Interpretações do Brasil – Uma antologia

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PARA PENSAR

 

 

 

Luiz Alberto Machado, economista e colaborador do Espaço Democrático

 

 

“De forma sucinta, é possível considerar que a preocupação predominante, nos anos que se seguem à independência, não foi, nem pode ter sido, em interpretar o Brasil, mas sim de criar referências nacionais para o país recém-independente. Como no resto da América, tratava-se mesmo de fazer com que a independência política fosse seguida pelo que alguns chamam de emancipação mental.”

Bernardo Ricupero

 

 

 

 

 

Com este artigo, a Fundação Espaço Democrático dá início a um nova série, que tem por objetivo oferecer aos seus seguidores uma visão geral das principais correntes de interpretação do Brasil, bem como dos principais debates que permearam a nossa história nos campos político, econômico, cultural, social e antropológico.

A cada mês será publicado um artigo com suas referências bibliográficas e, nas semanas seguintes, serão publicadas breves resenhas dessas – e, eventualmente, de outras fontes bibliográficas e/ou webgráficas – referentes à corrente de interpretação ou debate objeto daquele artigo.

Desta forma, os seguidores da Fundação Espaço Democrático terão à disposição um referencial bibliográfico suficiente para um conhecimento abrangente e abalizado acerca da formação histórica do Brasil, passo importante para uma compreensão dos caminhos que nos conduziram ao que somos nos dias de hoje.

Abrindo esta série, um artigo/resenha em que comento um livro publicado em 2007 pela Editora Alameda, que é uma espécie de antologia sobre o tema. De autoria de Bernardo Ricupero, doutor em Ciência Política e professor da Universidade de São Paulo, o livro Sete lições sobre as interpretações do Brasil não pode estar ausente da biblioteca de nenhum professor ou pesquisador que se dedique ao ensino e à pesquisa da formação histórica do nosso país, bem como de qualquer pessoa interessada em ter uma noção mais aprofundada a respeito desse assunto.

Feito esse esclarecimento, o livro de Bernardo Ricupero parte de um capítulo inicial que tem por título a provocativa pergunta: Existe um pensamento político brasileiro? Nele, o autor procura não apenas compartilhar suas reflexões com o leitor, como também explorar um pouco duas questões para ele intrigantes: por que as interpretações do Brasil não surgiram durante o Império e por que passaram a ser menos comuns depois da década de 1930, justamente quando a vida universitária e a reflexão acadêmica se tornaram mais intensas e, pelo menos em tese, mais propícias a esse tipo de análise?

Na sequência, Bernardo Ricupero faz uma incursão pelas contribuições de seis dos mais respeitados intérpretes da nossa realidade, Oliveira Viana (1883-1951), Gilberto Freyre (1900-1987), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Caio Prado Jr. (1907-1990), Raymundo Faoro (1925-2003) e Florestan Fernandes (1920-1995).

No capítulo dedicado a cada um deles, em que se revela claramente o espírito de autêntico scholar do autor, um mesmo roteiro: inicialmente, algumas pinceladas sobre a biografia, o que permite que o leitor possa contextualizar a vida desses grandes estudiosos do nosso país, situando-os no tempo e no espaço; a seguir, um breve resumo da obra mais importante de cada autor, realçando as influências intelectuais mais relevantes que eles sofreram, as linhas filosóficas e as correntes metodológicas pelas quais enveredaram e os principais pontos que fizeram questão de realçar; segue-se uma interessante análise intitulada Interpretações, em que o autor estabelece conexões entre as contribuições dos seis ilustres pensadores por ele selecionados, apontando pontos de coincidência, divergência ou complementaridade nas diversas abordagens; por fim, Indicações de leitura, com sugestões de publicações de terceiros sobre a vida e a obra dos seis grandes intérpretes.

As obras destacadas por Bernardo Ricupero de cada um dos seis intérpretes – e que serão objeto de breves resenhas nas próximas semanas – são: Populações meridionais do Brasil, de Oliveira Vianna; Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (que gostava, apesar de todas as suas realizações, de se referir a si mesmo simplesmente como “o pai do Chico”); Formação do Brasil contemporâneo: colônia, de Caio Prado Jr.; Os donos do poder, de Raymundo Faoro; e A revolução burguesa no Brasil, de Florestan Fernandes.

Um parêntese para um registro feito por Bernardo Ricupero na Introdução. Ele optou por não incluir em sua antologia dois outros grandes intérpretes do Brasil, Celso Furtado e Antonio Candido, pelo fato de terem preferido concentrar esforços em campos muito específicos, a economia e a crítica literária, respectivamente.

Não se trata de um livro que agrade a qualquer um. Por se referir ao pensamento e às obras de seis dos mais consagrados intérpretes da realidade brasileira, supõe que aquele que se interessar por sua leitura tenha um conhecimento prévio das contribuições desses notáveis pensadores que, de certa forma, nos permitem entender melhor por que o Brasil é o que é hoje. Com isso, não quero de maneira alguma desencorajar àqueles que não tiveram ainda a oportunidade de ler as obras dos seis personagens focalizados no livro de se aventurarem à sua leitura. Pode ser até uma ideia interessante, tomar o livro de Bernardo Ricupero como um roteiro para uma posterior leitura das contribuições de todos ou de alguns desses seis pensadores, dependendo do interesse de cada um.

 

Referências e indicações bibliográficas

FAORO, Raymundo. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. 3ª edição. Rio de Janeiro: Globo, 2001.

FERNANDES, Florestan. Revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Globo, 2006.

FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. 48ª edição. Rio de Janeiro: Global Editora, 2006.

HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

PRADO JR., Caio. Formação do Brasil contemporâneo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

RICUPERO, Bernardo. Sete lições sobre as interpretações do Brasil. São Paulo: Alameda, 2007.

VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. 3ª edição. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987.

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