem mora numa grande metrópole é obrigado a conviver com ruídos constantes. O barulho hoje se transformou em disputa simbólica e concreta nas cidades brasileiras, afetando relações sociais, políticas urbanas e até setores econômicos como turismo, transporte e hospitalidade. Esse fenômeno se dá pelo cruzamento entre cultura, tecnologia, individualismo e falhas de gestão pública. É o que mostra Reportagem de Caio Delcolli para o Valor Econômico (assinantes).

Para o antropólogo urbano José Guilherme Magnani, da USP, quando se trata de música em volume alto no transporte público, esta é uma das várias maneiras de não levar em consideração o direito do outro, neste caso, o direito ao silêncio.

O problema dialoga com o avanço do individualismo, diz Ana Bock, psicóloga social da PUC/SP. Muitos comportamentos ruidosos derivam de uma indiferença ao outro. Em sua opinião, existem pessoas que sabem que incomodam e seguem adiante porque se sentem autorizadas a desconsiderar o outro. Outras simplesmente não percebem porque naturalizaram a norma do ‘eu primeiro’”, afirma a psicóloga. Essa “licença social para a descortesia”, como ela chama, se amplia em períodos de maior hostilidade e enfraquecimento de laços comunitários.

Marcus Lira, diretor do Instituto Rei Sejong da Universidade de Brasília, lembra que países como Japão e Coreia do Sul são citados como exemplos de sociedades silenciosas, mas a realidade é mais complexa. No metrô de Tóquio, há campanhas de etiqueta desde os anos 1970, com cartazes pedindo silêncio. Em Seul, a prefeitura chegou a distribuir fones de ouvido. Mas isso não significa ausência de barulho. Significa presença de pressão social e institucional para contê-lo, explica. Em outras palavras: não é a cultura em si que garante silêncio, mas a combinação de normas, campanhas públicas e a ação dos próprios passageiros, que intervêm quando alguém foge à regra.

No Brasil, a situação formalmente é regulada, mas de forma fragmentada. A Lei do Psiu (Programa Silêncio Urbano), em São Paulo, define limites de decibéis e horários para bares e casas noturnas.

No campo tecnológico, aplicativos de medição cidadã como NoiseCapture, Decibel X e SoundPrint permitem que moradores registrem ruídos e compartilhem dados em mapas colaborativos. Em termos urbanísticos, arquitetos defendem a criação de “zonas de respiro sonoro” em praças e parques, além de exigências mínimas de isolamento em bares. Não se trata apenas de punir quem incomoda, mas de cultivar atitudes solidárias. Conviver exige cuidado com o outro. Sem isso, a cidade perde a chance de ser um espaço realmente compartilhado, pondera Ana Bock.


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